Prefiro o NÃO claro de Jerónimo de Sousa ao SIM inconsequente de Louçã

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Saint-Just, por David

Nas lutas políticas e sociais decorrentes do processo revolucionário francês, sobretudo entre 1789 e 1794 (ano que marca o derrube dos jacobinos e em que Robespierre e Saint-Just foram guilhotinados, e aí terminariam todas as esperanças numa sociedade nova e justa), sentavam-se na ala esquerda do parlamento os «montagnards» (termo que se tornaria sinónimo de «jacobino»), que tinham uma visão igualitária e radical do mundo. Radicalidade que se media por uma necessidade activa de transformação da sociedade, inevitavelmente violenta; dizia com todo o acerto e inteligência, Robespierre: «citoyens, vouliez-vous une révolution sans révolution?». Como se sabe, a ala direita da Assembleia era moderada e condescendente com a monarquia (monarquia combatida com toda a inteligência e coragem superior por Saint-Just: «o que é um rei comparado com um francês?»).

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Assembleia Nacional, por David

Homens verdadeiramente de esquerda e de acção foram os maiores políticos do seu tempo: Robespierre, Saint-Just, Jacques-Louis David ou Marat. Este, médico, filósofo e jornaliata, foi assassinado no banho e imortalizado por David. De David, o pintor, não posso adiantar neste espaço muita coisa, senão remeter para um estudo indispensável de Norman Bryson, Tradition & Desire: From David to Delacroix; de Robespierre recomendo: Pour le Bonheur et la Liberté (Paris, 2000); por fim, Saint-Just, o meu orador preferido de longe (Oeuvres Complétes, Ivrea, 2003), e o que melhor definiu a imprescindível defesa violenta da liberdade: «temos respondido à luta com a luta; a liberdade saiu do seio das tempestades: esta sua origem é comum com o mundo, saído do caos, e com a do homem, que chrora ao nascer». Esta definição destrói por completo todas as ilusões pacifistas e sem fundamento de uma «esquerda débil» e mostra o que é lutar pela liberdade, mostra acima de tudo que lutar pela liberdade é mais do que lutar num «parlamento». Esta esquerda e esta história foi hoje esquecida e transformada nun cliché mítico sem significado, por isso eu próprio tenho dificuldade em usar tal palavra, tão esvaziada que foi por figurões que dela se reivindicam (e PORQUÊ??) como A Vitorino, Armando Vara, Jorge Coelho, J Sócrates, José Lello e Edite Estrela. Tal uso, hoje, dá razão a Badiou que chegou a dizer que nunca a esquerda foi tão estúpida como actualmente. Por fim, chegamos à Convenção do Bloco de Esquerda, e à defesa por Louçã de uma «esquerda grande». Provarei a insignificância desta ideia.

É óbvio que este termo «esquerda grande» não quer dizer absolutamente nada para a esquerda que se identifica na história que contei, no igualitarismo do Manifesto do Partido Comunista de 1848 e na última Tese sobre Feuerbach, onde Marx diz ser imperioso «transformar o mundo». A esquerda é isto ou não é nada.
Louçã, que já elogiei por segurar o Bloco de uma deriva social-democratizante (ou de um despejar de votos no Partido dito Socialista), continua vago, muito vago, e a sua «esquerda grande» não tem ponta por onde se lhe pegue. Vejo nela, secretamente um único objectivo: fazer com que o Bloco cresça e cresça o mais possível – o objectivo destes slogans do Bloco são pois apenas egoístas. Louçã não é claro quanto ao papel do PCP, porque apenas pretende nivelar-se em número de votos com o PCP e ultrapassá-lo se possível. Nada mostra querer em ternos de convergências reais e efectivas, pois juntar o fantasma de Alegre (que parece não pretender abandonar o Partido dito Sicialista), alguns independentes e os «renovadores comunistas» não tem significado nenhum em termos de alternativa política e de poder governamental. Isso daria, quando muito uns 15% de votos, nada, absolutamente nada mais. Como o que aqui se pretende é esvaziar o mais possível o PCP, eu sou forçado a perceber o «não» deste partido às ideias vagas e aos clichés do Bloco, logo prefiro o NÃO de Jerónimo de Sousa ao SIM inconsequente de Francisco Louçã.

No final da Convenção do Bloco, essa enorme e gigantesca figura do pensamento e acção política em Portugal de nome Edite Estrela disse que a «esquerda grande já existia: era o PS». Não se esperaria outra coisa de personagem politicamente tão profunda. De qualquer modo, indirectamente, ela deu o mote: todos sabemos que a convergência à esquerda tem de contar com toda a gente MENOS COM O PS, precisamente o contrário da tese «Estrela». Porque o PS é o partido mais reacccionário do espectro político português, e até o que se situa mais à direita. Por uma razão: foi o PS o criador desse cancro da política portuguesa que é o CENTRÃO, em primeiro lugar; em segundo lugar, foi o PS e Mário Soares que tornaram enraizada a ideia que governar à esquerda e com ligações entre os partidos que se reclamam desse espaço é uma IMPOSSIBILIDADE NATURAL! Logo, o PS edificou um conservadorismo sem paralelo na sociedade portuguesa. O PS sempre se aliou ao PSD e ao CDS, o que J Sócrates se prepara para fazer de novo (desta feta, com Paulo Portas). Ora, como o PS é o grande inimigo, ou o maior inimigo da esquerda portuguesa, só uma coisa é pertinente acontecer: alguém no PS deve liderar uma ala dissidente e trazer consigo 10% a 20% dos sócios ou eleitores dessa nefasta «associação». Tornando o PS de preferência irrelevante. Depois a partir daí, poder-se-ia iniciar uma conversa.
De resto, o Partido Comunista Português deve resistir a discursos vagos e projectos infantis e quase sem sentido, que só pretendem prejudicá-lo. Mas, estrategicamente forte, o PCP não se deixará levar por miragens inconsequentes. Assim o espero.

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