A obra redonda de António Lobo Antunes
21 de Fevereiro de 2009 por António FigueiraAntónio Lobo Antunes tem pregado vários sustos aos seus leitores e aos outros como eu, talvez porque a vida também lhe tenha pregado alguns sustos a ele. Aqui há coisa de um ano e tal, tendo-se safado de uma doença foleira e percebido que “a morte é uma puta” (palavras suas), passou a ser homem de “um outro amar” (palavras do jornalista, prefiro pensar) e prometeu ao país e ao mundo que o lê e que o estima “mais um, mais dois, mais três livros…”, para ”arredondar” o seu trabalho, que seria “um círculo ainda não completo”. Pouco mais de um ano depois, quando se aproximam os trinta anos da sua carreira literária e a hora de falar de um novo livro, Lobo Antunes volta a falar do fim: “Mais dois anos e calo-me. Calo-me de vez, já chega. Só queria deixar a obra redonda.” As conclusões a tirar são várias: a primeira e mais evidente é a evolução dos títulos das obras do autor, do simples (“Memória de Elefante” ou ”Cus de Judas”, que eu ainda conseguia ler) para o complexo (“Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra no Mar?” é o auspicioso título do seu próximo romance, a publicar em Outubro); a segunda é a sua obsessão pela figura do círculo e pela esfericidade da sua obra, que faz lembrar (e isso só o honra) a daqueles futebolistas que tratam tão bem a bola com os pés que correm o risco de se esquecer que o objectivo do futebol (the goal of football) é marcar o dito e não exibir dotes de circo; terceira, se Lobo Antunes dantes chamava à morte puta, no essencial porque ela se metia com ele sem ele se ter metido com ela, agora trata-a com desplante de toureiro e parece admitir a possibilidade de uma relação, mas em termos por ele ditados: porque ninguém acredita que Lobo Antunes resista à conclusão de que a sua obra está enfim redonda, nem que estando vivo se cale: há uma nota suicidária implícita na sua última entrevista e só me espanta que ainda ninguém tenha falado nisso.

Escreva um comentário