Comemorações do bicentenário de Charles Darwin

Há figuras históricas, que pela sua importância, pelo seu papel fundador de uma área de conhecimento, ficam intimamente associadas a essa área. Tal sucede, por exemplo, com Sigmund Freud e a psicanálise. Concorde-se ao não com o que ele escreveu, ou melhor com o que ele escreveu em determinada fase da vida – pois o seu pensamento também foi naturalmente evoluindo ao longo da sua vida – Freud na Psicanálise é uma figura incontornável. O mesmo sucede com Charles Darwin e a biologia evolutiva.

Antes de mais um esclarecimento. Quando se fala em «biologia evolutiva» não se está a criar um contraste com uma «biologia não-evolutiva». Trata-se de uma especificação. Como que diz que um biólogo que estuda aves é um ornitólogo, ou alguém que estuda ecossistemas marinhos, é um biólogo marinho. Por analogia, um engenheiro civil ou um arquitecto paisagista, são especialidades dentro da engenharia e arquitectura. Um «biólogo evolutivo» é um biólogo especializado nas problemática da evolução, a questão da evolução das espécies, na formação de novas espécies (especiação), do modo como estas se adaptam ao meio, nos mecanismos evolutivos (que não se esgotam com a selecção natural), com a relação entre populações de uma mesma espécie, com a história da vida da terra, etc. Em geral não é um biólogo cujo estudo esteja restrito a um grupo de organismos, mas tende a aplicar o seu conhecimento a uma variedade de organismos. Eu por exemplo, sou biólogo evolutivo, e já trabalhei com plantas, insectos, e trabalho agora com peixes marinhos, mas a linha condutora é a evolução, os seus mecanismos, as suas técnicas de análise e questões associadas.

Mas voltando a Charles Darwin, cujo bicentenário se celebra hoje, 12 de Fevereiro, por todo o mundo. Em Portugal, estão em marcha diversos eventos, incluindo a inauguração de uma exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, que será das maiores exposições do mundo (se não a maior, em termos de área e diversidade de elementos, incluindo animais vivos). Paralelamente à exposição, haverão uma série de conferências, incluindo grandes nomes da área. Mas além das iniciativas promovidas pela Fundação CG, haverão várias outras ao longo do ano, de Lisboa a Braga aos Açores. Para um calendário eventos vejam, a página (criada por mim) biologia-evolutiva.net (que contem outras informações, incluindo insituições de investigação em biologia evolutiva, e livros publicados em Portugal sobre o tema), ou a página do calendário. Trata-se de um calendário Google, pelo que os utilizadores desta plataforma podem adicionar este calendário de eventos do Ano Darwin, ao seu calendário pessoal.
Tendo já saído tanta informação recentemente sobre Darwin nos jornais e revistas, não pretendo aqui adicionar nada de novo à sua biografia e ao impacto das suas ideias. Incluo apenas alguns breve apontamento históricos. A circum-navegação no H. M. S. Beagle foi um momento fundamental na vida de Darwin. Tinha na altura apenas 22 anos. Tendo já interesse pela história natural, foi durante esta viagem, que Darwin fez observações, recolhas e leituras que vieram a ser fundamentais para o desenvolvimento do seu pensamento. Foi também durante a viagem que Darwin descobriu fósseis de enorme importância na época. As suas notas e descobertas iam sendo enviadas para Inglaterra, onde Darwin foi ganhando grande reputação e reconhecimento como naturalista. Ao regressar a Inglaterra, país que nunca mais deixou até o final da sua vida em 1882, encontrou uma Inglaterra já bastante diferente, onde a revolução industrial e os conflitos sociais dela resultantes estavam na ordem do dia. Ao desenvolver as suas ideias sobre evolução, Darwin temia o efeito que a sua publicação poderia ter. Teve um demonstração dessa reacção após a publicação do texto de Roberto Chambers, anonimamente, em 1844. Havia também grande tensão social entre os apologistas na Nova Lei dos Pobres, que efectivamente pretendia eliminar todos os apoios aos pobres, e o defensores da Carta Popular, os Cartistas, que a opunham. O panfleto do Rev. Thomas Malthus, que foi um inspiração para a ideia de selecção natural de Darwin, era um documento político, onde este defendia que face ao crescimento demográfica da população empobrecida, os subsídios sociais eram redundantes e contra-producentes. Embora Darwin se tenha inspirado em alguns elementos de Malthus, não era propriamente um defensor das suas conclusões políticas, mas temia ser associado aos defensores da Lei da Pobreza, e – como pessoa abastada que era – temia ser alvo da revolta e motins que eram frequentes na época.

Assim, Darwin foi desenvolvendo as suas ideias, acumulando evidências, mas apenas partilhando-as e discutindo-as no seu círculo de confiança. Tencionava inclusive não publicar a sua obra em tempo de vida, tendo deixado indicação à sua esposa, para que fosse publicada postuamente. Mas os eventos precipitaram-se quando Darwin recebeu uma carta de um joven naturalista, Alfred Russel Wallace, esboçando, com menor sofisticação, a ideia de selecção natural. Sendo um homem honrável, não concebia simplesmente esconder a carta, mas por outro lado não queria ser passado à frente. A conselho de amigos, cartas de Darwin e Wallace foram lidas na Sociedade Linneana em 1858. Mas foi a publicação do “longo argumento” da Origem das Espécies (a 24 de Novembro de 1859) que veio efectivamente lançar um debate público intenso. Darwin manteve-se sempre distante da linha da frente, e foram seus amigos, como Thomas Henry Huxley e John Hooker, que o defenderam publicamente. Apesar de alguma polémica, a ideia de evolução foi aceite com relativa rapidez nos círculos científicos. Aqui estava uma colecção extensa de argumentos a favor de um processo e mecanismo natural da origem e diversidade das espécies, das adaptações que eles exibem, que não queria intervenção divina.

Ernst Mayr, um grande biólogo evolutivo, divulgador, historiador e filósofo da evolução, que faleceu em 2004 (com quase cem anos), precisou que na Origem Darwin introduziu várias teorias: a da evolução propriamente dita, a de evolução gradual, a da multiplicação das espécies, a da ancestralidade comum, e a teoria da selecção natural. Esta divisão é útil pois nem todos os biólogos evolutivos aceitaram todas as teorias. Huxley por exemplo, o “bulldog de Darwin” deu pouco importância à selecção natural. Ainda hoje a biologia evolutiva é uma ciência plural, onde se aceitam vários mecanismos e modos de evolução, onde se discute a sua relativa importância, mas onde o a evolução é tida como facto científico, devido à quantia avassalora de provas a seu favor. Isto é, no campo científico existem debates e controvérsias dentro da biologia evolutiva, mas sempre aceitando o facto da evolução.

O debate entre evolução e criacionismo, porém, tem recebido mais atenção. Debate onde perdura uma grande confusão entre ciência e fé. Estas não são necessáriamente incompatíveis, como demonstram os contributos do biólogo evolutivo e crente Theillard de Chardin, a encíclica do Papa João Paulo II, ou as opiniões do português Luís Archer, ex-dirigente da Comissão Nacional de Bioética. Embora esta controvérsia assuma maior relevância nos EUA, por motivos que não irei explorar agora, surgem já indícios de que o criacionismo ganha algumas raízes na Europa. Tal levou a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa a emitir, em Setembro de 2007, um relatório inequívoco sobre a importância da evolução e alertando para os perigos do criacionismo na educação europeia. Na Europa, não havendo os movimentos criacionistas organizados que existem nos EUA, existe um criacionismo críptico, alimentado pela ignorância científica. Um relatório da associação Theos, que conclui que 22% dos britânicos preferem as teorias do criacionismo ou concepção inteligente (Inteligent Design). Apenas um quarto dos inquiridos consideram a teoria da evolução como “definitivamente verdadeira, um segundo quarto como “provavelmente verdadeira”. Isto é metade dos sondados (2 mil e seiscentos).

Quais serão os números em Portugal? Desconheço se existe algum estudo. Mas uma olhadela pelos programas de biologia do ensino básico e secundário tem vários elementos preocupantes. Por exemplo, o ensino da Origem da Vida e da Origem e Evolução do Homem, estão totalmente ausentes (quando já constaram do currículo). Mas estranho e preocupante ainda são algumas recomendações do programa do 11º ano, onde podemos ler:

“evitar o estudo pormenorizado das teorias evolucionistas” e “evitar a abordagem exaustiva dos argumentos que fundamentam a teoria evolucionista.”

“Não há consenso sobre as causas da diversidade dos seres vivos. As teorias evolutivas explicam essa diversidade pela selecção dos organismos mais adaptados, razão pela qual as populações se vão modificando.”

[recomenda-se a] “construção de opiniões fundamentadas sobre diferentes perspectivas científicas e sociais (filosóficas, religiosas…) relativas à evolução dos seres vivos”

Para uma análise dos programas curriculares recomendo um estudo de Helena Abreu. Como afirmei acima, há consenso no seio da ciência sobre as causas da diversidade dos seres vivos: a evolução (não obstante debates científicos sobre a relativa importância de diferentes mecanismos). E podendo o currículo escolar conter espaço para consideração de outras ideias sobre as causas da diversidade, estas não deverão ter lugar no espaço de uma disciplina de Ciências.

Como justificar a ausência do ensino da Evolução do Homem, ou o evitar o estudo pormenorizado da Evolução. Nas palavras de Theodosius Dobzhansky “nada em biologia faz sentido excepto à luz da evolução”. É este elemento teórico da biologia que dá sentido à restante. Porque hão-de os estudantes apreender (ou decorar) nomes de vários tipos de organismos, sem receberem formação sobre como surgiram, porque existe tamanha diversidade, e como estão os organismos adaptados ao seu meio?

Estas lacunas são fomentam um terreno fértil para o florescimento de um criacionismo críptico, baseado na ignorância. Não fosse essa ignorância razão suficiente, a verdade é que a evolução não se limita a um fenómeno de mero interesse académico, para entendermos a história da vida na terra. Tem importância na nossa vida quotidiana, e deve pesar nas nossas escolhas como cidadãos. A evolução pode ocorrer rapidamente, particularmente em organismos com tempo de geração rápida, como sejam os víros, as bactérias, os insectos, as plantas anuais, e até algums vertebrados como os peixes. Não é possível entender o vírus HIV e a SIDA, sem se entender evolução. As pressões humanas geradas pelos antibióticos, pelos pesticidas e pela pressão piscatória, estão a dar origem a respostas evolutivas por parte de bactérias, insectos responsáveis por pragas agrícolas, e por peixes importantes para essa actividade económica. A resistência de bactérias a múltiplos antibióticos têm graves consequências para a saúde pública. A resistência de insectos aos pesticidas têm consequências na produção alimentar e na impacto ambiental (pois os agricultores tendem a reagir aplicando maiores doeses de químicos). Tudo isto tem severos custos económicos, que só uma cidadania e uma classe política informada sobre evolução pode compreender, e tomar decisões capazes de evitar, por exemplo, chegarmos a um momento onde já não temos antibióticos capazes de combater doenças que já dávamos por eliminadas, como a tuberculose ou a pneumonia.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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22 respostas a Comemorações do bicentenário de Charles Darwin

  1. João diz:

    Gostei bastante…só era preciso 1.

  2. Miúdo, isto é uma tese.
    Que tal o Gradualismo Pontilhado ou Pontuado?

  3. Belo post caro André. Não creio que houvesse muita informação nova para mim (à excepção daquela parte sobre os programas do secundário) mas foi de leitura agradável.

    Obrigado

  4. LA-C diz:

    Obrigado por este texto.

  5. Pode enviar-me/comentar a referência do abaixo? Obrigado, DP.

    “Por exemplo, o ensino da Origem da Vida e da Origem e Evolução do Homem, estão totalmente ausentes (quando já constaram do currículo). Mas estranho e preocupante ainda são algumas recomendações do programa do 11º ano, onde podemos ler:

    “evitar o estudo pormenorizado das teorias evolucionistas” e “evitar a abordagem exaustiva dos argumentos que fundamentam a teoria evolucionista.”

    “Não há consenso sobre as causas da diversidade dos seres vivos. As teorias evolutivas explicam essa diversidade pela selecção dos organismos mais adaptados, razão pela qual as populações se vão modificando.”

    [recomenda-se a] “construção de opiniões fundamentadas sobre diferentes perspectivas científicas e sociais (filosóficas, religiosas…) relativas à evolução dos seres vivos””

  6. Gilbert K. C. diz:

    Contemplemos a sua obra. Ante a dificuldade de criar um macaco e de vê-lo transformar-se em ser humano, nosso homem não se contentará em dizer, o que nós o faríamos de bom grado: — que uma evolução desse gênero se apresenta, em suma, como bastante verossímil. Não, ele exibe a sua pequena esquírola ou a sua minúscula coleção de ossos, e deduz, para maravilhar as multidões, toda uma série de revelações surpreendentes. Assim, por exemplo, em Java se encontraram os restos de um crânio que devia ser mais estreito que o nosso, pelo que se pôde deduzir. Um pouco mais distante, um fêmur, e, dispersos pelas cercanias, alguns dentes que não eram humanos. Se o todo proviesse de um mesmo indivíduo, o que está, ainda, por averiguar, a idéia que poderíamos fazer de tal indivíduo, não seria, talvez, menos incerta. Entretanto, tudo isto bastou à ciência popular para fabricar um personagem completo, mais que completo, terminado dos pés à cabeça, sem a carência do mínimo detalhe, e que recebeu, para logo, um nome próprio, como toda a personagem histórica que se respeite.

    O público falou, assim de Pitecântropo como de Richelieu, de Fox ou de Napoleão. As enciclopédias ilustradas publicaram a sua efígie entre Pesistrate e William Pitt e, nós temos dele um excelente desenho, de um tão minucioso realismo, que se não pode duvidar de que lhe foram contados, um por um, até os cabelos. Quem suspeitaria ao ver aqueles rasgos fisionômicos, tão poderosamente acentuados, e aquele olhar meditabundo, que são o retrato de um fêmur ou de um pedaço de abóbada craniana e de um punhado de dentes? Seu caráter e seus costumes são, igualmente, de notoriedade pública. Eu li, ainda não faz muito, uma novela, cujo autor empenha toda a sua arte em demonstrar como os modernos colonos da ilha de Java se vêm irresistivelmente compelidos à infringirem as leis da conveniência pelo influxo pessoal desse pobre velho Pitecantropo. Que os habitantes contemporâneos daquela ilha observem, amiúde, uma conduta das mais inconvenientes, eu não o duvido. Mas, faz-me pena aceitar que sejam, fatalmente estimulados em seus excessos pelo descobrimento de uns velhos ossos de autenticidade mais que duvidosa. Ossos demasiado raros e bastante fragmentados para preencher o vácuo imenso que separa o homem, tanto em razão como de fato, do seu pretenso ascendente. Uma vez admitido este parentesco — o meu objetivo não é discuti-lo — não seria, de outra parte, senão mais surpreendente, ainda, a ausência quase completa de vestígios que o testemunhem.

    Foi, exatamente, o que Darwin admitiu, de boa fé, criando a expressão — “missing link” — “elo perdido”, sem prever que o dogmatismo dos darwinistas acabaria, finalmente, com o agnosticismo darwiniano, dando a esse termo, completamente negativo, o sentido de uma expressão positiva. Essa gente fala, seriamente, em descobrir a habitação e os costumes do “missing-link”, depois do que não lhes faltará mais nada que almoçar com um guião, passear pelo bosque em companhia de uma solução de continuidade e passar o melhor possível com a incógnita de uma equação.
    (G.K.Chesterton)

    Ainda o que impressiona é que a hipotese de que o elo perdido seja completado pela interferência de seres alienigenas inteligentes, teria um público muito maior que a simples afirmação: “e Deus fez o homem”. Ainda que estes avançados alienigenas tenham em si outro “elo perdido”.
    (W.P Ramiro)

  7. Luis Rainha diz:

    Belíssimo resumo. Guardei a leitura para agora e valeu bem a pena.

  8. André Barata diz:

    O artigo é interessante, particularmente quando denuncia “as recomendações” do programa do 11º. Tenho reservas à comparação entre Darwin e Freud. É argumentável que é comparar conhecimento científico com outra coisa, o que, na minha opinião, introduz ruído. Haverá outros nomes de relevo mais facilmente comparáveis com Darwin, subentendendo nos nomes as respectivas obras.

    Também gostaria de ouvir alguém da área a falar um pouco da posição de Gould. Talvez para um segundo post…

    Parabéns.

  9. ezequiel diz:

    Gostei bastante. vê lá se escreves +.

    congrats.

  10. Helena Abreu diz:

    O programa de biologia do secundário com as recomendações que o André Levy cita podem ser consultadas em:

    http://sitio.dgidc.min-edu.pt/recursos/Lists/Repositrio%20Recursos2/Attachments/190/biologia_geologia_11.pdf

  11. André Barata diz:

    Depois de lidas as “Orientações” que Helena Abreu teve a gentileza de indicar, quer-me parecer, muito honestamente, que se esvanece a inquietação que aquelas pareciam proporcionar sob a apresentação do André Levy. Na verdade, se devidamente contextualizadas as referências são normais, entenda-se, meritoriamente normais.

    Com efeito, recomendar-se evitar o estudo “exaustivo” ou “pormenorizado” pode não ser mais do que uma decorrência do carácter introdutório à matéria (muitos outros “a evitar” acompanham estas Orientações, dominantemente com esse sentido). Não vejo motivos para pensar outra coisa.

    Por outro lado, as ditas Orientações recomendarem a «construção de opiniões fundamentadas sobre diferentes perspectivas científicas e sociais (filosóficas, religiosas…) relativas à evolução dos seres vivos» não implica nenhum sentido para a opinião que se venha a construir. Creio que é uma excelente recomendação, pelo incentivo à partilha interdisciplinar de saberes e pelo convite à avaliação crítica do que se passa à volta.

    Aliás, neste mesmo sentido encontram-se recomendações importantes que merecem ser atendidas (até pelo justo contraste que oferecem a outras que foram apontadas). Por exemplo, a seguinte:
    «Reconhecimento de que o avanço científico tecnológico é condicionado por contextos (ex. sócio-económicos, religiosos, políticos…), geradores de controvérsias, que podem dificultar o estabelecimento de posições consensuais.»

    Parece-me justo, muito mais do que se fez parecer (pelo menos aos meus olhos).

    Cordialmente.

  12. Re: André Barata
    Em geral, as recomendações de se evitar o estudo exaustivo e pormenorizado de uma determinada área tornam-se evidentemente necessárias, para que os professores, no contexto de um ano escolar limitado, tenham orientação sobre que temas desenvolver e que temas não pormenorizar. Contudo, e claro que isto é um biólogo evolutivo que o refere, a evolução é uma área central a toda a biologia, que lança luz sobre todos as restantes áreas. Pedagogicamente não me faz sentido que os alunos tenham de apreender detalhes sobre a área da sistemática; os variados grupos de animais, plantas e outros seres vivos; e falem na “função” de estruturas e sistemas, sem que seja desenvolvido com algum detalhe os tratamento dos processos e mecanismos responsáveis por essa diversidade e adaptação (ou “função”). Isto é, a destacar uma área que não deve ser tratada com pormenor, parece-me justamente que a evolução não deveria ser essa área. Por outro lado, na Unidade 7, da Evolução Biológica, onde se recomenda evitar o “estudo pormenorizado das teorias evolucionistas” e a “abordagem exaustiva dos argumentos que fundamentam a teoria evolucionista”, recomenda-se por outro lado enfatizar as “diferenças entre o pensamento de Lamar[c]k e Darwin e a utilização do termo neodarwinismo”. Esta última recomendação teria sentido na ausência das anteriores e havendo espaço para um tratamento histórico pormenorizado da história do pensamento evolutivo.
    Nos moldes do programa, parece-me desequilibrado estar a comparar as bases lançadas por Darwin, largamente aceites pela comunidade científica, com um modelo evolutivo e de hereditariedade como o proposto por Lamarck, que já está ultrapassado. Igualmente, parece-me desproporcionado o peso sugerido para o contraste entre evolução e fixismo. Esta última opinião refere-se apenas quais as áreas que creio deverem ser prioritárias, e não para desmerecer o contributo de Lamarck, que foi significativo no seu período, e cuja obra «Philosophie zoologique» comemora também este ano os seus duzentos anos de publicação. Mais sentido faria, precisamente, pegar em Darwin e aliar o seu pensamento evolutivo com o desenvolvimento da genética Mendeliana e desenvolver a síntese desenvolvida nos anos 1930-40 (que é distinta do neodarwinismo referido no programa).

    Mais, estar por um lado a recomendar que não se desenvolva o moderno pensamento evolutivo, fundamental para entender a Unidade seguinte, a 8 – sistemática dos seres vivos, e recomendar por outro:
    o«reconhecimento do carácter provisório dos conhecimentos científicos,
    bem como da importância epistemológica das hipóteses»;
    o «reconhecimento de que o avanço científico-tecnológico é condicionado
    por contextos (ex. sócio-económicos, religiosos,políticos…), geradores
    de controvérsias, que podem dificultar o estabelecimento de posições consensuais»;
    e a «construção de opiniões fundamentadas sobre diferentes perspectivas científicas e sociais (filosóficas, religiosas…) relativas à evolução dos seres vivos»,
    parece-me desproporcionado numa aula de ciências. Serei dos primeiros a defender que os estudantes discutam e apreendam que a ciência é uma construção social, com uma história, fruto do contributo de cientistas com uma ideologia e contexto histórico que os influencia; e que existem outras formas de saber, não científicas. Mas parece-me que o DESENVOLVIMENTO e ÊNFASE dessa matéria deve ter lugar numa aula de filosofia. Pode e deve ser MENCIONADO numa aula de ciência, mas novamente parece-me desproporcional estar a DESENVOLVER estes aspectos NUMA AULA DE CIÊNCIAS em prejuízo de se DESENVOLVER o conteúdo científico.
    É o facto do programa por um lado recomendar o não desenvolvimento da teoria evolutiva moderna, dando até maior destaque a contrastes anacrónicos, & recomendar, de três formas diferentes, o desenvolvimento de matérias que envolvem questionar a objectividade da ciência que me parece preocupante, sublinho, NUMA DISCIPLINA DE CIÊNCIAS. Repito, estes temas merecem desenvolvimento, mas noutro enquadramento. Que sentido faz numa cadeira de ciências não desenvolver o entendimento da ciência e simultaneamente desenvolver «opiniões fundamentadas (…) filosóficas e religiosas»? Este desequilíbrio, numa aula de ciências, só pode tender a desmerecer a ciência. Penso que este desequilibro é fruto da ignorância ou, pior, de uma visão ideológica hostil à efectiva compreensão da evolução.

    Por fim, um dos conteúdos da unidade sobre evolução é a «reflexão crítica sobre alguns comportamentos humanos que podem influenciar a capacidade adaptativa e a evolução dos seres», um tema sem dúvida importante e que eu próprio tenho tido oportunidade de desenvolver, como forma de sublinhar que a evolução não é um tema de mero interesse académico, mas que tem impacto sobre a nossa saúde e economia (caso da evolução de resistência de bactérias a antibióticos). Mas não deixa de ser surpreendente que é apenas neste conteúdo que surge a nossa espécie. O tratamento da evolução da espécie Humana é omisso. Isto é, a nossa espécie apenas é referida como AGENTE de evolução, seja através da selecção artificial quer através da modificação do ambiente. Mas não é tratada como OBJECTO da evolução, ou integrada na árvore da vida, a par dos outros seres vivos. Também esta omissão me parece gravosa, desequilibrada, e consistente com a visão de um programa hostil a um efectivo tratamento da evolução, pois foi, e é, justamente a evolução do homem e sua afinidade com outros primatas um dos temas mais combatido por aqueles que se opõe ao pensamento evolutivo.

  13. André Barata diz:

    Vamos lá a ver se nos entendemos.

    O meu comentário (o segundo) visava apenas as referências às “Orientações” feitas no post e nada mais. O que agora se acrescenta a respeito das mesmas continua a ser irrelevante para concluir que se esteja perante um”programa hostil a um efectivo tratamento da evolução”. Por isso achei que devia fazer a chamada de atenção que fiz, e que mantenho. E a minha discordância pára aqui.

    Uma coisa é argumentar que as Orientações são insuficientes, deficientes, desproporcionadas, exemplo de uma metodologia discutível, ok, quanto a isto deixo aos professores de biologia a discussão. Outra, convenhamos, é que o mesmo documento denotasse uma visão hostil, minuciosamente resistente, à evolução.

    São ainda feitos muitos outros comentários, mas que, independentemente do interesse para outras trocas de impressões, não vêem agora ao caso.

    Cordialmente,

  14. Fáty diz:

    Olá meeu nome é faty estou estudandO isso e estou adorando !
    Cara esse escritoor é um maximo !

  15. Matheus diz:

    Cara, não vou conceguir ler isto tudo, só queria saber uma resposta rápida e curta: Como Darwin começou a intender o fenômeno da especiação?

    Rápido Por FAVOR !

    As 21:11 escrevi isto

    mas quero pelo menoas asw 22:00

    porque tenho prova amanha sobre ele e esta e a minha única dúvida !

  16. Cara, sua sorte é eu estar acordado a trabalhar. Aqui em Portugal são 3 da manhã. Embora a obra de Darwin se intitule “Origem das Espécies” ele não desenvolve muito como se dá o fenómeno da multiplicação das espécies, mas sobretudo como uma espécie se transforma. Isto é, a especiação foi algo desenvolvido mais tarde. Mas já na obra de Darwin está subjacente a ideia de que se uns indivíduos chegarem a um local novo e se adaptarem localmente, podem vir a divergir da população ancestral. Para tal as observações das tartarugas das Galápagos, e a análise posterior dos sabiás e tentilhões das ilhas, foram muito importantes. No caso das tartarugas até os marujos eram capazes de distinguir de que ilha vinha a espécie com base na carapaça. Como as espécies das Galápagos eram semelhantes a formas da América do Sul, Darwin inferiu que as insulares havia derivado das continentais. Boa sorte na prova.

  17. karoline diz:

    no seu livro a o rigem das especies fala tudo sobre vc me mande a resposta pelo msn que esá ai ensima

  18. João Érmenson diz:

    Olá, Gostei do texto.

  19. carol diz:

    eu odiei esse cara de bunda

  20. carol diz:

    esse cara tem uma cara de bunda

  21. sheron diz:

    olha gostei bastanti alem di mi ajuda muito na escola!

  22. ana diz:

    boum gostei bastante dessa materia
    apesar dela ser mto grande
    mas me + ajudou mto

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