Por terras da Batalha (II)

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Vencidas as intermináveis curvas da serra, chegamos enfim à vila. A ansiedade que experimentámos, desde o início da viagem, para ver O monumento, finalmente vai ter o seu fim. De repente, ali estava ele, à nossa frente, grande, enorme, mais bonito do que nunca, melhor ainda do que a memória que dele nos ficara da última vez, éramos ainda tamaninos e insensíveis a estas coisas da arte e da história.
Visitar O monumento, por dentro e por fora. Dar voltas à sua volta. Entrar. Sair. Voltar a entrar. Não querer sair. Simplesmente olhar. Estar. Ficar. Longas horas que parecem curtos minutos. Ir embora. Voltar outra vez.
No início da visita, a igreja. «Transposto o portal nobre, banhados por instantes ainda da luz crua do exterior, à medida que nos internamos pela vasta nave central, fria. Severa e silenciosa, envolve-nos a sombra solene dos pilares e das abóbadas, que a policromia iluminante das janelas envidraçadas tenta debalde vencer.» (Vergílio Correia)

O que mais sobressai aqui é mesmo a altura – forma de «exaltação» e ao mesmo tempo de «subjugação» do Homem. Aliás, a visão da entrada da igreja quase faz perder a respiração, de tão soberbas que são aquelas paredes, aquelas colunas, toda aquela altura, todo aquele ambiente. «Ao entrarmos no templo maravilhoso, o sol acendia ao alto, nos vitrais da nave lateral, à direita, um clarão de oiro bizantino que dava ao cimo das abóbadas uma imaterialidade sobrenatural; e a luz, coada pelo prisma dos vidros, floria de roxo, amarelo e azul, em bandas oblíquas, os pilares. O sortilégio da luz transfigurava o templo. E foi neste ambiente de transcendência, realçado pela inserção espectral, que entramos no mosteiro. De nave em nave, de capela em capela, de claustro em claustro, acendia-se Portugal em expressão sublime: liam-se, canto a canto, os Lusíadas de pedra.» (Jaime Cortesão) (…)
No fim da visita, as Capelas Imperfeitas, ou Panteão de D. Duarte. Têm aquele nome pelo facto de nunca terem sido concluídas.
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Não faziam parte do plano inicial do mosteiro, mas foram mandadas construir pelo rei D. Duarte, sucessor de D. João I, para servir de túmulo a si e à sua família. Depois da sua morte, o projecto foi abandonado e as obras só recomeçaram com D. Manuel I, para serem interrompidas de novo, agora definitivamente, com D. João III. «Chove na praça descoberta, ou dardeja o sol a pino sobre a areia batida. Com sol ou chuva este panteão real é sempre frio e triste, como um sonho de grandeza interrompido.» (Vergílio Correia) (…)
No final, ficar com a sensação de que nada se viu. Passar à frente, afinal, porque há mais para ver. Custa, mas tem de ser.
Bem perto, mas já no concelho de Porto de Mós, encontra-se o Campo de S. Jorge, local exacto da Batalha Real.
Ali, respira-se a História. Ali, cheira-se a História. Quando paramos, sentimos os passos que Nun’Álvares deu. Quando nos calamos, ouvimos as ordens do Mestre de Avis feito D. João I. Se fechamos os olhos, logo nos apercebemos de cada movimento da vanguarda, das alas, da retaguarda que quase não precisou de entrar em acção. E é impossível não deixar de pensar que, há seiscentos anos, exactamente naquele sítio onde nos encontramos, o Condestável e o Rei estiveram ali, pisaram o terreno que nós estamos agora a pisar. Num belo dia de sol, embora não tão quente como aquele final de tarde de Agosto em que a História aconteceu. A História de uma Batalha que foi Real, mas que passou a ser de Aljubarrota. Da mesma forma que podia ter sido de S. Jorge.
Entre os vários vestígios que se conservam da refrega, conta-se, nos terrenos a sul da capela, uma cova cheia de ossos de 400 indivíduos, obviamente castelhanos. Em quase todos os ossos encontrados, faltavam invariavelmente as extremidades, certamente porque serviram de «banquete» aos lobos vindos da serra de Albardos nos dias que se seguiram. «Quem por esses dias passasse na estrada ouviria com horror, sobre a cumeada, um vasto e crepitante roer de ossos e o sôfrego deglutir das feras» (Jaime Cortesão).
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in «Batalha: A Vila da Vitória», Vila Nova de Gaia, IK Diagonal, 2009.

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7 respostas a Por terras da Batalha (II)

  1. Helena Costa diz:

    De facto, é magnífico o mosteiro. Aliás, toda a vila da Batalha é encantadora, repleta de história. Visitei-a recentemente e fiquei a saber que ali existiu uma cidade romana, a cidade do Colipo. Há vestígios dessa cidade (moedas, lápides, estátua dum senador).
    É pena, mas muitos locais de valor histórico não são divulgados, há muito trabalho por fazer no estudo, preservação e divulgação do nosso património.

  2. Aliás, alguém me deveria dar um prémio pelas carradas de amigos estangeiros que levo à Batalha!!! (E, já agora, a Évora também!).

  3. Luis Moreira diz:

    Chegar à Batalha e perceber que é sempre a primeira vez!

  4. Pingback: imaterialidade.net - cinco dias » Por terras da Batalha (II)

  5. R, a Batalha aborrece-me tanto. Gosto mais da simplicidade do mar, avistada de um qualquer 3 Castelos. Vale. ( 1 dia voltarei para ler os posts! da batalha …)

  6. Ricardo, se tiveres oportunidade e curiosidade, procura numa biblioteca aí pelo Porto, onde se ache disponível, a obra “O monumento da Batalha” do Visconde de Condeixa. Do melhor que se escreveu sobre o dito.

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Tens razão, Francisco, foi uma das obras que consultei para escrever o livro.
      Já agora, a referência completa: CONDEIXA, Visconde de – O Mosteiro da Batalha em Portugal: Monographia Ornada de Vinte e Seis gravuras heliographicas, Lisboa, Manuel Gomes, 1892.

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