A obra redonda de António Lobo Antunes

António Lobo Antunes tem pregado vários sustos aos seus leitores e aos outros como eu, talvez porque a vida também lhe tenha pregado alguns sustos a ele. Aqui há coisa de um ano e tal, tendo-se safado de uma doença foleira e percebido que “a morte é uma puta” (palavras suas), passou a ser homem de “um outro amar” (palavras do jornalista, prefiro pensar) e prometeu ao país e ao mundo que o lê e que o estima “mais um, mais dois, mais três livros…”, para “arredondar” o seu trabalho, que seria “um círculo ainda não completo”. Pouco mais de um ano depois, quando se aproximam os trinta anos da sua carreira literária e a hora de falar de um novo livro, Lobo Antunes volta a falar do fim: “Mais dois anos e calo-me. Calo-me de vez, já chega. Só queria deixar a obra redonda.” As conclusões a tirar são várias: a primeira e mais evidente é a evolução dos títulos das obras do autor, do simples (“Memória de Elefante” ou “Cus de Judas”, que eu ainda conseguia ler) para o complexo (“Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?” é o auspicioso título do seu próximo romance, a publicar em Outubro); a segunda é a sua obsessão pela figura do círculo e pela esfericidade da sua obra, que faz lembrar (e isso só o honra) a daqueles futebolistas que tratam tão bem a bola com os pés que correm o risco de se esquecer que o objectivo do futebol (the goal of football) é marcar o dito e não exibir dotes de circo; terceira, se Lobo Antunes dantes chamava à morte puta, no essencial porque ela se metia com ele sem ele se ter metido com ela, agora trata-a com desplante de toureiro e parece admitir a possibilidade de uma relação, mas em termos por ele ditados: porque ninguém acredita que Lobo Antunes resista à conclusão de que a sua obra está enfim redonda, nem que estando vivo se cale: há uma nota suicidária implícita na sua última entrevista e só me espanta que ainda ninguém tenha falado nisso.

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SEXTA | António Figueira
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5 respostas a A obra redonda de António Lobo Antunes

  1. LAM diz:

    Leiam a coluna de opinião de Manuel António Pina no JN de 5ª feira passada:
    http://jn.sapo.pt/Opiniao/default.aspx?content_id=1148389&opiniao=Manuel%20Ant%F3nio%20Pina

  2. Luis Rainha diz:

    Já houve muitas passagens à condição de ágrafo que não implicaram nenhum gesto assim tão dramático. Mas não deixa de ser uma boa análise.

  3. Metem-se na porcaria das metáforas, dá nisto. Sem desprimor para o António Lobo Antunes, que até pode ser uma jóia de um escritor (não sei porque nunca li nada dele até ao fim, na fase simples já era demasiado complexo para a minha evidentemente limitada compreensão), muito menos para o esférico, as formas circulares estão overrated. Há frases redondas que dão livros quadrados, mistério que a geometria euclidiana não explica, e ALA às vezes abusa da quadratura do círculo: no último livro-dele-que-não-li-até-ao-fim, o escritor descrevia um derrière feminino que nada até aí fazia supor anormal como o “balão redondo das nádegas” (cito de memória apesar de não o ter lido há anos, fiquei vivamente impressionada), o que, não desfazendo, é uma imagem um bocado cagona. Acho que o problema é o Lobo Antunes não ter aprendido com o amigo Cardoso Pires as virtudes salvíficas do álcool: na tal entrevista em que chama puta à morte, diz que “nunca tom[ou] drogas, nunca apanh[ou] uma bebedeira na vida. Não beb[e] café, não [lhe] dá prazer” (o que faz dele duplamente teetotaller, e explica muita coisa). “Acho que o único vício que tenho é fumar”, diz. Well light(en) up, will you? (I know, I’m rambling, I’m drunk).

  4. “Acho que o problema é o Lobo Antunes não ter (…)”, MdV
    Qual problema? e de quem?

    … e caro Luis Rainha: uma nota suicidária com dois anos de antecedência?
    Hmm; é um desejo seu?

  5. … isto é: António Figueira.

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