Por falar em convergência de esquerda

Todos parecem falar em convergências quando se preparam para divergir a grande velocidade. As bandeirinhas falam mais alto do que as necessidades políticas. É preciso perceber que uma grande coligação eleitoral entre Bloco, PCP, alegristas , outros sectores de esquerda do PS e independentes não significa que não se mantenham profundas diferenças. Apenas significa que a grande divisão eleitoral se faz entre aqueles que querem gerir este sistema, tal como ele está, e um conjunto de forças que aposta numa política social e numa aposta no sector público que faça a diferença no combate às desigualdades e à total desregulamentação do neoliberalismo selvagem – este deve ser um programa mínimo da unidade das esquerdas.
A ideologia não se esgota nas eleições. Nem as urnas encerram toda a política. Esta coligação apenas significa a negação da política do quanto pior melhor, e a afirmação da necessidade de uma alternativa de esquerda que ambicione mudar o poder e a governação num determinado sentido: é preciso ter a ambição de melhorar a vida das pessoas no presente.
Todas as coisas que se ouvem falar aos dirigentes do PCP e do Bloco não se inscrevem nesse objectivo de criar um polo eleitoral com a ambição de ganhar, mas apenas criar pequenas vantagens eleitorais, com a suprema ambição de derrotar as forças de esquerda mais perto de si. Sempre que o Bloco fala de convergência, quer todas as convergências para o Bloco derrotar o PCP. Jerónimo Sousa faz o mesmo, com a agravante que o PCP ainda não percebeu que a CDU não é convergência nenhuma. Coligar significa trabalhar com gente livre que pense diferente, não com funcionários do partido travestidos de ecologistas, que depois de uma comissão de serviço, voltam ao partido.
O BE e o PCP podem crescer eleitoralmente sem que nada de diferente aconteça. E sem sequer merecerem. A única diferença que pode acontecer é se vai aparecer eleitoralmente, saindo do PS pela esquerda, uma força política que queira criar essa diferença, e que com a sua existência possa abrir o caminho a uma convergência das esquerdas. O mundo não acaba nas próximas eleições. Se for possível conseguir que a esquerda do PS vire as costas ao partido dos tachos, dos interesses nebulosos com o sector privado e de, como dizia o ministro Santos Silva, da “governança”, já se conseguirá algo de estratégico para a renovação da esquerda.

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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19 respostas a Por falar em convergência de esquerda

  1. Miguel diz:

    Excelente artigo. É uma pena que os nossos dirigentes de esquerda não estejam à altura do momento histórico que se vive. Todos eles sabem que o método de Hondt é dizimador. Se se fizesse uma COLIGAÇÃO DE ESQUERDA (o nome podia ser este) havia todas as hipóteses de se vencer as próximas eleições.
    Precisamos de insistir nesta ideia e fazer com que haja alguém que abra a sua mente a esta luz.
    É um momento de tomar decisões importantes e quebrar com esta rotina de governantes gastos. O povo português merece que lhe dêem esta alternativa. Seria mobilizadora para todas e uma forma de fazer despertar para a política muita gente que está saturada da situação que se vive.
    Parabéns pelo alerta.
    Continua!
    Temos de conseguir.

  2. Ouvi alguém dizer isto: “um relógio parado está certo duas vezes por dia”. Hoje foi a hora do BE, amanhã já vão passar cinco minutos.
    http://aoutravarinhamagica.blogspot.com/2009/02/falta-de-etica-e-igual-crime.html

  3. A direita ainda pode vencer a semana: o pacote contra a crise está em equilíbrio periclitante até Sexta.
    http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/02/fragilidade-do-acordo-de-sexta-o.html

  4. Ana Paula diz:

    Nuno,
    Fiz link para este texto em “A Nossa Candeia”.

  5. Ipy-Ipy-urrrrrrrrrrrrrrrrrrrrA! Sexo-Trabalho trabalho-Sexo donos dos Patrões . Patrões proibidos pelos Donos de despedirem os Trabalhadores do sexo. Sexo-Procriativo Voluntário, desculpem trabalho-sexo/ Sexo-Trabalho. Coelhos Y Notas. Notas infecundas, estéreis … coelhos procriativos … F-se!
    Que o Augusto Santos Silva comece Y já a malhar nestes Alegreiros de mente decadente y desavergonhada.

  6. “Sim. Estamos Aqui.” Vai lá ASS! Chega-lhes! Com a roupa ao pelo. Uma bela coça é o que merecem, mais as suas tonterias de cordel.

  7. Nuno, o teu trabalho é fixe. Mas não gramo o BE. Sorrrry 😉
    ( N é pessoal. Vale.)

  8. Y sou alégica ao Alegre. Coisa menor. Já agora: a Felicidade, Não?

  9. z diz:

    concordo com a tua opinião e acrescento que o Socrates se fôr inteligente, e é, vira consequentemente à esquerda, é a única maneira de salvar os laços fiduciários e emparedar as ratazanas. Só não concordo é com o adjectivo ‘selvagem’, na selva, a sylva, a floresta, as coisas são equilibradas, não há violência gratuita. Isto foi o neoliberalismo do eucaliptal: máxima produtividade em biomassa no mínimo prazo e estourar com o ecossistema é uma externalidade.

  10. Luis Moreira diz:

    Para o PCP “convergência” é uma de duas coisas:” Abraço de urso” se tiver que repartir poder ; ou manda só e controla sózinho.Quem acredita que o PCP entra numa convergência de esquerda não conhece as divergências insanáveis que o afastam das outras forças de esquerda!

  11. antónimo diz:

    adoro mesmo é os comentários sobre o pcp isto o pcp aquilo mailos abraços de urso. dá a impressão que nunca estiveram nos melhores executivos camarários que lisboa já teve. São dos mesmos que dão crédito às conversas dos demissionários autarcas de sines, mas não colocam no mesmo patamar de liberdade as conversas dos edmundos pedros e dos henriques netos.

  12. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Luís Moreira,
    Deixe-me dizer que conheço o PCP muito melhor do que você. Fui militante do partido durante muitos anos. Acho que isso nem sempre foi assim, mas mesmo que fosse podia ser alterado. Fazer algo de novo implica que todos abandonem velhas práticas.

  13. Nuno Ramos de Almeida diz:

    antónimo,
    Por acaso, trabalhei em Sines e conheço muito bem a Câmara. Não gostei da intervenção do Manuel Coelho, mas ele tem toda a razão sobre o comportamento lamentável dos dirigentes do PCP em relação à câmara e é um excelente autarca. O único tipo da vereação que votou com o PC contra o resto da vereação, pelo contrário, tem muita coisa a justificar.

  14. Carlos Vidal diz:

    Porque é que o/a De Puta Madre não vai também mostrar o seu amor pelo ASS (cu, em português) no Jugular, Hoje há conquilhas, País Relativo, Canhoto ? Eu sei porquê.

  15. antónimo diz:

    Nuno Ramos de Almeida, Acredito que o autarca tenha razões de queixa. Tenho muitos amigos do PCP, gente com quem se fala e discute, mas já me cruzei com certos meios do PCP de não gostei nada -nomeadamente ligados a estratosferas dos estudantes do Ensino Superior, surdos e autistas. Mas o que de mal se lá passa existe noutros partidos (parece-me que o BE será excepção, mas tb tem os seus mecanismos contados por outros amigos). Só o PCP dá origem a certo tipo de comentários. As limitações aos autarcas, do género das de Sines, existem noutros partidos (ninguém gosta que se ponha a brilhar outras cores, pmS e prS) mas nunca ninguém lhes dá este tipo de seguimento. Na comunicação social, a Luísa Mesquita sempre foi ortodoxa, o Victor Dias também. Até ao dia em que uma não aceitou sair da AR e o outro deixou o Comité Central. Basta ler alguns dos habituais seguidores do partido nos jornais de referência.
    Coisas. Na maioria das vezes as críticas são por uma coisa ao lado. pelo que se diz que são e não por aquilo que de facto são. e as peças jornalísticas folclóricas. Ora, nem o PCP dirigiu alguma vez uma ditadura (embora defenda algumas, como fazem aliás o PS, o PSD e o CDS), nem é minimamente resposbável pelo molho de bróculos de corrupção e crise em que estamos metidos (o mesmo se não pode dizer do PS, PSD e CDS).

  16. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Antónimo,
    Estou de acordo com a maioria das coisas que diz.

  17. LAM diz:

    Nuno Ramos de Almeida,
    parabéns pela lucidez da sua posta. É pena que não haja essa lucidez nos dirigentes quer do PCP, quer do Bloco quer de quem se lhes possa juntar.

  18. Luis Moreira diz:

    Eu sei que sim, mas não vejo que o PCP esteja disposto a essa convergência.Tem medo das experiências dos outros partidos comunistas europeus que aceitaram partilhar a governação e desapareceram,nas águas paradas da social-democracia.E ,pelo que verifico nas conversas que tenho com amigos meus militantes, a posição não mudou.

  19. Luis Moreira diz:

    Nas câmaras acredito que sim,embora casos como o do Manuel Coelho demonstrem bem o que estou a dizer. E o percurso de vida e político do Manuel Coelho devia ser um orgulho para o PCP e nem isso o safou, do triturador centralismo democrático.

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