A Morgada de V. e eu

Caros leitores do 5dias, caros colegas de blogue,

Tenho uma confissão a fazer-lhes, e melhor será fazê-la já: eu não existo. Lembrar-se-ão talvez que escrevi aqui dois posts, tendo um deles (um apócrifo de um blogger que é bom demais para ser verdade) causado algum sururu e merecido quase tantos comentários como os ataques do Carlos Vidal ao jugular; não prejudica o que acabo de lhes dizer. Se escrevi esses posts, ou alguém os escreveu por mim, foi a pedido da outra, a morgada de V. Foi ela quem me ditou os textos e me pediu que os publicasse neste blogue, com instruções para que nunca revelasse o nosso acordo e muitos avisos para pôr as vírgulas nos sítios certos.

Habitualmente sou fiel à palavra dada, tanto quanto pode alguém sem existência ter hábitos ou ser fiel seja ao que for. Uma tormentosa questão se sobrepõe porém às razões da lealdade. É que a minha apócrifa existência, além de não me permitir frequentar os jantares de bloggers para os quais sou regularmente convidada, tem sido um peso para mim, fonte de culpas e terrores. E se os leitores descobrem a artimanha? E se os colegas de blogue me descobrem a careca, com esses instrumentos de detecção de Raquéis & seus alter-egos de que se serve o Comité do Povo do Cinco Dias? Uns e outros não poderão nesse caso, desvendada a fabricação, passar a duvidar da existência real do 5dias (o que não deixará de prejudicar a sua ascensão no blogómetro)? Acredito que o solipsismo é um vírus, e dos mais contagiosos: começa-se por uma blogger apócrifa e não tarda nada temos filas e filas de comentadores a abjurar do mundo, e a seguir deles próprios, “eu, anónimo me confesso, não existo”. Uma tal epidemia causaria inevitavelmente o fim da blogosfera – e com ela, contra o que acredita o Pacheco Pereira, o fim da liberdade de expressão, da democracia e da principal ocupação nas horas de expediente.

Foi por isso que hoje, decidida a evitar essa crise metafísica de vastas consequências para a humanidade, quis contar-lhes toda a história. Sei que não tenho o direito de lhes pedir nada, mas para prevenir surtos de solipsistas* nas caixas de comentários e o suicídio de alguns admiradores, ficar-lhes-ia muito grata se não revelassem ao mundo que sabem que a Morgada de V., ou a Morgada de V. & eu, não existimos. It shall be our little secret.

Creiam-me vossa inexistente amiga,
Morgada de V.

P.S. Não sei qual de nós escreveu este post.

*  Apêndice à atenção de alguns anónimos que fizeram gazeta às aulas de Filosofia (vocês sabem quem são): solipsismo (do latim “solu”, “só” + “ipse”, “mesmo”, + “ismo”.) é a crença filosófica segundo a qual, além de nós, só existem as ideias na nossa mente. Não experimentem isto em casa. 

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11 Responses to A Morgada de V. e eu

  1. Normal, afinal neste mundo blogosférico que é que existe?

  2. ezequiel diz:

    LOL

    🙂

  3. Morgada inexistente,
    Isso dos jantares deve ser uma boca a blogues como o corta-fitas, célebre pelos seus muitos jantares e menos textos. A gente aqui só vai tentando escrever. O proletariado não janta, muito menos com morgadas. Como diria o Mao, numa das suas duas frases citadas no Readers Digest, “a revolução não é um piquenique” (a outra é sobre flores).
    Cara Morgada, a sua situação metafísica é pouco relevante, desde continuemos a poder ler os seus textos, com imenso prazer. Ao limite, o pior que nos pode acontecer, é descobrir que, afinal, você é parecida com o António Figueira, mas com menos patilhas.

  4. Morgada de V. diz:

    Caro chefe Nuno,

    Muito sensibilizada com a sua tolerância para com a minha embaraçosa situação ontológica e o meu imaterialismo dialéctico. Continuarei, apesar de não existir, a aparecer por aqui de vez em quando, não vá alguém mais dogmático marcar-me falta. Uma coisa urge porém esclarecer: não tenho quaisquer patilhas, e em comum com o António Figueira (bom rapaz apesar de sportinguista, sulista e reaccionário) apenas o facto de ambos termos dificuldade em existir entre o meio-dia e as quatro.

  5. F-se! Vai lá rever o conceito de solipsismo… Mais valia nem usares o termo.

  6. LAM diz:

    …pois, também me parece. E eu que sou um gajo esquecido.

  7. Maria Velho diz:

    Morgadinha, morgadinha! esse V. é tão, digamos, revelador!
    Mas continue, continue. A realidade será sempre mais surpreendente do que qualquer(sua) ficção!

  8. Pingback: cinco dias » Let’s have a fucking look at you

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