Política de Sarjeta

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Ainda não era suposto personagens como J Sócrates e Augusto Santos Silva virem a habitar este mundo, já Edmundo Pedro participava, adolescente, em actividades contra o regime de Salazar. Em meados dos anos 30, Edmundo Pedro conspirava nas juventudes comunistas, agitador nato e lutador pelos seus ideais de liberdade solidária. Tão perigoso para o regime que foi uma das figuras da oposição que «inaugurou», em 1936, o campo de concentração fascista do Tarrafal. Por lá ficou encarcerado, submetido à «frigideira», tentou fugas e foi libertado no final da II Guerra. Ao que consta, as suas tentativas de fuga não foram coordenadas com o Partido, o que levou Edmundo Pedro a ser repreendido, coisa que não gostou e o fez sair do PCP. Não sei detalhes desta desavença, mas a Edmundo Pedro todos respeitam como um dos nomes marcantes do antifascismo do Portugal do século XX e o último, julgo eu, tarrafalista vivo, e ainda por cima activo na política.
Aderiu ao Partido Socialista em 1974. Hoje tem 89 anos. Ontém o «Público» noticiava uma sua participação numa sessão de «debate» do PS sobre o próximo Congresso dessa associação que, como eu gosto de dizer (prazer meu, não interessa), usurpa desde sempre o nome «socialista». Edmundo Pedro queixou-se de uma ausência no PS de qualquer discussão teórica e de ideias, como se isso fosse possível no partido-estado, no partido que melhor serve e sempre serviu os interesses financeiros mais despudorados. Como se isso fosse possível no partido de Pina Moura, Armando Vara, J Coelho e A Vitorino!
Um partido onde ninguém hoje deve saber nada da história da palavra socialismo nem tão-pouco social-democracia. J Sócrates, ele próprio, não deve saber muito a direito, ou nada mesmo, sobre o Tarrafal, por exemplo (eu pelo menos não creio que saiba nada do assunto, e tenho todas as razões para pensar isso).
Admirado, disse Edmundo Pedro que deveria ser o único na sala a querer discutir as questões de «governança» interna e de outras «escalas». Mal sabia Edmundo Pedro quem tinha pela frente, na mesa do «debate»: Augusto Santos Silva, o teórico da sarjeta, ou do jornalismo-sarjeta se se preferir. Sem respeito nenhum por quem tinha à sua frente, nem pela pessoa nem pela idade, nem pela história, utilizou as palavras de Edmundo Pedro para dizer (vimos na TVI – Jornal das 20h) que não estava agendada aquela reunião para discutir questões de «governança» nem uma autoflagelação do partido. Depois passou para a sua frase já aqui glosada – que gostava era de malhar na «direita», ou seja, no PCP («pseudo-esquerda plebeia», para ASS) e no Bloco de Esquerda («pseudo-esquerda chique» para o mesmo indivíduo). O PS é isto. Acho mesmo que o PS nunca foi mais do que isto. Isto e cargos empresariais.
E é também (neste momento) o silêncio de Manuel Alegre sobre isto.

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26 respostas a Política de Sarjeta

  1. Ricardo Santos Pinto diz:

    «J Sócrates, ele próprio, não deve saber muito a direito, ou nada mesmo, sobre o Tarrafal, por exemplo.»

    Caro Carlos Vidal, quem lê por ele o nosso blogue já lhe fez um resumo do que diz a Wikipedia sobre o Tarrafal.
    Quanto ao resto, é tão lamentável olhar para trás e ver que o dito PS destruíu muito mais a democracia portuguesa do que o PSD.

  2. Carlos Vidal diz:

    É isso mesmo Ricardo. Por isso é que eu há dias tinha perguntado: quando vemos a M Ferreira Leite e o J Sócrates na TV, quem nos chama mais a vontade de partir o aparelho?
    ASS é um produto socratista. Está bem para JSócrates, porque ambos são o retrato não apenas deste PS, mas do PS, de todo o PS, do PS de sempre. E este post é tb sobre Alegre. O que é que ele se prepara para fazer? Nada, provavelmente. O PS é uma verdadeira «escola».

  3. Luis Moreira diz:

    No outro dia almocei ao lado do Edmundo Pedro e tambem fui à sua festa de homenagem. Ri o almoço todo com a conversa e as estórias dele.Tem, aos 89 anos, os problemas de quem tem 60, mas sempre optimista,cheio de força de viver.Contou histórias fantásticas do Tarrafal e outras bem elucidativas da nossa democraciazinha…

  4. Mas ó vidal, estes cavalheiros não beberam chá, nem têm história. A ascensão deles foi feita subindo degrau a degrau as escadas do partido e do aparelho de estado, onde como é óbvio a dissidência paga-se caro, e o silêncio só pode ser quebrado com o sim senhor. Gente que fosse hoje estaria na união nacional.
    Um gajo como Edmundo faz-lhes confusão. Então um tipo que larga tudo, pena no Tarrafal, leva uma vida de miséria, para lutar politicamente pelo que acreditava, faz algum sentido? Só se for maluco.
    Para esta gente, o lugar do Edmundo não é o PS, é o manicómio.

  5. Há aqui uma coisa que não percebo (quero dizer, não é só aqui que há coisas que não percebo, mas esta é relevante para o que vou dizer a seguir).

    O Carlos Vidal é, por acaso, militante do PS?

    É que se é, então porque é que não resolve o seu problema com a falta de lisura com que o EP é tratado dentro do seu partido e a chegada dos parvenus e arrivistas às cúpulas do poder do mesmo através dos normais mecanismos partidários, sei lá, através de petições ou candidatando-se ele a um qualquer cargo que lhe permita desfazer esta afronta ao EP ou até formando lista para secretário-geral do PS?

    Se não é, porque é que não se faz sócio e tenta resolver este seu problema dentro do partido ao invés de vir para aqui, para a praça pública, a carpir e a rasgar as vestes por alguém que não passa de um anacronismo no PS?

  6. Carlos Vidal diz:

    Ó diabo, já viu o que é que uma sarjeta entupida pode desencadear?
    Uma cheia, uma inundação, enormíssimos prejuízos materiais e psíquicos.
    Quanto ao resto, aquilo que está nos detalhes, é Deus.
    Não é o diabo.
    Passe bem.

  7. Carlos Vidal diz:

    Ó diabo, já viu o que é que uma sarjeta entupida pode desencadear?
    Uma cheia, uma inundação, enormíssimos prejuízos materiais e psíquicos.
    Quanto ao resto, aquilo que está nos detalhes, é Deus.
    Não é o diabo.
    Passe bem.

  8. Carlos Vidal diz:

    Ó diabo, já viu o que é que uma sarjeta entupida pode desencadear?
    Uma cheia, uma inundação, enormíssimos prejuízos materiais e psíquicos.
    Quanto ao resto, aquilo que está nos detalhes, é Deus.
    Não é o diabo.
    Passe bem.

  9. Carlos, não é preciso jurá-lo 3 vezes. 🙂

  10. “Augusto Santos Silva, o teórico da sarjeta, ou do jornalismo-sarjeta se se preferir. ”
    Pois.
    Mas ASS é um Luxo que a Sarjeta nem consegue sujar nem consegue alcançar.
    Noutro dia ouvi – por puro acaso – um tal Daniel Oliveira num deprimente y falido Eixo do Mal a retorcer-se num faniquito qd o classificou … que coisa tão constrangedora, tive pena desse D.Oliveira …

    O ASS é Brilhante, Implacável, Audaz. Uma espécie de El Matador dos decapados que por aí se passeiam.

  11. “O Carlos Vidal é, por acaso, militante do PS? ”
    Aqui está uma boa pergunta. Eu desconfio que sim. Aguarda-se uma confissão estalinista do tipo: não sou, mas confesso que sou. O Beria do PS (ASS) tratará do assunto.

    O Edmundo Pedro…” não passa de um anacronismo no PS…”
    Aqui está uma grande verdade.
    Aliás, o EP é um anacronismo do tipo mário soares. Ainda se arrisca a ser candidato a PR.

  12. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Deus, diabo, detalhes, manicómio, prejuízos psíquicos?

    Sarjeta entupida? Bla bla bla? Desentope-se… toca a desentupir, porra!

    Quem sabe, faz … quem não sabe (fazer), ensina.

    Haja pachorra, né?

  13. helderega diz:

    Três comentários iguais seguidos?
    Cá para mim é um ritual obssessivo-compulsivo, desencadeado quando é referido o diabo.

  14. Se leres o Público de hoje, verás que o Alegre já reagiu. Chamou estalinista ao Santos Silva.

  15. R. diz:

    Infelizmente há muito que a ideologia deixou de diferenciar os partidos do “centrão”. Desligados da sociedade que intimamente desprezam, os seus membros, desde cedo imersos na pequena trica política, têm apenas, consoante o intelecto e a ambição, um único fito – o poder. Um pequeno poderzinho, numa qualquer concelhia ou num serviço público, um médio poder, por exemplo ao nível autarquico, ou um grande poder, no governo ou no partido. A diferenciar o PS do PSD emana, diferenciadora, a cultura política. É exactamente da cultura política do PS que emanam personagens Augusto Santos Silva. Não será de estranhar, portanto, que durante o presente consulado do PS, o cidadão atento tenha percebido o sinistro alastrar da verdade única, o progressivo silenciamento das vozes dissonantes, a intrumentalização crescente dos media, a um nível quase insopurtável, e a construção despudorada de uma realidade virtual. Intala-se qum estranho desconforto, a que a população se acomoda progressivamente. Grassa a impunidade.
    O poder agradece.

  16. Epá: Eu cá Tb já reagi às declarações do Cromo-Alegre lá no F-se!
    http://f-se.blogspot.com/2009/02/f-se-confissao-arrependimendo-nojo.html

  17. R.:
    “É exactamente da cultura política do PS que emanam personagens Augusto Santos Silva.”
    Epá: o ” cidadão atento” reconhece-te o estado Patológico de choné quando confundes as personagens y o papel delas…

  18. Eu sou totalmente alheio às três «juras» contra o diabo acima aparecidas. Mas a coisa acabou por ter graça, com o comentador seguinte a dizer-me que não necessitava de jurar 3 vezes. Milagres da técnica é o que é. É a técnica a ultrapassar-nos e nós cúmplices do fenómeno. Técnica divina.
    Não li a reacção de Alegre, mas se se centrou no caso de Edmundo Pedro é escassa. É o PS e aquilo que essa associação representa no seu todo despudorado e alicerce dos interesses económicos do grande capital que me interessa, e sobre isso Alegre ameaça, ameaça …
    Quanto a ASS, gostará que lhe chamem de estalinista, até porque quer que reparem que «ele existe». Tem um incurável complexo de inferioridade, mas isso são questões do foro pessoal (e outro que aqui não interessa). Coisas da vida. Se ninguém reparasse no seu abjeccionismo, o indivíduo faria qualquer coisa terrível (talvez) …..

  19. O Tarrafal… o tal campo aberto durante a PRIMEIRA república e que continuou em actividade durante a vigência da sucessora. O que é feito dele? Será agora um resort?

  20. paulo diz:

    Ó Carlos Vidal, por favor continue a escrever sobre o caso Freeport, é que sabe, contamos consigo para a descoberta da verdade. Consigo e com a F. Cabrita , claro. Por isso homen, não pare

  21. CVidal: “mas isso são questões do foro pessoal (e outro que aqui não interessa). Coisas da vida. Se ninguém reparasse no seu abjeccionismo, o indivíduo faria qualquer coisa terrível (talvez) …..” Conta. Conta. Conta-lá …

  22. Carlos, então EP só agora é que descobriu no que se tinha transformado o “seu” PS? Claro que isso não me pode comover! Só agora?
    Portanto, receber aquela resposta do ministro é apenas a sequência lógica do “conformismo geral” dentro do PS. Não tinham reparado como falam na AR com os partidos da oposição? Então? Enquanto era com os outros não se incomodavam?
    Cumprimentos.
    Ana

  23. Rita Pereira diz:

    O PM espera o arquivamento do processo???

    Sócrates pondera legislativas antecipadas
    2009-02-06 14:01

    José Sócrates pode só estar à espera de uma decisão de arquivamento do caso Freeport para anunciar a demissão e provocar eleições legislativas antecipadas, a decorrerem em Junho com as europeias.

    http://www.semanario.pt/noticia.php?ID=4570

  24. A. Laurens diz:

    VIVA A DONA MANUELA!

  25. Carlos Vidal diz:

    O que diz acima Rita Pereira seria de uma gravidade sem medida, não porque eu tenha de dizer quem é ou não culpado pela implantação daquele monstro na zona do estuário do Tejo (posso ter para mim uma versão, baseada no que conheço dos intervenientes), mas seria de uma gravidade sem medida pois nada se viria a apurar, e a impunidade da alta política ou da pequena política (autarquias, por exemplo) ou das ligações empresariais perigosas ficaria para sempre garantida. Resta-nos o comentário da mesma comentadora, Rita Pereira, no lugar que ela própria indica em link:

    «Cidadão pede para ser constituído assistente no processo Freeport
    Segundo revela no seu blogue, hoje, 5-2-2009, o dr. José Maria Martins informa que um cidadão, por si representado como advogado, pediu para ser constituído como assistente no processo Freeport.»

    Veremos o que isto pode dar.

  26. tribunus diz:

    Carlos Vidal escreveu: “Ainda não era suposto personagens como J Sócrates e Augusto Santos Silva virem a habitar este mundo, já Edmundo Pedro participava, adolescente, em actividades contra o regime de Salazar. Em meados dos anos 30, Edmundo Pedro conspirava nas juventudes comunistas, agitador nato e lutador pelos seus ideais de liberdade solidária”

    Ninguém pode tirar o mérito a Edmundo Pedro, enquanto lutador anti-salazarista, nem tão pouco duvidar da honestidade com que defendeu as suas mal avisadas ideias de “liberdade”, como então as entendia ou lhe foram transmitidas.

    Mas daí até alcunhá-lo de “lutador pelos seus ideais de ‘liberdade’ solidária” vai uma grande distância! O modelo de “liberdade” – aliás herdado do pai Gabriel – pelo qual Edmundo Pedro lutava era decalcado do “Terrorismo Vermelho” na Rússia Bolchevista, com as maciças prisões e execuções sem julgamento pela CHEKA (polícia secreta) e GRU (inteligência militar), repressão horrenda que durou entre 1918 e 1922. Esta repressão também ela decalcada do período negro da Revolução Francesa (Ler Sergei Petrovich Melgunov, Red Terror in Russia, Hyperion Pr (1975), ISBN 0-883-55187-X). Na prisão teria actualizado esse modelo para lhe incorporar as “nuances” estalinistas que também nada de bom trouxeram aos povos que soçobraram ao jugo comunista da União Soviética.

    Do pai Gabriel, escreve João Nunes: “E é assim que se entende que, preenchendo Gabriel Pedro todos os requisitos e mais alguns para ter lugar de destaque no martirológio e na galeria dos revolucionários notáveis e lendários do movimento operário e do PCP, ainda seja um incómodo para o partido a que dedicou toda a vida. Como Edmundo Pedro revela e denuncia, o PCP não omite Gabriel Pedro quando não pode, tendo-lhe dado o nome a um Largo em Almada e pouco mais. E, inclusive, as memórias que Gabriel Pedro escreveu antes do 25 de Abril e pouco antes de morrer, ele que morreu militante comunista destacado, estão apreendidas e na posse de um guardião da ortodoxia estalinista (Domingos Abrantes), sem direito a serem reveladas nem publicadas (total ou parcialmente). Decerto pela razão única de os escritos de memória de Gabriel Pedro não se encaixarem nos cânones do militante obediente, acrítico e bajulador, o protótipo do “bom camarada” e “fiel discípulo de Cunhal”. Sem direito sequer a que sejam lidas pelo próprio filho. Invocando-se o argumento de que as memórias escritas por Gabriel Pedro são “património do partido”. No caso: património dos seus silêncios e pelo perigo subversivo de demonstrar que, mesmo entre revolucionários, cada homem e cada mulher são seres únicos e diferentes entre si.”

    Carlos Vidal escreveu: “Ao que consta, as suas tentativas de fuga não foram coordenadas com o Partido, o que levou Edmundo Pedro a ser repreendido, coisa que não gostou e o fez sair do PCP”… Carlos Vidal escreveu: “Edmundo Pedro queixou-se de uma ausência no PS de qualquer discussão teórica e de ideias”.

    Pois é! Repreendido no PCP por querer opinar, passa-se para o PS onde pode livremente queixar-se “de uma ausência no PS de qualquer discussão teórica e de ideias”, sem medo de ser repreendido… Ele há coisas!

    Como escreveu João Tunes em Água Lisa : “Com uma lucidez incrível e excelente memória, destemido e com uma enorme capacidade de escrita, Edmundo Pedro cometeu o pecado maior do renegado – após o 25 de Abril e enquanto dirigente do PS, andou em movimento de armas para o combate violento pela democracia e contra a imposição de uma ditadura comunista (o que o levou, em democracia, ao regresso à prisão). Ou seja, segundo os cânones das suas origens políticas, ao serviço da contra-revolução, do capital e da reacção.”

    Ó Carlos Vidal, sendo o Carlos um homem culto, só posso terminar dizendo: PORRA para a “liberdade” que Edmundo Pedro defendeu durante a juventude e PORRA para a “liberdade” que o Vidal defende! Essa, meu caro, eu não a quero, nem dada…

    Felizmente não passa de uma “Hipótese Comunista” que já provou em 72 anos ser impraticável, lamentavelmente sobre uma montanha de cadáveres!

    Um bom e reflectivo fim de semana,

    tribunus

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