O DESIGN é uma forma de crime (por ser a retaguarda e a vanguarda “estéticas” do capitalismo avançado)

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A propósito de um muito pertinente post de Tiago Saraiva sobre Norman Foster, arquitecto “big corporation”, veio-me à lembrança uma pequena recensão que publiquei por cá (Jornal de Letras) e em Madrid (Exitbook, nº 1) há uns aninhos, sobre um livro de Hal Foster, crítico de arte e arquitectura, muito bem intitulado Design and Crime (livro de 2002 [da Verso] e ainda não traduzido e editado em Portugal: porquê?).

A recensão, com algumas alterações, era mais ou menos o que se segue.

Num dos seus Ditos e Desditos, escreve Karl Kraus: “O que a sífilis poupou será devastado pela imprensa. Nos amolecimentos cerebrais do futuro, a causa não poderá ser determinada com precisão”. Essa parece ser a tarefa a que se propõe este livro-diatribe de Hal Foster, original ao ponto de poder ler-se como uma (segunda) resposta à citação de Kraus.

Qual é para Foster a causa do amolecimento cerebral contemporâneo, e a quem serve? É a transformação da ética de vida (Nietzsche, Foucault) num mero décor: é o DESIGN! O design é o maior crime “estético” do mundo contemporâneo, da obtusa sociedade capitalista transformada em sociedade do “conforto espectacularizado” (nada a ver com o conforto, portanto).

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(Ler pois o resto, para perceber um pouco da grande fraude do design contemporâneo)

O design tornou -se de imediato design “global”, tudo foi invadido, a tudo o design aplicado. Aqui e agora cada indivíduo é, ao mesmo tempo, “designer” e “designed”. A dominação e manipulação do / pelo design é total: da casa (design de decoração) ao rosto (cirurgia plástica), da personalidade (drugs design) ao DNA (children design), de um candidato presidencial ganhador à Young British Art (nos livros-objectos de Bruce Mau, por exemplo), passando pela memória histórica (museum design), à arquitectura-espectáculo de Frank Gehry (“this designer of metallic museums and curvy halls”) e à teoria-espectáculo de Rem Koolhaas (ver Caps. 3 e 4, pp. 27-62).

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Gehry, o arquitecto-rei das “big corporations”, sucessor de Philip Johnson, no Emirates Palace Hotel, Abu Dhabi.

Em baixo, o Walt Disney Concert Hall (Gehry, 2003).

Em “Design and Crime” (título do Capítulo 2 e do livro), Foster não podia ser mais certeiro: o nosso fim de século XX é similar ao anterior, quando o “Art Nouveau” pretendia-exigia aplicar a tudo o mesmo “motivo floral” – da arquitectura aos cinzeiros. Os cegos de hoje são os que não querem perceber como é que essse “estilo” rapidamente passou de obsoleto a Camp e Kitsch, e que é essa menoridade que preside ao nosso descomprometido (cultural e politicamente) total design, ao “Style 2000” e à estética do “poor little rich man” do “dot.capitalismo”. Hoje não é toda a cultura de massas que sai vencedora, é apenas o abaixamento do género “child of the elite”. Este “apenas” é muito: é a vulgarização do “valor médio” (que não é mais distintivo) na megastore, esse lugar mítico onde tudo se vende até mesmo a fantasia de que as divisões de classe já foram suspensas. É um mundo de “qualidades sem pessoas” (que Foster citará de Robert Musil) que se abre.

Do “Art Nouveau” à Bauhaus, das teses de Adorno a Guy Debord, dos anos 20 da rádio, cinema e da reprodução — que Debord tomou como início da “sociedade do espectáculo” –, da era da imagem no pós-guerra (dissecada por Warhol) ao “dot.capitalismo” (percurso do Cap. 1, “Brow Beaten”), Foster analisa um tempo em que a economia pós-fordista de produção de bens ligada a mercados demarcados (“constantly niched”) gerou uma desregulação do capitalismo: aqui, design, marketing e espectáculo substituem-se à produção.

Creio que podemos ver nesta denúncia do total design e da sua penetração em todas as esferas da vida social e artística, a continuação de algo que nos anos 80 ocupou Foster: a crítica do pluralismo, essa disfarçada preparação para a aceitação da arte-mercadoria, da arquitectura e teoria-espectáculo. Um dos ensaios de Recodings (1985) intitulava-se, como se sabe, “Against Pluralism”. Aí denunciava-se o pluralismo como posição-alibi, ao mesmo tempo um esvaziamento das argumentações e a preservação do status quo político, do gosto e da crítica, indefinidamente.

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Jimmie Durham, performance, 2004.

Hal Foster, na segunda parte deste livro vai partir da tese de um duplo crepúsculo — do modernismo e do pós-modernismo – para analisar a relação entre as disciplinas artísticas e as políticas institucionais (estudando casos que vão de Baudelaire a Malraux) e avançar com oportunas leituras alternativas. Valorizando obras como as de William Kentridge, Rachel Whiteread, James Coleman, Gerhard Richter, Stan Douglas ou David Hammons, em categorias como o traumático histórico (Gerhard Richter ou Hans Haacke), o espectral (Jim Jarmusch, Robert Gober ou Whiteread, ou a “sombra” que Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf, projecta sobre The Hours, de Michael Cunningham), a assincronia (Douglas) ou a fisicalidade incongruente (Hammons, Jimmie Durham). Em suma, este livro é importante pelo seu certeiro diagnóstico e pelas alternativas, abrindo o que eu vejo como uma quarta via no pensamento do autor.

As outras três vias seriam: 1) a defesa (em Recodings) de um pós-modernismo pós-estruturalista por oposição a um pós-modernismo conservador, este ligado ao estilo, à narrativa, ao ornamento (note-se que é a partir da denúncia do ornamento por Adolf Loos, Ornament and Crime, 1908, que Foster vai construir o seu livro desde o título), e às políticas de Reagan e Theatcher. 2) a ligação entre o “retorno do real” e o “retorno do medium”. 3) por fim, relacionado com o tópico anterior, Hal Foster, embora não como Harold Bloom, vai considerar que uma obra conseguida do presente desenvolve aspectos pertinentes de uma obra do passado. Sem referências causais, pois as relações de Foster trabalham uma releitura do conceito de vanguarda, complexificado e reversível: “Crucial here is the relation between turns in critical models and returns of historical practices (…): how does a reconnection with a past practice support a disconnection from a present practice and / or a development of a new one ?” (The Return of the Real, 1996).

Uma alusão final ao importante Capítulo 7, “Art Critics in Extremis”, uma reflexão sobre a critica de arte americana desde o pós-guerra à actualidade, tomando como ponto de partida um livro organizado por Amy Newman sobre a história da Artforum entre 1962 a 1974. Recordando Greenberg, as relações entre este e Michael Fried, Rosalind Krauss, Barbara Rose, Harold Rosenberg ou Annette Michelson, Foster vai concluir que não há boa crítica sem conflitualidade dramática – algo que é estranho a um tempo, o nosso, em que do luto do formalismo greenberguiano se passou para o domínio dos dealers e “comissários a-críticos”. Daí que a actual expansão seja antes uma contracção, nas palavras de Theodor Adorno, recordadas por Hal Foster.

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29 respostas a O DESIGN é uma forma de crime (por ser a retaguarda e a vanguarda “estéticas” do capitalismo avançado)

  1. Tiago Mota Saraiva diz:

    Carlos, dá uma vista de olhos na polémica a que faço referência: http://www.ateliermob.com/202799.html.

  2. Obrigada, CV.
    Mais sugestivo não podia ser.

  3. Alice V.A. diz:

    Excelente post, Carlos Vidal.

    Lembrei-me de Nadir Afonso e da sua afirmação: «a arquitectura não é uma arte»

  4. Carlos Fernandes diz:

    Excelente post, mas (ressalvando que sou um estudioso mas leigo nesta matéria) refira-se tb. que nunca ao longo da história nenhum regime político nem nenhuma sociedade deixou de ter o ” seu ” design e a sua arquitectura própria.

  5. Este post fez-me lembrar uma pequena história passada entre mim e um amigo quando regressavamos de Espanha e entrámos num café da beira estrada com aspecto de ter sido aberto havia pouco tempo; deparámos com um mobiliário funcional metálico/aço inox, de uma tão severa limpeza formal e higiénica que algo retraídos comentámos: isto tem qualquer coisa de nazi! Será possível? que dimensão opressiva ou libertadora , e como? nos pode proporcionar uma estética?

  6. Carlos Vidal diz:

    Conhecendo bem o Marx da alienação e da fetichização da mercadoria, da despossessão do trabalho e, em Debord, da linguagem, o que conduz à vida-espectáculo, onde a acumulação das mercadorias não formam apenas o capital, mas sim o espectáculo (o reino onde as pessoas se relacionam através de representações/imagens), percebe-se bem aonde Hal Foster quer chegar com o seu livro: o design já não está onde a Bauhaus o deixou, o de uma suposta socialização (democratização) do objecto, o design, hoje, é um conceito expandido: é a própria reconfiguração do capitalismo que ele protagoniza, o design é uma prova concludente das teses de Debord sobre a espectacularização do mundo com a última fase do capitalismo. O design é o design do capitalismo. O design, hoje, é mais o fantasma que paira sobre o objecto do que, obviamente, o próprio objecto. Este, aos poucos, vai deixando de existir. O design é aquilo que, hoje, substitui o objecto.

  7. “O design, hoje, é mais o fantasma que paira sobre o objecto do que, obviamente, o próprio objecto. Este, aos poucos, vai deixando de existir. O design é aquilo que, hoje, substitui o objecto.”

    Gosto disto; “…o fantasma…” um fantasma que acaba por nos oprimir, com a sua presença ausente, já distante duma relação quotidiana e familiar. Um parto onde não há criança nenhuma!

  8. Tiago Mota Saraiva diz:

    Carlos, o termo “design” é lixado. A estreiteza da língua inglesa tem destas coisas, um termo com uma imensidão de significados.
    Design é um termo muito lato e a sua tradução para português perde-se em vários termos.
    Na arquitectura, e no sentido em que o abordas, penso que a questão tem mais a ver com a noção de excesso de desenho normalmente descrito como “over design”, que Gehry ou os arquitectos dos “blobs” têm exacerbado (gosto da noção de fantasma que paira sobre o objecto). Talvez seja um sinal de fim de século ou de mudança de paradigma, mas esta reflexão deixo-a para os historiadores.
    Mas de qualquer forma, não me parece justo associar este “design” (ou over design) ao trabalho de Gropius ou Hannes Meyer. São noções e práticas completamente distintas.

  9. António Figueira diz:

    Carlos,
    O Hal Foster não é traduzido em português porque as duzentas ou trezentas pessoas que poderiam querer lê-lo, lêem-no em inglês.
    Abraço, post porreiro, AF

  10. Alice V.A. diz:

    Viva a não tradução do inglês em Portugal ou acabe-se com a língua portuguesa já, é isso?
    A exclusividade de quais exclusivistas tem destas tiradas tão porreiramente exclusivas.
    Pois fiquem-se os poucos arrogados ao melhor enquanto igualdade desigual de exclusivizar no não ter nada mais para ensinar? É isso!

  11. António Figueira

    Uma violenta, feroz y bruta forma de censura é habituar uma sociedade civil a adquirir “Porcadorias” com nomes arrevesados de mediatismo folclórico, colunáveis em jornalecos y revista y directores de casas y revistas que dão cumprimento à sua infalível capacidade de “porcarodização” de tudo em que colocam o dedo. São todos umas sumidades que calcorreiam as vielas do saber a engolir sapos, y como diabos a fugir da cruz – tal como o fantasma a pairar sobre o objecto, do texto do CV – começam a lançar receituários infalíveis de fantástico-auto-saber a uma sociedade civil recém-desvirginada do analfabetismo.

    PS.: Claro que Portugal tem mercado para este livro, mas a prioridade é dada ao Porcado.

  12. almajecta diz:

    O capitalismo avançado é pragmático e toma para si aparentemente os temas reivindicativos das massas: não quer dar uma imagem odiosa de si, antes pelo contrário, o capitalismo é «soft», post moderno, tem as cores agradáveis e optimistas do melhor do marketing e design. Para continuar a explorar e a devastar, o Capitalismo apenas necessita que os «media» não lhe despenteiem a imagem. E os media não despenteiam, sendo os porta-vozes do homem unidimensional à sombra do pluralismo, conceito chave assim como o de debate. Os media são mesmo o homem unidimensional.
    Enough pretentious verbiage & fraud & perversity.

  13. ezequiel diz:

    Excelente post, sem dúvida. Quando for grande vou estudar estética na FBAUL.

  14. Tiago,
    O termo design tem de facto um significado mais abrangente que em português se circunscreve a uma determinada disciplina. A tradução mais literal seria desenho, que no entanto, em português possui hoje um significado de representação da realidade, que no passado se designava por debuxo.
    Quanto ao post, particularmente interessante é analogia com Loos e o seu combate ao excesso da Secession vienense. Aquilo que mais perturbava Loos, que aliás era também um feroz crítico do modernismo funcionalista, era a perda do sentido de adequação, do espectáculo formal em detrimento da medida justa, da noção de proporção e do comedimento. Essa analogia é particularmente adequada ao momento presente, onde lado a lado, como faces da mesma moeda, prolifera o excesso por adição e o excesso por subtracção. Esta permanente fuga do banal, torna-se em si própria banalidade, criando, por um lado espaços que não admitem a dissonância, ou no extremo oposto, cacofónicos, que contém em si toda a dissonância, onde qualquer tipo de vivência e usufruto espontâneo se tornam impossíveis.
    O Miguel Figueira (um arquitecto, para quem não o conhece), falava-me há tempos do enjoo que lhe davam certas casas, que nas revistas aparecem muito limpinhas e assépticas, onde necessariamente ninguém consegue morar sem livro de instruções e regras rígidas de comportamento. A fotografia que ilustra o post é particularmente elucidativa: naquela cozinha nunca se poderiam confeccionar umas sardinhas ou uns carapauzinhos de escabeche sem se ter a sensação de estar a cometer um delito.
    A sociedade espectáculo do debord, é aqui também muito justamente invocada, cujo paradigma será talvez, o Gugenheim de Bilbao. A necessidade obsessiva do ícone urbano como afirmação de uma politica de renovação urbana, ao ponto de todo e qualquer edifício se ter de tornar um “icone”. A cacofonia transportada à escala da cidade. Edifícios que não aparentam sê-lo, que não são aquilo que são, de janelas que não são janelas, portas que não são portas. O Alberto Carneiro, falava-nos nas aulas, da contradição do arquitecto, a sua condição permanente entre o desígnio e o desejo:ao arquitecto não lhe basta que uma porta seja uma porta, mas que seja A Porta. Hoje os arquitectos parecem rendidos ao desejo. O desejo tornou-se desígnio. Esta obsessiva procura de originalidade, a inovação a todo custo, nada tem a ver com o compromisso ético e social e a pesquisa tipológica e construtiva que caracterizava o movimento moderno em especial de figuras que o tiago refere (Gropius e Meyer). Tem a ver com a constante necessidade de acontecimento, uma espécie de síndrome de exposição universal permanente como instrumento de marketing da cidade, de que Dubai seja talvez o exemplo mais contundente.
    Neste contexto, até acho simpáticas a banalidade das casitas do Sócrates quando comparadas com os exemplos eruditos que violentam de forma mais intrusa a paisagem.

  15. Carlos Vidal diz:

    Tiago, por tudo o que vem aqui sendo dito, é claro que o design como actividade (e conceito) é complexa e vasta, e parece-me que a sua aplicação à fantasmagoria espectacular capitalista (na linha de um Debord, linha crítica, ou na linha de um Baudrillard, que me parece entre o crítico e o “celebrativo”) estava na sua essência ou matriz. É esse o entendimento crítico de Foster quando escreve sobre Gehry e Koolhaas, a sua visão da arquitectura (de Foster, entenda-se) tem como matriz aquilo contra o que Loos se rebelava. Para Foster, de certo modo, a utopia de Gropius é um parentesis menor nessa linhagem e, apesar de Foster poder aderir (eventualmente) ao programa de Gropius, há nele uma consideração de que a fantasmagoria do design contemporâneo seria uma inevitabilidade.

    Porque, apesar de Gropius, o que Foster pergunta pode ser similar ao que Godard pergunta em Histoire(s) du Cinema: porque é que uma cultura social ou socializada e utópica não consegue conter os anseios do próprio capitalismo e descamba no seu contrário? O mundo imaginado por Gropius desabou na II Guerra – o que lhe sucedeu foi o contrário do que pretendeu. Godard perguntava porque é que o cinema permitiu isso, e tal pode ser alargado a todas as artes – porque é que falharam as vanguardas históricas, estética e sociologicamente?

    Por isso é que Foster tende a tomar toda a história do design como um todo. Com ou sem razão: a sua crítica do ornamento (a partir de Loos) pode ser contrariada com a defesa do ornamento, ou do arabesco, como algo onde se manifesta, ainda assim e sempre, uma “vontade de arte” (é a tese de Alois Riegl). Mas porque é que uma arte, ou as artes, “permitiram” que as vanguardas (de que um Warhol é um dos últimos paladinos, mas já alguém que trabalha com um espírito crepuscular, com luto, onde a morte é algo omnipresente), porque é que as vanguardas geraram autores como Gehry ou, antes, os “espaços públicos corporativos”, ou os “parques urbanos” interiores desde Kevin Roche, etc?

    Mas, o que é mais interessante no livro de Foster é que sem citar Marx, ele coloca-nos perante aquilo que podemos chamar a sua espectrologia (Derrida): o carácter fantasmagórico e fetichista do sistema dos objectos, mostrando-nos que quando a arquitectura se torna “marca”, ela é o centro da sociedade do espectáculo, mostrando-nos que a desfuncionalização de Gehry é uma forma de re-fetichizar (e aqui Foster ainda é modernista por defender a função e a estrutura), mostrando ainda que quando Gehry anbandona o problema da estrutura cede à arquitectura cartaz, à arq. pop-outdoor, porque a estrutura dá lugar à modelação, ou a uma pseudo-modelação (que é já uma confusão entre escultura e arquitectura). Mas, acho que o problema central é mesmo aquele que mencionei (e que passa por estudos de um Buchloh também): porque falharam as vanguardas históricas, ou porque é que não anteviram o triunfo completo da indústria da cultura?

    Outro problema é colocado pelo almajecta: o capitalismo avançado é soft, não centralizado, paternalista mas disfarça esse paternalismo num multiculturalismo que parece democrático (quando é um neocolonialismo); a oficina humanista de Gropius (onde o mobiliário, a pintura, o design e o teatro se ligavam ou deviam ligar) deu hoje lugar aos Estudos Culturais, onde uma aparente desterritorialização não é mais do que uma re-territorialização. O pluralismo é uma nova ditadura, um produto do design, portanto. Um produto de consumo fashion como qualquer outro.

    O miguel dias acrescenta a muito interessante reflexão do Alberto Carneiro: de facto, a ambição de alguns arquitectos e designers em redesenhar a sociedade não passa de uma atenção à “marca” (Foster) de um certo estrato social que é preciso preservar e ampliar. O design ocupa-se aí do desejo, o desejo é redimensionado pelo novo design, que vai desde a casa até ao prazer sexual (o que já vemos criticado no cinema do Debord, por exemplo).

    Uma outra questão (que se pode relacionar com o post do Luis Rainha em cima), é uma necessária crítica a uma pretensa desterritorialização da arte contemporânea: se tivermos dezenas de bienais em cinco continentes (é o caso actual) temos de considerar que em quase todas elas expõem os mesmos artistas. Ora o pseudo-multiculturalismo deu origem a uma associação perversa entre a indústria cultural e a indústria do turismo. Aí as identidades foram, são, um mero pretexto para o capitalismo avançado se consolidar (ainda mais).

  16. Carlos Vidal diz:

    ezequiel, estudar estética na FBAUL iria fazer-te bem. Pensa nisso.
    A FBAUL precisa da mesada e tu precisas de uma recauchutagem política (e a estética é política, como sabes; pelo menos na FBAUL é assim, escola vermelha rubra).

  17. ezequiel diz:

    Suponho que na FBAUL administrem cadeiras sobre “IRONIA”, não?????

    Já estudei numa escola com pergaminhos vermelhuscos e não gostei muito, Carlos. Nunca me dei bem com pedagogias assertivas e punitivas. Já me habituei à desorientação cognitiva. E à liberdade, também.

    Mas sempre aprendo alguma coisinha sobre estética ao ler os teus comentários e posts. (este teu penúltimo comentário está muito bom. poderia até dizer que concordo com este teu comentário, apesar da minha perspectiva ser um poucachinho diferente da tua 😉 )

    MAs fica descansado. Se a minha filha decidir estudar estética, recomendarei a FBAUL e o Professor Vidal. Mas tem cuidado. Ela é do Porto. 🙂

  18. ezequiel diz:

    “e tu precisas de uma recauchutagem política”

    Apre!!! Estou quase a ser deportado para um Gulag filosófico ou, quiçá, para um seminário de teologia. até sinto calafrios, por toutatis!!

  19. ezequiel diz:

    PS: esta cozinha é horrível. vem com o Mr Spock incluído???

  20. Carlos Vidal diz:

    ezequiel,
    manda lá então a miúda para o Gulag da FBAUL, o melhor Gulag da europa. Se eu lhe der alguma aula, atenção, começo sempre por Saint-Just; depois S. Paulo, por fim Mao.

  21. ezequiel diz:

    pois, todos eles muito religiosos.

    Não sabia que Mao foi um artista.

  22. Carlos Vidal diz:

    Mao foi um poeta, importante filósofo (os seus textos sobre dialéctica, Hegel e as suas teses sobre a contradição são fundamentais para qualquer proposta de emancipação), e foi, além disso, um estratego inultrapassável.

    Agora, vou para o Santo Atanásio, um belíssimo texto sobre a “incarnação”, para depois criticar (o que venho fazendo quando tenho tempo) a dimensão visual da pintura (que eu não acho visual).
    Até logo.

  23. almajecta diz:

    mais umas linhas não das do desígnio (a iarte gráfica) mas sobre o ponto do grande riscador.
    On croyait que se grand et cher Mouvement Modern était entré défenitivement dans l’éternité funèbre de l’histoire. Son ombre outragée et gémissante surgit encore de temps en temps comme la statue du commandeur pour châtier les jeunes libertins succombant au delices de l’historicisme mais elle n’effraie plus grand monde car nul n’ignore qu’il s’agit d’un style réduit à l’état d’ectoplasme au même titre que beaucoup d’autres. Momifié il conserve cependant des adorateurs qui célebrent interminablement les rites fatigués des Péres fondateurs, transformant les vigoureuses interrogations des avant-garde en réponses stéréotypées et la sève inventive de leurs expériences en un jeu stérile des figures rhétoriques. Ces nostalgiques un peu amnésiques de l’abstraction moderne, du progrès industriel et de la charte d’Athènes se présentent volontiers comme les seuls légitimistes dignes de conserver l’heritage et s’arrogent le droit de décréter le dogme et d’excommunier l’hérétique. Leur discours n’est pas trés neuf, leurs références ont un air connu: c’est le changement dans la continuité.
    En somme un fascisme très ordinaire.

  24. Do comentário de Miguel Dias:
    “A fotografia que ilustra o post é particularmente elucidativa: naquela cozinha nunca se poderiam confeccionar umas sardinhas ou uns carapauzinhos de escabeche sem se ter a sensação de estar a cometer um delito.”

    É uma espécie de inversão do dito: não é para quem pode, é para quem quer.

  25. Pingback: fisicalidade.net - cinco dias » O DESIGN é uma forma de crime (por ser a rectaguarda …

  26. Não tenho bagagem para discussões deste calibre, mas com este post vê-se bem como é que o Carlos Vidal, sempre que não se põe com as embirraçõezinhas contra outros bloggers, pode escrever de forma interessante e didáctica. E destes posts que eu gosto.

    E, pelo menos esta vez, agradeço o post caro Carlos. Venham mais.

  27. almajecta diz:

    continuando, das linhas do riscador laser (teodolito) ao plano da Srª da Ladeira.
    De l’autre côté, on parle beaucoup d’une nouveauté qui n’aurait probablement pas de nim si un journaliste anglo-saxon doué du génie de la publicité, ne lui un avait trouvé un: le Post Modernisme, puisqu’il faut l’apeler par son nom, est la revanche tardive et éclatante ( mais que j’espère éphémère ) d’une culture américaine de nouveau conquérante après qu’elle ait été momentanément surprise par la crise qui suivit l’effondrement de l’International Style à partir des années 60. Admirable retournement de situation qui permet à d’authentiques héritiers du Mouvement Moderne come Peter Blake, chantre de la saint triologie, arbitre des élégances depuis 50 ans, de se porter garants pour une nouvelle génération de “petits maîtres”.
    Le ” mouvement ” Post Moderne comme d’ailleurs l’ “International Style”, offre ce mélange ingénue et ingénieux d’inconsistance doctrinale, de confusion idéologique et d’ opportunisme mercantil, typique de ces produits américains qui surprennent toujours les Européens par leur performance, leur efficacité marchande. Contrairement à ce que pensent les détracteurs modernistes qui voient dans le Post Modernisme une régression passéiste inadaptée au monde moderne, il faut convenir qu’il de présente comme le plus “moderne” des réponses, en tous cas la plus merveilleusement adaptée à un monde crépusculaire, voué à la frivolité, au confusionnisme et à la consommation irresponsable des valeurs, des biens, des énergies et des hommes.

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