Crónicas de Londres

Crónicas de Londres

A Educação à laia de National Geographic


“Mind the gap!”

voz automática nas estações londrinas

Há alguns anos atrás, andava eu a passarinhar num jardim do Porto e apeteceu-me beber água. Ao longe vi um repuxo e para lá me dirigi. Ao chegar perto do dito cujo reparei, com grande consternação, que este estava escaqueirado e sem água. Uma simpática idosa disse-me assim, com pronúncia portuense (que adoro!):

–         Olhe “meneina”, esta canalhada brava parte tudo! “Nõe” têm “inducaçon” nenhuma!!

E ela estava certa. Por Londres também a “canalhada brava” pulula por todo o lado. É vê-los nos transportes públicos, nas ruas e sobretudo nas escolas públicas… Mal educados, analfabetos e sem piada nenhuma, a regurgitarem resmas de palavrões e imbecilidades. E as miúdas são muito piores do que os rapazes. Muitos professores britânicos estão com depressões e esgotamentos nervosos por terem de os aturar.

Tal como em Portugal ou França ou, em qualquer outra parte do mundo ocidental, as escolas públicas inglesas transformaram-se, ao longo dos anos, em contentores públicos por vontade e determinação das classes dirigentes políticas. Professores e contínuos (é mais politicamente correcto dizer “auxiliares educativos”, mas não me apetece ser politicamente correcta!) são os bobos da festa, os bodes expiatórios, as baby-sitter de serviço, os sacos de murros sociais, tanto no Reino Unido como em Portugal.

Toda a gente põe as culpas na Sra. Ministra Maria de Lurdes Rodrigues, porém ela não é melhor nem pior que as suas / os seus colegas ministros da Educação de qualquer país. Ela limita-se a ser borucrata e tecnocrata como os outros. No final de contas, a Sra. Ministra é uma entidade patronal que tentará sempre que os seus subalternos trabalhem até ao esgotamento, tal como numa grande empresa. Está nas mãos dos trabalhadores e sindicatos lutar contra este estado de coisas. Em suma, é o eterno jogo do gato e do rato.

Grave, grave, são alguns conselhos executivos que gostam de ser mais papistas do que o papa (salvo seja!); são os maus colegas e contínuos que vão contar tudo aos conselhos executivos o que vêem e ouvem nas salas de professores; graves, graves são os maus progenitores que se demitiram da tarefa de educadores e se o professor na aula chama à atenção determinado aluno, o “paizinho” ou a “mãezinha” vão à escola dar “um-enxurro-de- pancada-no-estupor-do-professor-que-se-atreveu-a traumatizar-o-filhinho.”

Agora vem a parte “National Geographic” londrina…

Estava eu posta em sossego, entre duas prateleiras de detergentes do supermercado (sim, os intelectuais também vão às compras!) colhendo o doce Tide da minha existência quando eis que vejo uma criatura de três anos, mais coisa menos coisa, muito atarefada a esburacar umas sacas de detergente em pó.

Placidamente, como bói para palácio, o progenitor olhava para o seu crio enquanto escarafunchava o nariz. Feita parva, disse-lhe que tomasse conta do filho pois estava a danificar um bem comum. A “simpática e cívica ” resposta que obtive foi:

–         Fuck off!!!

Segundo os meus “house-mates,” tive muita sorte não ter sido esfaqueada. Eles, que até são inglesíssimos dos quatro costados, também se revoltam com o vandalismo e a má educação mas têm medo das facas longas…

Também é muito normal, as progenitoras embevecidas deixarem os criozitos berrar que nem vitelos desmamados em locais públicos, por exemplo autocarros, até os nossos tímpanos rebentarem; é normal ver adultos nas lojas deixarem cair objectos no chão e não se dignarem apanhá-los; é normal ver adultos deixarem a lixarada nos transportes, de tal forma que há uma gravação ridícula que diz o seguinte:

–         Please, take your litter with you!

De facto, há um imenso “gap” na educação e no civismo de muitos adultos e que se reflecte no comportamento de infantes, adolescentes e jovens adultos. Como é que estes últimos podem ser limpos, educados, cultos e com sentido de humor se muitas famílias são, como sói dizer agora, disfuncionais?!

Quando eu era uma fedelhazita e fazia asneira grossa ou tinha más notas na escola, a minha mãe tinha um método audio-visual fantástico. Este consistia num chinelo no ar, numa cara feia e numas quantas palavras desagradáveis. Como já havia experimentado esta pedagogia de umas “nalgadas bem assentes”, eu entrava logo nos eixos. E como eu, muita gente foi assim educada. Depois vieram as tretas pedagógicas francesas e americanas e da conchichina a profetizarem traumatismos e outras maleitas psicológicas que terminaram com a pedagogia do bom senso.

Resultado, hoje em dia só se vê os extremos – ou os miúdos são estragados com mimo até ao enjoo ou, os miúdos são maltratados até à morte. É isto que vejo todos os dias em Londres. Noticias como o sofrimento atroz do pobre Baby P tornaram-se comuns. Raramente vejo crianças calmas e engraçadas e os respectivos pais doces mas firmes no que diz respeito a regras básicas de convivência. Desconfio que estes são humanos em extinção.

Quanto à educação académica, aquilo que os britânicos designam por “Education”, ela anda pela rua da amargura. Não é por falta de ensino na escola, é sim graças às cabecitas de alho chocho que meteram na cachimónia que o futuro reside no programa X Factor, numa passerelle de moda ou num relvado de futebol. A crónica já vai longa e assim termino este documentário com um saboroso diálogo que registei na minha memória, entre um velhote catita, de longa barba branca, e um adolescente,.

O “pito”:        – Yeah…yeah, Everest in the Alpes…

O velhote:       –  Everest isn’t in the Alpes!!  (depois começou a dizer algo em tibetano ou nepalês, uma espécie de “mantra” ou poesia com um ar muito chateado e que só consegui perceber “chumba…lumba”).

O “pito” gaguejou aflito.

O velhote indignado:    – Haven’t you learnt these things in school, for God’s sake?????!

Aprender, aprendeu, só que na aula de Geografia onde devia estar estava a pensar na morte da bezerra ou nas chuteiras de Cristiano Ronaldo.

Good bite!

Londres, 6 de Fevereiro de 2009

Ondina

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5 respostas a Crónicas de Londres

  1. Muito bom o texto.
    Do Reino Unido a Portugal, assistimos a um regressão das regras de civilidade porq

  2. Muito interessante o seu texto.
    Do Reino Unido a Portugal, a mesma regressão das regras de civilidade por força desta sociedade do espectáculo que tudo submete ao primado de um consumo embrutecedor, e que infantiliza, em primeiro lugar, os adultos, mesmo os que desempenham cargos públicos.
    As criancinhas acabam por ser vítimas, pois receio bem que estejamos a contribuir para a sua infelicidade futura, quando chegarem à idade adulta (não vão conseguir lidar com as contrariedades, com o facto de a vida não se submeter ao nosso desejo).

  3. Óptimo texto…
    Muito bem escrito.
    Adorei.

    JM

  4. Catarina diz:

    Como parece que, a partir do próximo ano, os papás querem os meninos na escola das 8 da matina às 8 da noite, talvez os profes lhes consigam ensinar as regras básicas da civilidade. Isto se os papás não riscarem na escola…

  5. Carlos Vidal diz:

    O texto fez-me lembrar uma peça irresístivel. Vou dar o título em português, pois já a vi representada (uma das melhores coisas da Comuna): de Roger Vitrac, um precursor do surrealismo, «Victor ou as Crianças ao Poder».
    Um abraço caríssima.
    CV

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