Auto-retratos

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Gink, 2005 – Gilbert & George

No campo da arte, a pertença a regiões, escolas, scapes ou grupos em geral não é hoje, de todo, a única modalidade de afirmação da identidade; desde Joseph Beuys (com a sua monomania em torno dos materiais associados ao seu acidente como piloto da Luftwaffe) que o trajecto biográfico do criador tem frequentemente sido elevado a tema central da sua obra e não apenas, como ressalvou Scott Lash, nas modalidades expressionistas ou semióticas associadas a artistas como Barbara Kruger e Cindy Sherman. Para este autor, os primeiros anos da produção da dupla Gilbert & George foram disto exemplares: «their focus on the artist’s self takes us out of both the materiality of the picture plane and the vectoral horizontality of the phenomenological plane.» Rompendo assim com os cânones modernos que tinham sobrevivido até ao nadir do Minimalismo. Este recentramento da obra em torno do próprio artista é hoje quase um lugar comum: das páginas manchadas de sémen de Anselm Kiefer aos aluviões de memórias pessoais de Tracey Emin, passando pela cinematografia auto-obcecada de Matthew Barney, incontáveis artistas dão novas possibilidades expressivas e de significado ao que em Warhol era mera celebração egotística; feérica e fantasmática mas ainda não ontologicamente essencial. Hoje, a Identidade evadiu-se dos bastidores para a boca de cena.
Que a arte siga por fim algumas das possibilidades e práticas da literatura não deixa de ser irónico. Um dos fundadores da autobiografia enquanto género literário foi… o escultor e ourives Benvenuto Cellini, municiado com um cândido desiderato: «quem tem a seu crédito o que são ou parecem ser grandes feitos (…) deveria escrever a história da sua vida pela sua própria mão.»

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8 respostas a Auto-retratos

  1. “Que a arte siga por fim algumas das possibilidades e práticas da literatura não deixa de ser irónico.”

    desculpa chatear-te, mas o que queres dizer com isto?…e se conseguires explicar com “merdas” e bués ainda seria mais salutar.

  2. Luis Rainha diz:

    Irónico porque afinal um dos fundadores da autobiografia como género literário foi precisamente um artista plástico. Que até não era um merdas.

  3. Carlos Vidal diz:

    Atenção que o auto-retrato no Cellini é uma narração, como aliás está dito, e mais do que um género literário é uma necessidade de autobiografismo, precisamente por o autor considerar os seus altos feitos. Como Villon, Cardeal de Retz ou Guy Debord, passa por aí o auto-retrato como panegírico.
    Outra coisa é o auto-retrato desmultiplicado em formas como a auto-representação e uma construção ficcionada do “eu” numa era histórica da reprodutibilidade (é o que marca a diferença entre Cellini e Gilbert&George, onde o auto-retrato é muito mais o retrato do que é ser “artista” do que outra coisa).
    No século XX o auto-retrato é mais um conceito do que outra hipótese qualquer. E sendo conceito, ele permite tudo: de Beuys nada sabemos a não ser a sua megalomania mitico-simbólica. Esta mania constrói um lugar para o artista (novamente o retrato do “artista”) igual ao do demiurgo: é essa a retórica dos materiais em Beuys, o artista faz daquilo que o cerca uma tabula rasa – o mundo começa no seu gesto, ele tem o poder de apagar a história e a história traumática da sua própria nação. Beuys é o artista perfeito para uma Alemanha que quer apagar a sua história e aí é um artista profundamente reaccionário.
    Já Kiefer pretende o inverso: ele está mais interessado na história do que nele próprio, mas o erro de Kiefer é outro: ele julga que a história e o Holocausto são facilmente representáveis – basta uma pintura assemelhar-se a um campo de batalha para revelar os desastres da guerra. Aí o erro chama-se “crença num equivalente iconográfico”. O que um autor infinitamente superior, como Gerhard Richter sabe que não faz sentido.
    Tracey Emin ainda é um dos casos mais interessantes: ela não aparece, aparecem os seus objectos, o seu mundo – é uma forma de contribuir mais para o conceito de auto-retrato do que para o auto-retrato como “género”. Sherman é um caso muito particular: nela não há uma gota de teoria e de reflexão, entrevistei-a para a Lapiz (Madrid) e foi difícil de obter respostas: nada sabia, e era genuína a 100%, do que estava a fazer (dei-lhe a conhecer Pessoa, o que a interessou muito), o que é inversamente proporcional à teorização que proporciona (basta pensar nos textos de Hal Foster e na monografia de Rosalind Krauss). Penso que ela se limita a usar(-se) para ficcionar mundos que ela não sabe quais são nem aonde a podem levar. De resto, o seu génio é intuitivo (e por isso é que é génio): e essa faculdade é interessantíssima – por intuição, ela acerta nos problemas centrais do nosso tempo. Nem ela nem eu sei como ela o consegue.
    Kruger é outra questão: está mais interessada no “controlo remoto” que sobre nós exerce a linguagem do que nela própria.
    Surpreendentemente, e sem esquecer Rembrandt, creio que o maior monumento ao auto-retrato na história da pintura é, ao mesmo tempo (e só o poderia ser) o maior enigma da história da arte: é o “Las Meninas”. É um dos poucos lugares da história onde se entra e depois já não se sai.

  4. Luis Rainha diz:

    Só não consigo concordar contigo é quanto ao Kiefer. A ideia do poder mágico da arte não é em si um erro epistemológico ou coisa que o valha. Será quando muito um devaneio romântico/platónico que fica bem a alguns artistas, como o pobre Anselm.
    E quanto ao Velázquez (desencontramo-nos por pouco no Prado, quando lá fomos ao Rembrandt), vejo ali um cameo interessantíssimo, mas nada que se aproxime à intensidade do foco sobre o próprio artista que vemos no ciclo Cremaster, por exemplo…

  5. Luis Rainha diz:

    Isto sem me esquecer de garantir que até gosto mais do Richter mas continuo a ver no Kiefer um enorme artista.

  6. http://f-se.blogspot.com/2009/02/f-se-palpita-me-que-hoje-vai-haver.html. Influências do Teu Post, inspirada numa confissão de afecto do CV. a uns personagens, num comentário de de um post com Foto do Staff da Coreia do Norte.
    Vale.

  7. e já agora, alguém me sabe dizer porqué que o caraças da vela do Richter está avaliado em 10 milhões de euros?

    porra, afinal é uma vela…

  8. agostinho diz:

    o auto retrato é ororoso

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