O Cinema suecado

Be Kind, Rewind. Vi este filme pela primeira vez num voo de longa duração, entre um formigueiro no joelho esquerdo e uma ou outra soneca breve. Há dias, falavam-me com entusiasmo do enredo do último filme de Michel Gondry; a poucos comecei a reconhecer uma comédia desaparafusada e sem grande nexo que já vira algures. Uma fita meio absurda com o quase intragável Jack Black. Intrigado pela recomendação, acabei por me relembrar dos fragmentos absorvidos a caminho de Luanda. E lá vi a coisa outra vez, desta feita mais ou menos acordado.

E que belo filme, meus amigos. É afinal um garboso herdeiro para o magnífico Ciência dos Sonhos, mesmo que num registo bem diverso. Como não quero revelar-vos segredo algum, deixem-me sugerir-vos apenas que se trata de uma espécie de Cinema Paraíso em crescidinho e em regime de comédia aparentemente desbragada. Mas há mais: uma reinvenção de toda a ideia de fruição do Cinema, presidida pela vontade de apropriação, refeitura e festa comunitária. Quando as personagens desatam a “suecar” os filmes mais desejados, fazem-no comprimindo o tempo e a essência, reduzindo horas a 20 minutos e toda a 7.ª Arte a dois capítulos (Comédia e Acção, claro). De caminho celebra-se o mundo dos filmes evadidos do YouTube, reivindica-se o absoluto direito a remisturar todas as imagens, todas as instâncias históricas que  supostamente nos rodeiam. Tudo é plástico e  “suecável”; o fabuloso cameo de Sigourney Weaver, como representante dos empacotadores de blockbusters, é apenas mais uma forma de assinalar a emergência de um novo Cinema: sobre as ruínas do copyright, festeja-se a alegria de lá estar dentro, de reconhecer vidas e fisionomias reais no brilho do celulóide sempre tão falso. Que um filme assim ainda possa ser produzido dentro da green zone dos estúdios dominantes não pode deixar de ser visto como um sinal de esperança.

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4 respostas a O Cinema suecado

  1. Raínha, explica-lá esse conceito de cinema “suecável”. … … …

    Não sei se conheces o trabalho do Lukas Moodysson. Deixo aqui um link ( um trabalhão para encontrar!!!)

    http://f-se.blogspot.com/2008/05/f-se-container-lukas-moodysson-excerpt.html

    Enfim. Há mais Cinema para lá do Bergman ( tão visceralmente irritante aos suecos, tb!).
    A Ciência dos Sonhos, n me rendeu especialmente …
    Mas fizeste-me recordar um amigo meu q vive na suécia y q dita “cartas” ( N deixou passar o “Antes que Anoiteça” na Rede da Europa Cinemas de Lá!! ehehe o Argumento: Em Cuba não há gays y o Fidel não prende ninguém por Homossexualidade. O Filme era um difamação. Logo a Suécia tinha de ser solidária … verdade!!! LOL! Y os Suecos n viram o Filme…) .. Dizia: esse meu amigo é um contador de Histórias da Amor, conta-as como se tivesse a contar um Filme ( Y ele vive num filme permanente, tb ´faz dos filmes a sua vida). Logo, vai ver o Slumdog B$ilionair com esse espírito. O Filme é Belíssimo! Com esse encantamento de ser uma história que se conta … sair daí é cair do filme, y perdê-lo! É de facto um filme com uma dimensão especial, que ainda não foi devidamente explorada. Como ouvi que por cá adaram a dar bolas pretas ao filme, achei por bem salvaguardar-te esta perspectiva ( tb n sei se lês os “Críticos”, …)

    OK! Conta lá essa coisa do “Suecável” … ( Conheço + suecos do q pt’s, por isso, perco-me na metafora. Vale.

  2. Luis Rainha diz:

    Acabei agora mesmo de ver o “Slumdog”. Estava preparado para embirrar com a fita, mas não. É um olhar altaneiro e porno-abjeccionista sobre a Índia? Talvez. Mas continua a ser uma boa história bem contada e apoiada em grandes (ou pequenos) actores. O resto fica secundário.

  3. Luis Rainha diz:

    Isso do “suecado” só com um spoiler é que te podia explicar. Mas podes ir vendo isto

  4. Este vídeo tem de facto um toque de Lukas Moodysson ( “Um Buraco no Coração” / A Holy In My Heart”, este filme é excelente. Digamos que pode funcionar como uma versão conistente do vídeo, enquanto cinema). Já começo a “imaginar” o q possa ser. Vale.

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