De pequenos nadas se faz um grande nada

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O meu amigo João Pedro da Costa (há quanto tempo, pá!) entendeu mal o meu aplauso ao já infame artigo de Mário Crespo, tão fustigado por gente justiceira sem qualquer interesse pessoal no caso em apreço. «A acumulação de nadas nada mais é uma acumulação de nadas», escreveu ele, coberto de razão.
Acontece, no entanto, que eu estou longe de acreditar que a acumulação de indícios em torno do Freeport basta para convencer uma cabeça razoavelmente isenta da culpabilidade de Sócrates. Aliás, mantenho a esperança de que o primeiro-ministro de Portugal não venha a andar com um mandado de captura made in Scotland Yard às costas. Os “nadas” que eu vejo acumulados em torno dele não são as peças de um retrato-robot de criminoso. São apenas fragmentos de um monumento a um certo modelo de cidadão português. O Zé que prefere sempre o caminho mais curto, que não hesita em aderir ao pequeno esquema meio esconso, que não apresenta qualquer qualidade de relevo mas que se abespinha cada vez que alguém lhe aponta a mínima falha. O cidadão que venera as aparências, pois desconfia que nada mais tem lá por dentro. O português que fez nascer e medrar o adágio “se queres ver quem é o vilão, põe-lhe um pau na mão”; não hesita no ataque de cólera, na intimidação despudorada, no uso sem freio de qualquer autoridade que lhe confiem.
O que tem José Sócrates para apresentar em termos de feitos académicos? Algo ao nível de um António Guterres? Não; confusões escusadas, com uma universidade manhosa ao barulho. E quanto à vida no mundo real, em profissões a sério? Novos imbróglios e assinaturas apostas a um monte de casebres horrendos. Como governante, distinguiu-se pela “determinação”: franzir o cenho e persistir sempre, criando a impressão de que se sabe para onde se caminha. Os eleitores adoram o estilo, claro. Emídio Rangel aproveitou e decidiu fazer dele um dos seus “meninos” de estimação, emparelhado com Santana Lopes, fazendo do prime-time da SIC o laboratório onde a nossa triste sina foi ensaiada.
Agora, começamos a desconfiar que até a determinação do Sócrates-ministro era afinal uma coisa outra. No meio de conversas esquisitas de tios e primos, de reuniões fantasma, de pressas mal explicadas, lá emerge outra vez o mesmo estereótipo do português-tipo. No mínimo atabalhoado e laxista, no máximo, coisa bem pior. Apesar de tudo, continuo a acreditar na hipótese menos má.

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