Anna Ilona Staller no Porto


Este é um blogue essencialmente político. Como tal, cumpre-nos acompanhar o percurso dos políticos deste mundo. Os actuais e os antigos. 
Passou despercebida, para muita gente, mas não para nós, a passagem por Portugal de Anna Ilona Staller, deputada italiana nos anos 80 – é esse buraco que me proponho hoje preencher.

Anna Ilona Staller nasceu em Budapeste, Hungria, em 26 de Novembro de 1951. Obteve a nacionalidade italiana na década de 70 graças ao casamento com um produtor de cinema. Na sequência da participação num programa de rádio, acabou por adoptar o nome artístico que a celebrizou e que haveria de a conduzir à política – Cicciolina.
Em 1979, aderiu à Lista del Sole, o primeiro Partido ambientalista italiano. Os direitos humanos e a fome no mundo eram preocupações crescentes na sua actividade política, bem como a luta contra a NATO e contra a energia nuclear. Nesse sentido, inscreveu-se em 1985 no Partido Radical. Dois anos depois, após uma campanha muito aberta, é eleita pelo distrito da Lazio de Roma para o Parlamento de Itália.
Actualmente, arredada das lides partidárias, continua a ser uma activista dos direitos humanos. Nunca recusa posições polémicas. Luta ainda contra a energia nuclear, mas também contra a pena de morte e todas as formas de violência. Defende a legalização das drogas leves, a educação sexual nas escolas e o direito ao sexo nas prisões. A nível ambiental, propõe um imposto automóvel para reduzir a poluição e critica o uso de animais em experiências científicas.
Teve ainda uma longa carreira no cinema, iniciada em 1970 e terminada em 1989, apesar de algumas participações esporádicas depois daquela data. Está incluída no rol daqueles que, do cinema, saltaram para a vida política – como Ronald Reagan ou Arnold Schwarzenegger. Contracenou com inúmeros actores e actrizes ao longo de dezenas de filmes. «Encontro de Amor», «Dedicado ao Mar Egeu», «Telefone vermelho» ou «Banana e Chocolate» são apenas alguns exemplos. Numa atitude sem precedentes, marcou a «sétima arte» com as mesmas causas identitárias que a celebrizaram na política – o amor pelo Homem (e pela Mulher), sem distinção de cor, de idade ou de tamanho; a paixão pela educação, bem patente em «A Liceal», de 1975; a denúncia da hipocrisia humana em «Vícios privados, Públicas virtudes», do mesmo ano; a recusa da autoridade, em «A tutte auto della polizia», ainda de 1975; uma subtil crítica à Guerra Fria, no já referido «Telefone vermelho»; ou uma chamada de atenção para a escassez de alimentos no supra-citado «Banana e chocolate».
Mas o ser humano não está sozinho na Terra, e Anna Ilona Staller sabe-o. O amor pelos animais, tal como acontecera com o amor pelos homens, vai passar da política ao cinema. A actriz ama os animais e mostra-o sem complexos. Cães e, sobretudo, cavalos. Como naquela cena pungente, em que um pobre rafeiro, «mutt like me», é convidado a saciar-se em pleno regaço da anfitriã.
Anna Ilona Staller esteve no Porto no último fim-de-semana. É pena que quase ninguém tenha dado por isso.

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