Daqui, da filial do Porto do «5 Dias»…

Durante muito tempo, critiquei duramente a Plataforma Sindical de Professores, sobretudo na altura em que foi assinado o célebre Memorando de Entendimento com o Ministério da Educação. Um Memorando que, recorde-se, permitiu ao Governo dizer que no ano passado os professores foram avaliados. Quando, na realidade, foram tão avaliados como «nos últimos trinta anos», como gosta de dizer o primeiro-ministro.
Desta vez, quando se sabe que alguns professores, pressionados pelos respectivos Conselhos Executivos, estão a entregar os seus Objectivos Individuais, penso que ninguém pode acusar os sindicatos. Quem está a entregar os Objectivos Individuais esteve nas três grandes manifestações nacionais, fez todas as greves. E ao fim de mais de dois anos de luta, acaba por aceitar este modelo de avaliação e esta política do Ministério da Educação. Acaba por se colocar de gatas perante a ministra.
Não quero dizer que esses professores são cobardolas. Antes direi que não tiveram forças para resistir. Soçobraram perante Conselhos Executivos miseráveis que os pressionaram de todas as maneiras, esquecendo-se que também são professores e que, um dia, vão estar do outro lado da barricada.
Soçobraram perante Direcções-Regionais que, de forma ilegal, quiseram obter junto das escolas listagens dos professores que não tinham entregue os Objectivos Individuais.
Soçobraram até perante presidentes da Câmara Municipal, que, metendo a política nas escolas de forma absolutamente nojenta e degradante, telefonaram directamente a professores para pressioná-los. Nas cidades, tal seria impossível, mas na província alguns caciquezitos locais transformam a vida de quem aí mora numa autêntica «claustrofobia democrática». Do concelho de Resende, distrito de Viseu, têm-me chegado informações acerca das formas de pressão utilizadas sobre os professores. Tão abjectas que fariam corar Alberto João Jardim. O presidente da Câmara de Resende, convém dizê-lo, é um dos homens de mão de José Sócrates, como se pôde ver há algum tempo no «Prós e Prós».
Pois bem. Se alguns professores entregaram os seus Objectivos Individuais, muitos outros não o fizeram. E daqui, da filial do Porto do «5 Dias», tenho uma comunicação a fazer-lhe, senhora ministra: não entreguei nem irei entregar os meus Objectivos Individuais.
E não o fiz exactamente porque quero ser avaliado de forma justa, correcta e diferenciada. Até já apresentei o meu modelo de avaliação alternativo. Entregarei a minha ficha de auto-avaliação lá para o final do ano, porque é a única a que estou obrigado. Quanto ao resto, nada.
Se estou a incorrer em alguma ilegalidade, processe-me. Peço-lhe por favor, senhora ministra. Processe-me a mim e aos mais de 50 mil professores que não entregaram os seus Objectivos Individuais.
Apesar de tudo isto, ou por causa de tudo isto, temo que as pressões a que muitos professores estão sujeitos sejam mais fortes do que a sua coragem. E se for assim, os professores irão perder, por culpa própria, esta guerra. E se for assim, durante os próximos 30 anos serão enrabados forte e feio por todos os Governos que se seguirem. Porque estes sabem que, no final, eles abrirão as perninhas aos senhores do poder. E se for assim, senhores professores, é muito bem feito!

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13 respostas a Daqui, da filial do Porto do «5 Dias»…

  1. Gabo-lhe a coragem e coerência. Infelizmente, para muitos, o que se coloca é a questão de saber se serão ou não despedidos, se sobem na carreira.
    O que eu estranho é que não houve a mobilização dos professores para esta questão que me parece fulcral. As manifestações, que são apenas demonstrações de descontentamento, não conduzem ao efectivo combate. Na hora em que é de facto preciso agir, isto é, quando o gesto na não entrega do referido documento constitui o passo seguinte da luta, a mobilização esvazia-se. É triste.

    (Um aparte. Não poderia de deixar de lhe dar os parabéns pela proença da sua equipa no passado domingo).

  2. Visit Venus diz:

    Eu no meu trabalho se rejeitar a avaliação que o meu patrão me faz sou despedido. Era exactamente o que deveria suceder ao Ricardo: ser despedido com justa causa. Ainda há-de chegar o dia em que os contribuintes ( leia-se patrões dos professores) detenham essa prerrogativa.

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Proponho mais: que se despeçam os mais de 50 mil professores que rejeitam esta avaliação. Melhor ainda: que se despeça os 140 mil professores e se arranjem novos professores.
      Leia o parecer do advogado Garcia Pereira: todo este processo de avaliaçao é um monstro de ilegalidades e de inconstitucionalidades.
      Não concorda comigo, Visit Venus? Ou deverei chamar-lhe sebastian? Ou Model 500? Ou Henry Miller? Ou papagajas? Ou antibalas? Ou Ou Chari Chari? Tantos nomes, Visit Venus, tantos nomes.

  3. Visit Venus diz:

    Que mal é que tem ter diversos alter-egos? Ricardo, diz-me o que te apoquenta. Sendo eu bom cristão garanto que estou aqui para te confortar. Apesar de não estares a cumprir bem as tuas funções como professor, eu, como bom patrão que sou, não quero que te falte nada.

    Ps: Esquece o Garcia Pereira.

  4. Jeronimo diz:

    “ALGUNS professores estão a entregar os objectivos” !! Em que mundo virtual é que você vive ?

  5. Antónimo diz:

    É por coisas deste calibre que acho que esta é uma guerra em que ninguém tem razão: «terá em atenção a aula assistida, a assiduidade e a participação nas actividades lectivas.» Cada um se mostra mais acrítico e insensato do que o anterior. Dos professores, aos sindicatos, passando pelo Ministério e pela ministra

    No fundo o que se propõe é que o avaliem por ter dado uma aula que preparou e combinou com os estudantes (foi assim sempre que tive professores estagiáros), por ter ido trabalhar (assiduidade) e participado nas reuniões de preparação e organização lá da escola (actividades lectivas).

    Como é que uma classe inteira, de dezenas de milhares de pessoas, maioritariamente licenciada, acha que documentos deste género podem ser uma alternativos a uma burrice apresentada pela ministra?

    Estudei no Técnico onde havia reuniões de Departamento, de comissões pedagógicas, de conselhos científicos, de projectos, de conselhos directivos, gerais de alunos, de associação de estudantes, de feitura de estatutos, de constituição de núcleos e associações, de questões financeiras e verbas, tudo preenchendo papelada, e onde os professores têm obrigações de gestão e onde mesmo assim fazem investigação e dão aulas.

    Parece que queixarem-se de burocracia, por terem de preencher uns papéis (aliás nem sabem com quê pois QUASE NINGUÉM, repito, QUASE NINGUÉM, leu circulares, portarias ou fosse o que fosse vindas do MInistério) ao longo do ano é pelo menos demonstrativo de algum nível de atrofiamento.

    Vamos a um caso: Conheço professores que nunca participaram em nenhuma das manifestações ou greves realizadas (alguns também o fizeram) e que são ameaçados pelos colegas por terem entregue os obejctivos estratégico. Nesse agrupamento, Os novos titulares (que aproveitaram a promoção, feita com regras absolutamente ínvias) já avisaram. Vais ver a avaliação que te calha (o que mostra bem que a proposta do Ministério é má, pois dá origem a vingancinhas).

    E enquanto se insiste numa luta tola (porque mal conduzida e com obejctivos absolutamente errados que se limitam a erodir a ministra), folgam os off-shores, a corrupção a crise e a oportunidade de mudar os paradigmas da sociedade e da economia.

  6. M. Abrantes diz:

    Confirmo que há colegas meus a entregarem os objectivos por terem medo. Dizem coisas como “Tenho uma filha para criar”. Admito que também haja pessoas a serem importunadas por entregarem os objectivos.

    É a este ponto que o ensino chegou: um nó, uma vergonha, um escarro nojento, uma ofensa. Era suposto os governos desfazerem nós e resolverem problemas. Este mostra-se incapaz. Deleita-se com a sua própria esquizofrenia. Cultiva a violência do autoritarismo e a ineficácia das suas propostas. Trai os jovens e o futuro. É uma fraude, um esbanjador da Nação e das suas energias. Era preciso, mais do que nunca, uma oposição esclarecida e firme. Onde é que ela pára?

  7. jlcr diz:

    Este RSP está a transformar este blogue num nojo. Ainda cá venho para me rir um pouco. Os bobos sempre me divertiram. E não precisa de me dizer que não precisa da minha leitura diária, porque eu farei o que bem me apetecer.

  8. LAM diz:

    Ricardo Santos Pinto, (isto é uma coisa que eu achava não ter de dizer a alguém passados quase 35 anos após o 25 de Abril): parabéns pela sua coragem e dos seus colegas. E pelo profissionalismo e lucidez com que encaram o desvario pegado desta ministra da educação e do 1º ministro que, para não perder o pé, lhe dá cobertura.

  9. José Paulino diz:

    Caro Ricardo Santos Pinto,
    Antes de falar sobre alguêm ou sobre supostas situações ocorridas em certos lugares, deveria aprofundar e verificar a realidade das informações que lhe chegam! A arfimação que efectua: “Do concelho de Resende, distrito de Viseu, têm-me chegado informações acerca das formas de pressão utilizadas sobre os professores. Tão abjectas que fariam corar Alberto João Jardim. O presidente da Câmara de Resende, convém dizê-lo, é um dos homens de mão de José Sócrates, como se pôde ver há algum tempo no «Prós e Prós».” é grave e se não tem algo que a suporte (pois não?), deve um pedido de desculpas público, não só ao Sr Eng António Borges como a Resende.

  10. José Paulino,

    Só hoje reparei neste comentário e peço desculpa pelo atraso na minha resposta. Não só não peço desculpas pelo que escrevi como reafirmo tudo. O Presidente da Câmara de Resende, ou alguém por ele, pressionou directamente professores para entregarem os seus Objectivos Individuais. Foi-me dito pelos próprios que, tal como eu, exercem funções sindicais.
    Já vivi em Resende e ainda hoje vivo bem perto, razão pela qual não me admira nada aquilo que me foi contado.

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