
Chegou a casa enregelado e cheio de peladas, com tiques esquisitos a denunciar ter recebido alguns pontapés da vida e outros de transeuntes menos caridosos. Veio com uma nota escrita por mão trémula: «por favor, tomem conta deste animal, que tão precisado anda de casa quente e sopinha morna».
Tratava-se de um rafeiro assim-assim, sem grande porte nem aparência de pedigree digno de menção. Mas era bicho simpático e sabia insinuar-se aos putativos donos, ronronando feito gato sempre que lhe convinha. E lá foi ficando, cheirando os cantos à casa, marcando território, sendo adoptado aos poucos.
O pior é que o raio do bicho tinha ânsias de leão, bem acima do que a sua catadura patusca lhe fadava: ser o lulu de um lar sisudo, carente de diversão. Não; o nosso canino herói queria mais. Primeiro, ainda tentou aprender habilidades, truques espantosos que angariassem elogios e festas. Mas para tanto não chegava a escassa mioleira. O que ele imaginava ser uma excelente cabriola parecia aos donos uma espécie de ataque epiléptico. As tentativas de marchar em duas patas acabavam sempre contra as arestas agudas e frágeis da cristaleira. Não adiantava: ninguém o levava a sério. Fatal, para quem já se fartara de ser lulu e ambicionava ser gente. Ou mais ainda.
Vai daí, optou pela raiva. Primeiro, desatou a morder as canelas às visitas. Depois, arriscou uma ou outra dentada aos artelhos dos donos. Funcionou: já reparavam na sua presença. Mas candidatava-se a um lugar no canil mais próximo, se persistisse na estratégia.
Valeu-lhe a erupção de um divórcio na casa. Ele soube logo aproveitar o cisma, procurando as boas graças da dona. Mansinho e ternurento na sua presença, agressivo e rosnento mal via o dono. Quando a senhora saiu de casa, ele foi dos primeiros bibelots a serem embalados. Ao desembarcar no novo lar, sentia-se rei do quintal, senhor das planícies de alcatifa, macho alfa do bairro.
O pior é que só tinham mudado as suas circunstâncias. Ele permanecia o mesmo cãozito medíocre, sem pilhéria nem tino. As gracinhas continuavam desastradas e o seu enorme destino via-se mais uma vez adiado. Hoje, o pobre lulu lá se arrasta, ainda privado de aplausos e atenções, triste e só no fundo da sua raiva contra o mundo que, diria ele, o condenou à mediania sem rasgo.
E que lhe resta agora? Muito pouco. Talvez apenas voltar a morder as mãos que em tempos lhe serviram ração da boa. À noite, lá se escapa ele do regaço da dona e é vê-lo a rondar a casa antiga, uivando maldições e insultos que só ele entende mas que por certo nunca andam longe da tradução mais óbvia: «reparem em mim, reparem em mim!»





arte-vida: fusão perfeita, aqui.
Pontapé certeiro, pena que o lulu raivoso vai continuar o ladrar desatinado, dá-me ideia que só se calará quando lhe encherem a boa com um osso para roer, e verdade se diga se os amigos da dona estão a roer a carne ao menos podiam dar um ossito ao animal.
o sol cai
a terra respira
o tordo canta
(sei que é pérolas para porcos mas eu tenho compaixão)
e isso de encher a boca, nao sei o que quiseste dizer não vá eu cruzar-me contigo nalgum beco escuro , tá fixe?
Triste, é muito triste é demasiado triste…
Desculpa, mas este texto é muito insultuoso.
Não gosto da forma como te referes aos cães.
Pois. Há que referir que o Luís, entretanto, tem (ainda tens, certo?) um bichano bem simpático. Muda totalmente a leitura deste texto.
Oh, pá, por essas e por outras é que nunca consegui entender como é que se usa o substantivo “cão” como insulto.
Touché.
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