Um par de monóculos com arestas demasiado cortantes

No tempo em que o qualificativo “reaccionário” não era ainda um insulto e podia ser reivindicado como uma escolha legítima – antes da hegemonia do progressismo, no pós-guerra – dois pensadores que assim se assumiam destacavam-se em Portugal entre os demais: António Sardinha (1887-1925) e Alfredo Pimenta (1882-1950). Embora ambos tenham estado à frente de correntes político-intelectuais que lhes votaram um verdadeiro culto (que, no caso de Sardinha, se aproximou da “divinização”), a sua influência, na história portuguesa da primeira metade do século XX, foi desigual, até porque se muito os aproximava, também muito os distinguia.

Antes de mais, Sardinha e Pimenta tinham em comum um estilo: além do uso de um altivo monóculo, o gosto por uma certa política do gesto, que fazia deles “coleccionadores de inimigos”, e o hábito da polémica à antiga portuguesa, truculenta, tantas vezes brutal. De Sardinha, sem dúvida um “exaltado”, disse-se que tinha “arestas demasiado cortantes” e Pimenta, com outra gravitas mas ainda assim autor de enorme violência verbal, reconhecia em si um “hipersensível” que “qualquer bico de alfinete” magoava.

Depois, são ambos trânsfugas da República para o catolicismo e para a Monarquia, que identificam os dois com a Monarquia anti-liberal e ante-liberal – embora seja razoável afirmar que, mesmo enquanto republicanos (a “conversão” de Sardinha dá-se logo em 1912 e a de Pimenta em 1915), eram partidários de um regime de “ordem” que já prenunciava as suas opções futuras. Enfim, ambos elegem a revisão da história de Portugal, num sentido contra-revolucionário, como forma de afirmação do seu ideário político – pretensão mais conseguida por Pimenta, erudito, director da Torre do Tombo no fim da vida e autor do livro de história por que estudaram várias gerações de estudantes de liceu, do que por Sardinha, académico falhado, “pensador impressionista”, “brilhante, muitas vezes, mas nunca profundo”.

Separados, António Sardinha e Alfredo Pimenta estavam-no sobretudo por um rei que não existia: tanto pela sua pessoa (Sardinha nunca escondeu a sua aversão a D. Manuel II e, à cabeça do “Integralismo Lusitano”, passou a apoiar, a partir de 1919, as pretensões do ramo miguelista dos Braganças, enquanto Pimenta e a sua “Acção Realista” se mantiveram sempre fiéis ao último rei de Portugal) como, mais ainda, pela forma de restaurar o seu trono. Com efeito, enquanto Sardinha e os integralistas se envolveram nas tentativas insurreccionais da Monarquia do Norte e de Monsanto, Pimenta sustentou pelo contrário uma posição ordeira, que explica em boa parte o seu salazarismo, pois, como escreveu um dia a Salazar, “a Monarquia só V.Exa a pode dar”: era a tese da “revolução legal” contra a da “Monarquia pela conquista”.

A morte sem herdeiros de D. Manuel II em 1932 juntou em torno de D. Duarte Nuno a Acção Realista e o remanescente do Integralismo, mas acabou realisticamente com as hipóteses da restauração monárquica: Alfredo Pimenta continuará a defendê-la no que lhe sobra de vida, mas reconhece, numa carta a Salazar de 1936, que, morto D. Manuel, “a instauração da Monarquia é hoje um problema distante”; quanto a António Sardinha, quando morre em 1925, já está noutro ponto do seu curto mas sinuoso percurso intelectual (que antecipa a errática conduta política dos últimos integralistas, alguns dos quais passam da extrema-direita para a Oposição democrática) e a própria questão do regime parece-lhe então menos clara do que anteriormente: “Monarquia? República? Oh, a balbúrdia ignóbil dos mitos que nada exprimem!” Como escreveu Alfredo Pimenta, “António Sardinha morreu a tempo”, pois não custa crer que, vivesse ele mais uns anos, e o choque com Salazar seria inevitável.

Um feliz acaso editorial permitiu que, em pouco mais de dois anos, os leitores passassem a dispor de um importante conjunto de novas obras, relativas aos dois maiores vultos do pensamento político reaccionário português do século que findou – se excluirmos Salazar, bem entendido, na medida em que também foi um doutrinador. De Alfredo Pimenta, a Verbo publicou a correspondência com Salazar (1931-1950): a obra vem precedida de um prefácio de Manuel Braga da Cruz que fornece um síntese sóbria do ideário de Pimenta, mas faltam-lhe notas que enquadrem historicamente os acontecimentos e personalidades referidos nas cartas. Quanto a António Sardinha, o I.C.S. publicou uma estimulante biografia intelectual, da autoria de Ana Isabel Sardinha Desvignes, que também editou, sob a chancela da Universidade Católica Editora, a Correspondência de António Sardinha (1910-1912), um conjunto de cartas dirigidas àquela que viria a ser a sua mulher e que constitui, para além de uma vívida reportagem pessoal dos dois primeiros anos da República, um curiosíssimo trabalho de “arqueologia histórica”, que, nas palavras de Rui Ramos, que assina o prefácio, ilustra de modo notável o “doloroso processo de conversão ideológica” de Sardinha.

(publicado na edição de Fevereiro da “Ler”)

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SEXTA | António Figueira
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2 respostas a Um par de monóculos com arestas demasiado cortantes

  1. Morgada de V. diz:

    Parabéns pelo seu artigo na Ler. Dou a mão à palmatória numa antiga discussão: os seus 5001 caracteres dão melhor artigo que 5276.

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