Comemorações do bicentenário de Charles Darwin

Há figuras históricas, que pela sua importância, pelo seu papel fundador de uma área de conhecimento, ficam intimamente associadas a essa área. Tal sucede, por exemplo, com Sigmund Freud e a psicanálise. Concorde-se ao não com o que ele escreveu, ou melhor com o que ele escreveu em determinada fase da vida – pois o seu pensamento também foi naturalmente evoluindo ao longo da sua vida – Freud na Psicanálise é uma figura incontornável. O mesmo sucede com Charles Darwin e a biologia evolutiva.

Antes de mais um esclarecimento. Quando se fala em «biologia evolutiva» não se está a criar um contraste com uma «biologia não-evolutiva». Trata-se de uma especificação. Como que diz que um biólogo que estuda aves é um ornitólogo, ou alguém que estuda ecossistemas marinhos, é um biólogo marinho. Por analogia, um engenheiro civil ou um arquitecto paisagista, são especialidades dentro da engenharia e arquitectura. Um «biólogo evolutivo» é um biólogo especializado nas problemática da evolução, a questão da evolução das espécies, na formação de novas espécies (especiação), do modo como estas se adaptam ao meio, nos mecanismos evolutivos (que não se esgotam com a selecção natural), com a relação entre populações de uma mesma espécie, com a história da vida da terra, etc. Em geral não é um biólogo cujo estudo esteja restrito a um grupo de organismos, mas tende a aplicar o seu conhecimento a uma variedade de organismos. Eu por exemplo, sou biólogo evolutivo, e já trabalhei com plantas, insectos, e trabalho agora com peixes marinhos, mas a linha condutora é a evolução, os seus mecanismos, as suas técnicas de análise e questões associadas.

Mas voltando a Charles Darwin, cujo bicentenário se celebra hoje, 12 de Fevereiro, por todo o mundo. Em Portugal, estão em marcha diversos eventos, incluindo a inauguração de uma exposição na Fundação Calouste Gulbenkian, que será das maiores exposições do mundo (se não a maior, em termos de área e diversidade de elementos, incluindo animais vivos). Paralelamente à exposição, haverão uma série de conferências, incluindo grandes nomes da área. Mas além das iniciativas promovidas pela Fundação CG, haverão várias outras ao longo do ano, de Lisboa a Braga aos Açores. Para um calendário eventos vejam, a página (criada por mim) biologia-evolutiva.net (que contem outras informações, incluindo insituições de investigação em biologia evolutiva, e livros publicados em Portugal sobre o tema), ou a página do calendário. Trata-se de um calendário Google, pelo que os utilizadores desta plataforma podem adicionar este calendário de eventos do Ano Darwin, ao seu calendário pessoal.
Tendo já saído tanta informação recentemente sobre Darwin nos jornais e revistas, não pretendo aqui adicionar nada de novo à sua biografia e ao impacto das suas ideias. Incluo apenas alguns breve apontamento históricos. A circum-navegação no H. M. S. Beagle foi um momento fundamental na vida de Darwin. Tinha na altura apenas 22 anos. Tendo já interesse pela história natural, foi durante esta viagem, que Darwin fez observações, recolhas e leituras que vieram a ser fundamentais para o desenvolvimento do seu pensamento. Foi também durante a viagem que Darwin descobriu fósseis de enorme importância na época. As suas notas e descobertas iam sendo enviadas para Inglaterra, onde Darwin foi ganhando grande reputação e reconhecimento como naturalista. Ao regressar a Inglaterra, país que nunca mais deixou até o final da sua vida em 1882, encontrou uma Inglaterra já bastante diferente, onde a revolução industrial e os conflitos sociais dela resultantes estavam na ordem do dia. Ao desenvolver as suas ideias sobre evolução, Darwin temia o efeito que a sua publicação poderia ter. Teve um demonstração dessa reacção após a publicação do texto de Roberto Chambers, anonimamente, em 1844. Havia também grande tensão social entre os apologistas na Nova Lei dos Pobres, que efectivamente pretendia eliminar todos os apoios aos pobres, e o defensores da Carta Popular, os Cartistas, que a opunham. O panfleto do Rev. Thomas Malthus, que foi um inspiração para a ideia de selecção natural de Darwin, era um documento político, onde este defendia que face ao crescimento demográfica da população empobrecida, os subsídios sociais eram redundantes e contra-producentes. Embora Darwin se tenha inspirado em alguns elementos de Malthus, não era propriamente um defensor das suas conclusões políticas, mas temia ser associado aos defensores da Lei da Pobreza, e – como pessoa abastada que era – temia ser alvo da revolta e motins que eram frequentes na época.

Assim, Darwin foi desenvolvendo as suas ideias, acumulando evidências, mas apenas partilhando-as e discutindo-as no seu círculo de confiança. Tencionava inclusive não publicar a sua obra em tempo de vida, tendo deixado indicação à sua esposa, para que fosse publicada postuamente. Mas os eventos precipitaram-se quando Darwin recebeu uma carta de um joven naturalista, Alfred Russel Wallace, esboçando, com menor sofisticação, a ideia de selecção natural. Sendo um homem honrável, não concebia simplesmente esconder a carta, mas por outro lado não queria ser passado à frente. A conselho de amigos, cartas de Darwin e Wallace foram lidas na Sociedade Linneana em 1858. Mas foi a publicação do “longo argumento” da Origem das Espécies (a 24 de Novembro de 1859) que veio efectivamente lançar um debate público intenso. Darwin manteve-se sempre distante da linha da frente, e foram seus amigos, como Thomas Henry Huxley e John Hooker, que o defenderam publicamente. Apesar de alguma polémica, a ideia de evolução foi aceite com relativa rapidez nos círculos científicos. Aqui estava uma colecção extensa de argumentos a favor de um processo e mecanismo natural da origem e diversidade das espécies, das adaptações que eles exibem, que não queria intervenção divina.

Ernst Mayr, um grande biólogo evolutivo, divulgador, historiador e filósofo da evolução, que faleceu em 2004 (com quase cem anos), precisou que na Origem Darwin introduziu várias teorias: a da evolução propriamente dita, a de evolução gradual, a da multiplicação das espécies, a da ancestralidade comum, e a teoria da selecção natural. Esta divisão é útil pois nem todos os biólogos evolutivos aceitaram todas as teorias. Huxley por exemplo, o “bulldog de Darwin” deu pouco importância à selecção natural. Ainda hoje a biologia evolutiva é uma ciência plural, onde se aceitam vários mecanismos e modos de evolução, onde se discute a sua relativa importância, mas onde o a evolução é tida como facto científico, devido à quantia avassalora de provas a seu favor. Isto é, no campo científico existem debates e controvérsias dentro da biologia evolutiva, mas sempre aceitando o facto da evolução.

O debate entre evolução e criacionismo, porém, tem recebido mais atenção. Debate onde perdura uma grande confusão entre ciência e fé. Estas não são necessáriamente incompatíveis, como demonstram os contributos do biólogo evolutivo e crente Theillard de Chardin, a encíclica do Papa João Paulo II, ou as opiniões do português Luís Archer, ex-dirigente da Comissão Nacional de Bioética. Embora esta controvérsia assuma maior relevância nos EUA, por motivos que não irei explorar agora, surgem já indícios de que o criacionismo ganha algumas raízes na Europa. Tal levou a Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa a emitir, em Setembro de 2007, um relatório inequívoco sobre a importância da evolução e alertando para os perigos do criacionismo na educação europeia. Na Europa, não havendo os movimentos criacionistas organizados que existem nos EUA, existe um criacionismo críptico, alimentado pela ignorância científica. Um relatório da associação Theos, que conclui que 22% dos britânicos preferem as teorias do criacionismo ou concepção inteligente (Inteligent Design). Apenas um quarto dos inquiridos consideram a teoria da evolução como “definitivamente verdadeira, um segundo quarto como “provavelmente verdadeira”. Isto é metade dos sondados (2 mil e seiscentos).

Quais serão os números em Portugal? Desconheço se existe algum estudo. Mas uma olhadela pelos programas de biologia do ensino básico e secundário tem vários elementos preocupantes. Por exemplo, o ensino da Origem da Vida e da Origem e Evolução do Homem, estão totalmente ausentes (quando já constaram do currículo). Mas estranho e preocupante ainda são algumas recomendações do programa do 11º ano, onde podemos ler:

“evitar o estudo pormenorizado das teorias evolucionistas” e “evitar a abordagem exaustiva dos argumentos que fundamentam a teoria evolucionista.”

“Não há consenso sobre as causas da diversidade dos seres vivos. As teorias evolutivas explicam essa diversidade pela selecção dos organismos mais adaptados, razão pela qual as populações se vão modificando.”

[recomenda-se a] “construção de opiniões fundamentadas sobre diferentes perspectivas científicas e sociais (filosóficas, religiosas…) relativas à evolução dos seres vivos”

Para uma análise dos programas curriculares recomendo um estudo de Helena Abreu. Como afirmei acima, há consenso no seio da ciência sobre as causas da diversidade dos seres vivos: a evolução (não obstante debates científicos sobre a relativa importância de diferentes mecanismos). E podendo o currículo escolar conter espaço para consideração de outras ideias sobre as causas da diversidade, estas não deverão ter lugar no espaço de uma disciplina de Ciências.

Como justificar a ausência do ensino da Evolução do Homem, ou o evitar o estudo pormenorizado da Evolução. Nas palavras de Theodosius Dobzhansky “nada em biologia faz sentido excepto à luz da evolução”. É este elemento teórico da biologia que dá sentido à restante. Porque hão-de os estudantes apreender (ou decorar) nomes de vários tipos de organismos, sem receberem formação sobre como surgiram, porque existe tamanha diversidade, e como estão os organismos adaptados ao seu meio?

Estas lacunas são fomentam um terreno fértil para o florescimento de um criacionismo críptico, baseado na ignorância. Não fosse essa ignorância razão suficiente, a verdade é que a evolução não se limita a um fenómeno de mero interesse académico, para entendermos a história da vida na terra. Tem importância na nossa vida quotidiana, e deve pesar nas nossas escolhas como cidadãos. A evolução pode ocorrer rapidamente, particularmente em organismos com tempo de geração rápida, como sejam os víros, as bactérias, os insectos, as plantas anuais, e até algums vertebrados como os peixes. Não é possível entender o vírus HIV e a SIDA, sem se entender evolução. As pressões humanas geradas pelos antibióticos, pelos pesticidas e pela pressão piscatória, estão a dar origem a respostas evolutivas por parte de bactérias, insectos responsáveis por pragas agrícolas, e por peixes importantes para essa actividade económica. A resistência de bactérias a múltiplos antibióticos têm graves consequências para a saúde pública. A resistência de insectos aos pesticidas têm consequências na produção alimentar e na impacto ambiental (pois os agricultores tendem a reagir aplicando maiores doeses de químicos). Tudo isto tem severos custos económicos, que só uma cidadania e uma classe política informada sobre evolução pode compreender, e tomar decisões capazes de evitar, por exemplo, chegarmos a um momento onde já não temos antibióticos capazes de combater doenças que já dávamos por eliminadas, como a tuberculose ou a pneumonia.

Sobre André Levy

Sou bolseiro de pós-doutoramento em Biologia Evolutiva na Unidade de Investigação em Eco-Etologia do Instituto Superior de Psicologia Aplicada, em Lisboa
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