O Modernismo e a sua simetria perdida

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La Citta Nuova, 1914 – Antonio Sant’Elia.

O Modernismo é herdeiro directo do Iluminismo e da confiança ilimitada na Razão Instrumental, assumindo, segundo o irónico diagnóstico de Habermas, «a extravagante expectativa de que as artes e as ciências promoveriam não só o controlo das forças naturais mas também a compreensão do mundo, do eu, do progresso moral, a justiça das instituições e até a felicidade dos seres humanos.» A desilusão foi brutal: «o século xx despedaçou este optimismo.» Para Zygmunt Bauman, o estilhaçamento teve o seu epicentro cultural no mais improvável dos lugares: o planalto brasileiro. A capital Brasília, criada ex nihilo como futuro templo das infinitas possibilidades abertas ao destino do homem moderno, «um espaço de onde o acidente e a surpresa foram despejados, sendo-lhes vedado o regresso», acabou por se revelar, para os seus residentes, um pesadelo em metal e cimento armado: um local desarticulado com a perspectiva e o olhar humanos, previsível, mecanizada, «vazio de algo capaz de intrigar, causar perplexidade ou excitar.»

Kenneth Frampton proclamou que a arquitectura (e, por extensão razoável, toda a arte) só poderia ultrapassar este impasse através de um posicionamento de arrière-garde, recusando a um tempo a grande narrativa do progresso ilimitado e os impulsos irrealistas do pós-modernismo memorialista, com a sua invocação de um passado bucólico e vontade de regresso a um éden pré-industrial que nunca existiu. Assim, este autor foi arauto de um Regionalismo Crítico, com um programa simples mas ambicioso, embora tendencialmente reactivo: «mediate the impact of universal civilization with elements derived indirectly from the peculiarities of a particular place.» E lá irrompeu no mundo trans-moderno o domínio do regional como estratégia de sedimentação de identidades, ainda e sempre integrando de forma combinatória as dimensões individuais e de grupo. Uma reacção à «polarização» que Bauman diagnostica no mundo pós-moderno, entre a elite deslocalizada, que vive apenas no tempo, móvel, nómada e extraterritorial, e as massas desfavorecidas, amarradas à sua cidadania do espaço; criando aquilo a que Appadurai chamou «produção de localidade», urbes virtuais dispostas numa estrutura de vizinhanças e de reconhecimentos que ultrapassa as suas próprias fronteiras, formando ethnoscapes que acolhem e celebram a existência operacional dos projectos étnicos do Outro. Que a arte contemporânea tenha manifestado um aparentemente insaciável desejo centrípeto de estilhaçamento em scapes de vária índole – principiando na explosão de arte regional que se seguiu à exaustão do Minimalismo enquanto derradeiro grande projecto do Modernismo tardio e terminando na trilogia de focos elencada por Edward Lucie-Smith: «race, sexuality and gender difference» – não constitui surpresa de maior. Se o Surrealismo conseguiu instituir-se como primeira organização global artística, agregando numa estrutura orgânica membros provenientes de todos os continentes, artistas com pouco em comum excepto uma difusa adesão ao ideal poético da beleza convulsiva prescrito por André Breton (e a necessária obediência a este, é certo), logo a Segunda Guerra Mundial, com a sua involuntária diáspora artística para o Novo Mundo, veio impor uma lógica atomizada e dispersa, opondo costas americanas e mil e um outros pólos geográficos de criação. A sempiterna interacção entre os domínios do grupo e da individualidade, agora bem no interior do próprio campo artístico.

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13 respostas a O Modernismo e a sua simetria perdida

  1. Appadurai (!) Estiveste na FG?.
    Vale.

  2. Tiago Mota Saraiva diz:

    Deixa-me respirar, pensar um pouco, que já te respondo.

  3. Luis Rainha diz:

    Ah, as delícias da interculturalidade, como diria o Homer Simpson.

  4. Não foi ruim. Embora a questão de fundo tivesse uma pidadinha de espírito de campo de concentação-nazi.

  5. ezequiel diz:

    Excelente post, Luís.

    congrats.

  6. javali diz:

    Bom post, sim senhor.

  7. xatoo diz:

    é curioso como o “estilhaçamento” que inaugurou o pós-modernismo, ou seja, a arte de parir fachadas, tenha sido iniciado por um estalinista como o Niemayer e o modernismo clássico perdure entre nós por obras tão consistentes como o bunker do Hospital de Santa Maria (= ao de S.João no Porto, que nessa época poupava-se em duplicações fúteis), ambos projectos da autoria do arquitecto do regime nazi Albert Speer

  8. perdoai-me, mas é um bom exemplo de sociologês…

    não quererás trocar a coisa por miúdos?

  9. Luis Rainha diz:

    “Depois de andarmos uma beca convencidos de que dominávamos a cena toda, fizemos merda, começámos a ficar tipo bué fixados na nossa própria onda e agora andamos mais numa de espreitar o que o vizinho faz e curtir a coisa».

  10. m diz:

    Porque é que não ligam ao que Habermas disse de mais importante?
    Sou quase livre à conta dele. Um verdadeiro New Age , o Habermas. Obrigadinho , pá , foi contigo que percebi que as fronteiras entre ciência , filosofia , religião e mito/magia são mesmo fraquinhas. Todas convergem para o mesmo ponto , ainda que o marketing seja diferente.

  11. xatoo diz:

    o Habermas?
    não interessa “o que se diz”, mas o que se faz com aquilo que se diz.
    Não foi esse tipo que apoiou a invasão do Afeganistão e do Iraque?

  12. tás a ver, como afinal tinhas alguma coisa para dizer…e nem sequer era muito original ou especialmente surpreendente.

    mas vais continuar a debitar a tua tese aos bochechos? se sim, vê lá se revês aquilo que o Appadurai entende por ethnoscapes…

    e já agora: o que são “os projectos étnicos do Outro”?

  13. Luis Rainha diz:

    Eu ter alguma coisa para dizer? Ainda para mais coisas interessantes? Ná.
    Mas quanto à tua perplexidade, acho que ainda consigo explicar: a etnicidade pode ser eleita como fundação da identidade; mas tal não impede a criação de sistemas complexos perfeitamente conscientes da existência de outras manifestações culturais de raiz étnica. Algo que me parece evidente nos dias que correm.
    Por fim, iria jurar que o Appadurai tinha escrito algo como «By ‘ethnoscape’, I mean the landscape of persons who constitute the shifting world in which we live: tourists, immigrants, refugees, exiles, guestworkers, and other moving groups and persons constitute an essential feature of the world, and appear to affect the politics of and between nations to a hitherto unprecedented degree. This is not to say that there are not anywhere relatively stable communities and networks, of kinship, of friendship, of work and of leisure, as well as of birth, residence and other filiative forms». Estruturas identitárias de grupos que já não estão amarrados “à sua cidadania do espaço”. Em que é que ofendi a santa integridade de tal ideia?
    E se isto fosse a minha tese, estava bem tramado 🙂

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