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Mas onde estava esta gente, agora tão activa, há uns anos?

11 de Fevereiro de 2009 por Luis Rainha

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Edward Kienholz, The Illegal Operation

Lê-se o que os responsáveis de uma tal Federação Portuguesa pela Vida escrevem e dizem por estes dias e não se acredita.
«De facto, as grandes vítimas da liberalização do aborto são as mulheres. Aquilo que todos os dias encontramos são mulheres com depressões, arrastadas, pela situação do aborto», garante Isilda Pegado. Mas como era antes da legalização da IVG? Corria tudo melhor às mulheres por abortarem no meio de baratas? Ficavam menos deprimidas quando se viam presas? Ou quando chegavam ao hospital para raspagens de emergência e ainda eram insultadas pelos profissionais de saúde mais beatos?
Mas é um outro ideólogo da coisa, Pinheiro Torres, a ganhar o prémio da sugestão mais cruel e alucinada: «é um direito das mulheres, que ao menos sejam confrontadas com aquilo que representa uma gravidez. Façam a ecografia e mostrem-na.» Como é típico de quem quer impor as suas ideias sobre vida, morte e moral a toda a gente, este senhor confunde um direito com uma obrigação. E toma as mulheres por imbecis incapazes de perceberem o que estão a fazer sem antes verem uns bonecos. Só faltava mesmo a quem já está prestes a passar por um dos momentos mais difíceis da sua vida ter de levar com malta desta aos urros, com um crucifixo numa mão e um porta-chaves do “Zezinho” na outra.
Antes do referendo é que estava tudo bem; ou, pelo menos, bem melhor que agora: «Os senhores da liberalização herdaram um país com as mais baixas taxas de aborto da Europa, como agora se comprova…» E até a fuga do ogre Jardim ao cumprimento da lei é tida por exemplar, estando mal quem impôs a legalidade: «A Região Autónoma da Madeira, durante meses, resistiu à aplicação da lei – folhetim que demonstra bem a prepotência do poder central.»
E que bem se estava antes, quando só as senhoras de posses podiam enviar as filhas para o estrangeiro a fim de se livrarem dos incómodos. Quando ninguém sabia ao certo quantos abortos eram executados ou em que condições. Mas não me recordo então nem destes senhores a vociferar contra a barbárie nem de ver molhadas de associações de ratos de sacristia a alastrar como cogumelos bafientos.
Este agrupamento, em particular, diz que «Portugal, através da Federação Portuguesa pela Vida acaba de subscrever um pedido dirigido às Nações Unidas» blá, blá. Vejam se entendem: ninguém vos mandatou para servir de veículo à vontade do país. Para saber qual ela era, tivemos um referendo. Subscrevam o que quiserem em vosso nome. Mostrem ecografias às vossas filhas. Proíbam as vossas mulheres de abortar. Deixem as restantes pessoas em paz com as suas consciências e com as suas acções.

Comentários

Comentário de GP
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 11:37

Este agrupamento é mas é sacana. Então a questão não era de princípio, de defesa do feto, e etc.? Agora o que está em causa é a saúde mental das mulheres que abortam? Pá, tenho várias amigas que abortaram e nenhum ficou deprimida por isso — não tendo sido uma coisa nada fácil de fazer, como é óbvio. Na verdade, a única deprimida — e deprimida mesmo, suicida, hospitalizada — deste grupo já o era antes de fazer um aborto; e fê-lo em grande parte por causa disso, por ser deprimida a sério e achar que não tinha condições para ter uma criança. Mas já agora, esta preocupação com as mulheres-verdadeiras-vítimas-do-aborto abre as portas a outro argumento: e as que ficam deprimidas por terem um filho que não querem mesmo, que não têm condições (económicas, pessoais, de saúde, o que seja) para ter crianças) e são forçadas a tê-las? E as que são obrigadas a dar filhos que tiveram? Será pouco traumático?

Comentário de Luis Moreira
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 11:47

O que me vira do avesso é que estes gajos se intitulam “da vida” como quem não pense como eles seja “da morte”.Isto ,se fosse preciso, mostra de vez o carácter desta gente.E nunca responderam a uma pergunta simples. O “não” evita o aborto?

Comentário de Cam
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 13:13

Evita sim. Espere pelas estatisticas do aborto dos proximos anos.

Por falar nisso, aonde estiveram presas as mulheres que foram presas por abortarem? Ao lado dos incendiarios que tambem não foram presos na ultima decada?

Comentário de Morgada de V.
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 13:17

“E toma as mulheres por imbecis incapazes de perceberem o que estão a fazer sem antes verem uns bonecos.”. Nem mais, Luis Rainha. Esta gente não existe.

Comentário de Pedro Ferreira
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 14:15

Caro Cam, o exemplo Francês diz exactamente o contrário do que afirma. O IVG foi legalizado há mais de 30 anos, a amostra estatística é representativa e a conclusão é que a despenalização não provocou aumento do número de abortos (nem diminuição significativa), pode ver um artigo que publiquei em 2005 sobre este assunto, e o estudo a que me referia.

Comentário de LR
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 17:39

Cam,
A prisão não era tudo: já o facto de se ser levada para a esquadra por causa de um aborto, imagina o que fazia a uma mulher? Claro que não, nem quer saber.
E os milhares de mulheres insultadas nos hospitais, algumas até depois de abortos espontâneos?

Comentário de pcarvalho
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 18:02

A Lei do ‘Aborto’ não OBRIGA quem não o quer fazer mas,os anti-lei OBRIGAVAM as mulheres q entendiam q tinham de interromper a gavidez a,não o fazer(claro,depois recorriam às enfermeiras e médicos e curiosos a fazer o aborto e q alguns até eram contra,mas não a receber o dinheirinho…).
É só a diferença,seus Medievais…

Comentário de tiagomorais
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 18:31

Partindo do principio não desmentido que o aborto é um mal (a morte do feto, a saúde física e psicológica da mulher, etc)- e muito evitável hoje em dia – não percebo porque se acha normal que o aborto não diminua. É normal que em 30 anos não diminua em França? Que desde a legalização – contemporânea da vulgarização da pilula – tudo continue, passados 30 anos? eu acho é um mal e um problema político grave.

Comentário de Luis Moreira
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 21:58

Cam, o aborto fazia-se no vão de escada.Não evitava o aborto e não evitava a morte e a doença das mulheres que o faziam naquelas condições A única coisa que mudou é que você agora já não pode dizer que dorme de consciência tranquila.Agora sabe!

Comentário de Pedro Ferreira
Data: 11 de Fevereiro de 2009, 22:47

Caro tiagomorais se ler bem o meu comentário e o artigo que cito verá que não acho bem nem mal, limito-me a constatar uma realidade. Queria simplesmente sublinhar que a legalização do aborto não provocou uma baixa de natalidade nem um aumento do número de abortos. A propósito do acesso à contracepção o estudo que cito explica que o número de gravidezes não desejadas diminuiu mas a proporção destas são interrompidas aumentou.

De um ponto de vista absoluto estou de acordo que o ideal seria que o melhor acesso à contracepção resultasse numa diminuição significativa do número de abortos, ainda há bastante trabalho de educação a fazer.

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Data: 12 de Fevereiro de 2009, 15:32

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