Subsídios para a história do futebol em Portugal

Aqueles que se interessam por futebol julgam saber tudo ou quase sobre a introdução deste desporto em Portugal: no final do século XIX, alguns filhos família que foram estudar para Inglaterra e alguns ingleses que vieram trabalhar para Portugal, nomeadamente na instalação do cabo submarino, terão feito as primeiras exibições e realizado as primeiras partidas, e depois os primeiros clubes ter-se-ão formado e o futebol ter-se-á espalhado, da aristocracia para o povo, onde encontrou para sempre morada e cuja afeição não mais perdeu.

 

Essa é de facto a história, mas apenas parte da história, porque o futebol nacional tem um herói desconhecido: chama-se A. Campos Portugal, era agrónomo de formação, geógrafo por gosto e agrimensor portanto – e, veraneando em Belas junto da Corte (pois pelo lado materno era um Noronha, como Alípio Abranhos antes dele), é a ele que se devem alguns dos mais inspirados e decididos passos para a difusão do que viria a ser o desporto-rei no nosso país.

 

Quem consultar a memorabilia disponível desses tempos, encontrará o seu rosto sonhador em inúmeros daguerreótipos, junto de outras grandes figuras cujo nome perdurou na história do futebol português: os irmãos Pinto Basto, os irmãos Gavazzo ou o jovem Holtreman Roquette; mas ao contrário destes, Campos Portugal não foi um atleta, senão um pensador do futebol, e é por isso que o encontramos mais na sombra do que sob as luzes fortes da publicidade.

 

Com efeito, foi ainda em Inglaterra, nos vastos greens da escola de agronomia em que se formou, na pacata localidade de Newton Abbott, perto da divisa entre o Devon e a Cornualha, que Campos Portugal, afligido então, aos vinte anos, por uma severa crise psíquica, teve o primeiro contacto com o futebol (que de imediato preferiu na elegante versão do association, distinta da confusão e brutalidade do football rugby) e nele descortinou logo virtudes salvíficas que o levaram a propagandeá-lo com fervor no seu regresso ao país.

 

 

Para Campos Portugal, o futebol estava “escrito”, antes ainda de ser jogado; podia ser “mastigado” por jogadores de má índole ou insuficiente recorte técnico, mas quando devidamente praticado, assumia um significado superior, pois que as infinitas equações decorrentes do jogo da bola por dez contra outras dez peças em movimento, e as figuras geométricas que o esférico compunha quando bem tratado pelos oficiantes destes rituais cabalísticos, estariam previstos, desde há milénios, nos mais sagrados dos livros do conhecimento. Os deuses escreviam direito por dribles tortos e Campos Portugal era dos raros que se apercebia desse facto de consequências tremendas na história da humanidade.

 

Quando em Belas assistia a uma partida, Campos Portugal alternava entre o silêncio discreto e desanimado e a excessiva animação, que fizeram dele um “exaltado” em último grau, que as famílias evitavam e que acabou por sucumbir, precocemente, às fraquezas do seu próprio coração. O que Campos Portugal perseguia não era o (efémero) desejo de vitória do seu Sporting Clube de Belas (antepassado, como é sabido, do grande Sporting Clube de Portugal); era a vitória do futebol, a celebração do próprio jogo e, por seu intermédio, a consagração do plano divino que utilizava o bailado atlético e os movimentos do esférico para se revelar. Durante uma partida secundária, Campos Portugal (que esperava talvez que os pas-de-deux dos forwards haveriam de abrir as portas de um qualquer templo, de uma religião antiga, algures num canto esquecido do planeta) não suportou a mediocridade (já então) reinante no futebol e partiu sem regresso; os seus pares fizeram-lhe então um funeral discreto e privaram-nos até hoje da sua versão intransigente da verdade desportiva. É tempo de honrar o seu nome e de cultivar a sua memória.

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SEXTA | António Figueira
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3 respostas a Subsídios para a história do futebol em Portugal

  1. Um típico post de lagarto armado ao pingarelho a falar de um tipo especial de futebol.

    O futebol dos noronhas, dos roquetes e dos abranhos. Dos condes, dos duques e dos marqueses. De gajos com dois apelidos separados por um de ou um e. O futebol dos gentlemans, dos letrados, dos viajados. O futebol estético, ético e anti-séptico. O futebol das férias de verão, dos meninos da linha e dos copinhos de leite, dos doutores e engenheiros. Do green, da luz eléctrica, do banhinho quente e roupa de marca. Da bola de cautchu dos meninos bem e dos parvenus. O futebol das crises existenciais.

    O meu futebol é o da canalha e da populaça. Do operário e do carteirista. Do branco e do preto (sobretudo do preto). Do chulo e da puta. Do chefe de família e da bola metida lá dentro, sem má nada. Do copo de três, do traçado e da imperial. Do courato, da bifana e da sande de molho. Do tijolo e da massa. Do trolha e do pato bravo. E do pato-bravo que já foi trolha. Da bola prá frente e fé em Deus. Do povo que não sabe o que é crise porque viveu sempre em crise. O futebol do teso e do desenrasco. Do campo pelado, do petromax, da água fria e da bola de trapos. Do golo marcado com o pé mais à mão ou com a mão mais ao pé.
    Enfim o futebol do proletário encarnado, orgulhosamente só contra a réptil aristocracia e a burguesia andrade.

  2. “Football is a gentleman’s sport played by thugs whereas Rugby is a thug’s sport played by gentlemen”, não é Miguel Dias?

    Por essas é que eu prefiro o cricket.

  3. JLB diz:

    Estou a escrever uma tese sobre as introdução do futebol no nosso país e procuro documentos sobre os seus principais iniciadores, incluindo Campos Portugal, sobre o qual há, como sabe, muito poucas fontes. Muito grato lhe ficaria se pudesse contactar-me pelo meu mail.

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