Por terras da Batalha (I)

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Cada vez mais bonito, ali está ele, o Mosteiro da Batalha, a dominar visualmente toda a paisagem. Aquela cor melhora com o tempo, fica mais bonita. Sabe bem ver que, após mais de seiscentos anos, o Homem ainda não conseguiu destruir toda a sua imensa beleza.
Para milhares de pessoas, a Batalha é O monumento. Até para mim que, pelos vistos, começo logo estas páginas sobre o concelho a falar do inevitável. Mas aí está a resposta. É inevitável. Se foi ele que criou a terra, e não o contrário, é dele que temos de falar em primeiro lugar. Se não tivesse existido Mosteiro, não teria havido Batalha. Da mesma forma que, se não tivesse havido a batalha, também não teria existido a Batalha.
Jogo de palavras de sentido inconsequente? Talvez. Mas é verdade. A Batalha Real, a que muitos chamam de Aljubarrota, esteve na origem da construção do Mosteiro e este, por sua vez, deu lugar ao Lugar, habitado que começou a ser pelos operários que aqui labutavam diariamente. Repetição de lugares? Cíclica redundância? Deu lugar ao Lugar? Exactamente. Por isso é que, durante muito tempo e até pela força da lei, a Batalha foi conhecida apenas como «Mosteiro de Santa Maria da Vitória», quando muito «Vila da Vitória». Mas por causa da tal Batalha Real, o povo chamou-lhe sempre Batalha. Por isso é que aqui as repetições se justificam. A batalha deu origem ao Monumento e este deu origem à Batalha. Nada mais simples.
Felizmente, há muito para dizer sobre o concelho da Batalha. Se não houvesse mosteiro, continuaria a haver muito para falar. Das paisagens planas, por onde corre, lento e elegante, o rio Lena; das paisagens mais serranas de Reguengo do Fetal; do notável desenvolvimento de S. Mamede e das suas Grutas da Moeda; do extraordinário dinamismo das gentes da Golpilheira. E da Batalha, a sede concelhia que, no fim de contas, dá sentido a tudo isto.
Não é fácil falar da Batalha, porque já todos o fizeram. Depois de ver o mosteiro, pela primeira vez com «olhos de ver», pousei, desci à terra das minhas ilusões. Depois de ler a ampla bibliografia existente, desesperei. Mas afinal, que tipo de livro é que ia escrever? O que é que poderia dizer que nunca tivesse sido dito? Com a humildade própria dos conformados, pedi que me fosse dado 1% do génio do canteiro das Capelas Imperfeitas; pedi que me coubessem em sorte 2% da elegância do vitralista da igreja; e continuei a pedir, porque me bastava, afinal, 3% do saber e da qualidade do pior historiador da Batalha.
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Nada disso me foi dado, porque as minhas faculdades ficam muito aquém de um monumento destes. Ou melhor dizendo, um monumento destes é que fica muito além das minhas capacidades. É que, como alguém já disse, a Batalha não é para quem quer. É para quem sabe.
Mesmo assim, consciente das minhas limitações, nunca pedi para que tão grandioso trabalho não me tivesse sido dado. Não o desejei por um minuto, mesmo que pudesse accionar uma máquina do tempo. Porque me enriqueci com a Batalha, porque fiquei mais feliz por conhecer a sério O monumento. Porque me emocionei na contemplação daquelas paredes, daqueles tectos, daquela cor, daquela luz.
Porque, no fim de contas, muitos muito melhores do que eu enfrentaram a mesma incapacidade, a mesma impotência, a mesma inépcia nesse confronto tão desigual: «A viagem não é longa, o viajante pode ir devagar. E, para seu maior descanso, deixa a estrada principal e segue por esta, modestíssima, que faz companhia ao rio Lis. É um modo de preparar-se em paz para enfrentar o Mosteiro de Santa Maria da Vitória. O viajante escreve estas palavras muito seguro de si, mas em seu íntimo sabe que não tem salvação possível. Onde dez mil páginas não bastariam, uma é demais. Tem muita pena de não estar viajando de avião, assim poderia dizer: ‘Mal pude olhar, ia muito alto’. Mas é pelo chãozinho natural que vai, e está quase a chegar, não há aqui fugir um homem ao seu dever. Mais fácil tarefa foi a de Nuno Álvares, que só teve de vencer os castelhanos.» (José Saramago)
Se o nosso prémio Nobel sentiu que não tinha «salvação possível», que direi eu, uma pobre criatura que apenas tentou, sem conseguir, que os seus olhos falassem? É que, se há olhos suficientemente grandes para abarcar toda aquela infindável beleza, não há génio suficiente para o descrever. Pelo menos da minha parte.

in «Batalha: A Vila da Vitória», Vila Nova de Gaia, IK Diagonal, 2009.

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2 respostas a Por terras da Batalha (I)

  1. «do extraordinário dinamismo das gentes da Golpilheira»

    certamente que a minha mãe agradecerá o comentário, dado que muito esteve envolvida em algumas das acções da terra. Ainda assim faz sentido perguntar, já que lá vivi uns anos (embora em registo on and off por causa dos estudos em Coimbra e do trabalho noutra terra), quais são as dinâmicas referidas…

  2. Carlos Vidal diz:

    Tenho de dar os parabéns ao Ricardo por este texto, onde o prazer da fruição se sobrepõe àquilo que poderia chamar a “técnica” da análise ou da apreciação histórico-formal. Foi essa uma das componentes da minha briga com alguns “jugulares” que me provocaram de lá e eu respondi de cá; para lá eu enviei o recado que els não eram capazes de fruir nenhuma forma ou obra de arte (por uma exacerbada e complexada formação científica, talvez, ou, mais grave, por um complexo de inferioridade em relação às artes, que sempre vi numa tal Palmira, o que a faz reagir às artes e à especulação em geral de modo infantil); por isso, sempre que vejo o prazer estético sobrepôr-se à análise rigorosa, agrada-me. E muito.
    (Parece-me ainda que este se trata de um excerto de um livro teu, é isso Ricardo? – de qualquer modo, parabéns pelo post.)

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