A força doce

Em Manufacturing Consent, obra já com duas décadas, Noam Chomsky e Edward S. Herman focaram o papel dos mass media como motor de um poderoso sistema de estabelecimento de consensos, sempre a mando das elites e do poder político-económico. O último capítulo desta obra evoca a repressão sofrida pelo povo de Timor-Leste às mãos do invasor indonésio, comparando a sua visibilidade nos media americanos com a denúncia, por parte de comentadores de direita, de um suposto silenciamento dos massacres cometidos pelo regime de Pol Pot no Cambodja.
Tendo estes dois eventos sido contemporâneos, ofereceram, através do seu reflexo nas parangonas dos jornais e nos alinhamentos dos noticiários, uma precisa balança com que aquilatar a distorções induzidas por interesses políticos e de Estado na cobertura informativa servida aos cidadãos americanos. Enquanto que os crimes dos Khmers vermelhos eram (de facto) amplamente noticiados, glosados e comentados nas principais cadeias televisivas dos EUA, as atrocidades indonésias (cometidas com o apoio activo, da diplomacia e da máquina militar americanas) mantiveram-se longe da vista e da percepção pública daquele país. As atrocidades do regime comunista eram servidas ao domicílio como um conto exemplar das perversidades e desvarios do adversário – e uma brutal ocupação levada a cabo por um país aliado era de facto silenciada e ocultada.
Para Chomsky e Herman, esta é uma prova definitiva do «desígnio societal» dos media quando abordam temas que são de importância fulcral para o «poder estabelecido»: não contribuir para que o público possa entender e influenciar processos políticos mas sim tratar de «evitar qualquer perigo que tal ocorra».

No entanto, esta flagrante demonstração de parcialidade e de sonegação de informação não obedeceu a ordens do poder, como ocorreria numa ditadura. De forma espontânea e voluntária, os media «gravitavam naturalmente» para essa dualidade de critérios, inteiramente utilitária para a política então seguida pela diplomacia americana. A primeira vítima foi a esfera pública naquele país; a  arena onde as decisões e opiniões informadas se deveriam confrontar e sedimentar. Ao impedir o acesso à opinião pública a todo um conjunto de factos e de opções diplomáticas, os media serviram para impedir a participação dos cidadãos na definição dessas políticas, fomentando a ignorância e neutralizando a contestação. Em resumo, «nestes casos, como em muitos outros, o público foi gerido e mobilizado de cima, através das extremamente selectivas mensagens e evasões dos media». Mas sempre sem a intervenção planeada e actuante de um plano implementado à força – as elites a quem interessa a produção de semelhantes consensos não necessitam sequer de intervir no processo.
Ao fim e ao cabo, trata-se de um regresso ao aviso que Foucault nos deixou há já quase 40 anos: «os nossos olhos só vêem uma verdade que é riqueza, fecundidade, força doce e insidiosamente universal. E, ao invés, não vemos a vontade de verdade enquanto prodigiosa maquinaria destinada a excluir.»
Aceitamos uma tal conquista porque ela não surge como imposta de fora mas sim como processo natural, emanando da nosso próprio entendimento do mundo. Se a Indonésia era dos “nossos” e Pol Pot um “inimigo”, nada mais pacífico e consensual do que reforçar a ordem normal das coisas, atribuindo a este todas as perfídias e ocultando todos os desmandos dos primeiros.
O cidadão fica reconfortado nas suas certezas, o poder mais tranquilo nas suas decisões e os próprios media mais conformes à natureza percebida da ordem das coisas. E são por isso recompensados de forma automática; agradar às audiências é sempre a melhor forma de garantir a sua fidelidade.

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3 respostas a A força doce

  1. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Vem isto a propósito de?
    Que se passa em Portugal?
    É o caso Freeport?
    A resposta é 50/50?
    Será por isso que os Republicanos (EUA) ainda não se aperceberam da derrota?

  2. Paula Telo Alves diz:

    Isto vem sempre a propósito.

  3. Luis Rainha diz:

    Talvez mais 60/40
    🙂

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