A alquimia dos calimeros

«Não é o acto concreto do decisor político que tem uma configuração suspeita, é a presunção de que todos os actores políticos são corruptos potenciais, característica do populismo, que transforma em suspeitos todos os actos desses políticos, independentemente do seu conteúdo». A pressão utilitarista afecta todos. Rui Pena Pires, que estimo pessoalmente e pelas suas opiniões, resolveu aderir ao peculiar processo de transferência que acarreta a atribuição ao universo de todos os males que suspeitamos, lá no fundo, habitar o nosso líder.
Aqui entre nós: alguém imagina António Guterres ou Durão Barroso atolados nesta fossa? Alguém imagina um deles a utilizar indevidamente um título profissional, a pressionar jornalistas para ficarem quietitos, a assinar horrendos projectos não se sabe bem de quem? Claro que não.
Há líderes que se conseguem apresentar como sendo aquilo a que os ingleses chamavam our betters. Depois, há os malucos como Menezes e Santana Lopes. E, no fundo do barril, a malta manhosa que se arrasta de bronca em bronca, dilapidando dia a dia a sua imagem, depauperando o património moral do seu partido e, aí sim, adoptando a tal «atitude que, a manter-se em expansão, fere de morte a democracia e o estado de direito.»

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20 respostas a A alquimia dos calimeros

  1. Há em Portugal um apelo à autocensura “em nome da Pátria” que desfaz a democracia, como ainda há dias se viu no desespero de José Miguel Júdice. Escrevi hoje sobre isso
    http://aoutravarinhamagica.blogspot.com/2009/02/tera-o-jornalista-o-direito-de-escolher.html

  2. De quem é o texto, LR? ( Já li o do Link …).
    Bem. Já n digo nada. A Mobilidade Social fala por si.

  3. R. diz:

    Bingo, Luis Rainha. Correcta análise.

  4. Eu sou de opinião que todos são inocentes até se provar serem culpados. Nos casos que apresentas, Sócrates é culpado de uns projectos indefensáveis (com compadrio de assinaturas, falta provar cabalmente), de ter uma licenciatura que não obedeceu a todos os requisitos (apesar de legal) e de pressionar jornalistas (apesar de dizer que não, o que deixa a coisa em suspenso). Ou seja, safou-se de todas. Como se saiu da história do relatório da OCDE, que afinal era só uma confusão de e-mails. Mas o problema é que saiu tb. chamuscado. E não vale a pena armarmo-nos em virgens púdicas e invocar o estado de direito. São demasiadas coisas. Campanha negra? Formalismo ético? Aldrabice? Corrupção? Convinha que a justiça esclarecesse. O problema é que num país em que, alguns exemplos, a Felgueiras canta de galo, a Casa Pia é o que é e até uma procuradora-geral vem falar publicamente de ruídos no telefone, talvez o estado de direito esteja um bocado torto. depois não se queixem que a malta suspeite por conta do populismo, num tom que até parece que vivem na suécia.

  5. Sócrates é o português típico do desenrasca.
    Por isso, não falta quem ache: ora bem, ele é um cromo, mas é o nosso cromo, não?
    Não conseguiu licenciar-se como os que, para o conseguirmos, andámos a estudar durante anos, mas o que é que isso tem? Assinou, a troco de umas massas, projectos de construção horrendos elaborados por outros, mas que mal há nisso?
    Mente descaradamente sempre que lhe convém, mas quem é que não mente em interesse próprio?
    Só que Sócrates, do que se lhe conhece, não destoaria como presidente do Alguidares de Baixo Futebol Clube. Agora como primeiro-ministro de um país europeu, tenham lá santa paciência…

  6. “Depois, há os malucos como Menezes e Santana Lopes.”

    Nem mais!

    e muito bom.

  7. “alguém imagina António Guterres ou Durão Barroso”, não. Mas vejo-os a nadar, mergulhar y a engolir pipulitos!!!

  8. RIBO diz:

    É. Pois. Ummm…! Como o amigo está enganado. Não são os manhosos do fundo da lata que corroem a democracia e espatifam o país, lixiviam a sua História de alto e baixos mas longa e com picos únicos na cronologia da humanidade. Nâo, nada disso. Porque esses morrem pela mesma boca, com o ganho no mesmo lábio, que usam para trilhar curtos caminhos. O problema, meu caro, são os que, bem mais inteligentes e lidos, sustentam os do fundo da lata, com a sua sofrida mas eficaz retórica, que vão um pouco mais além do pensamento por imagens, chegando mesmo à dialéctica como ferramenta cirúrgica mas construíndo imagens para cavar o terreno onde os tais do fundo da lata plantam as suas nabiças. São tipos como o Santos Silva, como o P.S. Pereira, e outros, poucos, apenas com o objectivo de serem parte da boda. Este país está tão fodido! São estes tipos os autores da campanha branca que está a servir para diluir uma suposta campanha negra, apenas com o objectivo de conseguir uma colheita “cinzenta”. E a “negra” só foi inventada para justificar a “branca”, a única que garante o “cinzento”. E com o cinzento, tudo acaba bem por razões evidentes e costumeiras.

  9. LR: O Filipe Moura Desapareceu?? Por onde anda?? Vale.

  10. LA-C diz:

    “Alguém imagina um deles a utilizar indevidamente um título profissional”

    Lembro-me que Durão Barroso, antes de pegar no PSD, esteve uns anos nos EUA. Na imprensa escrevia-se que ele estava lá a fazer um doutoramento em Ciência Política. Nunca o vi preocupado em desmentir tal ideia, excepto, quando no regresso, lhe perguntaram pela tese de doutoramento. Aí ficou-se a saber que ele tinha lá estado, em exílio, ou algo assim.

  11. Luis Rainha,

    Por anda a categoria dos “our betters”? Anda tudo à procura deles e ninguém os encontra…

  12. Ricardo Santos Pinto diz:

    O Rui Pena Pires? Esse não é casado com a Ministra da Educação?

  13. LR diz:

    Aqui está ( o Filipe, não o grupo dos our betters): http://avesso-do-avesso.blogspot.com/

  14. Fernando diz:

    Gosto do tom moralista desta gente. Antes um Sócrates com fraquezas mas determinação política do que cobardes impolutos como o Guterres e o Durão.

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Com maioria absoluta, é fácil ter determinação política. Se bem que, concedo, ao contrário dos outros dois, ainda não fugiu. Mas também, quem é que o queria?

  15. Luis Rainha diz:

    LA-C
    “Doutorando” também não me parece bem um título profissional.

    Fernando,
    Um outro problema dos homens determinados e cheios de falhas é que acabam por corroer tudo quanto é princípio, ideologia ou boa intenção em seu redor. No fim, só os subservientes e interesseiros prosperam.

  16. Fernado: Concordo. Ainda vamos ter o pesadelo desses dois caramelos terem a lata de se candidatarem à Presidencia da República. Não é por nada, mas a f. é mais saudável …

  17. Fernando diz:

    Cheios de falhas não estamos nós todos? Gosto de gente com falhas… Vícios meus, talvez.

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