O Patrão e nós

Nestes dias de crise, em que os trabalhadores é que pagam e em que o desemprego não pára de aumentar, nada melhor do que recuar a 1974 – aos tempos em que Fausto era um cantor de intervenção. Como se pode ver, a actualidade da música, aqui, é total.
«O Patrão e nós», do album «Pró que der e vier».

Vejam aquele homem de cartola, de lacinho e casacão
A mala cheia de dinheiro que ele transporta na mão
Vive em Cascais ou no Estoril e mora numa mansão
Goza as férias de Verão quando quer e lhe apetece
Tem um Banco e muitas fábricas e tem nome de patrão
Mas agarra que é ladrão
Não faz falta e é cabrão

E olhem agora cá pra nós, boné roto e macacão
Saco da ferramenta e de lancheira na mão
Vivemos no Casal Ventoso, moramos num barracão
O ano inteiro a trabalhar sem Verões nem Primaveras
Temos filhos, muito filhos, sem escola nem sacola
Mas isto vai acabar
À porrada no patrão.


Vídeo caseiro da música «O Patrão e Nós», do album «Pró que der e vier», de Fausto Bordalo Dias (1974). A luta sindical e a intervenção política nos meses quentes de Abril. Acompanhado por um conjunto de cartazes da época, publicados em «Portugal Século XX», de Joaquim Vieira.

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10 respostas a O Patrão e nós

  1. Alexix diz:

    Se o autor deste blog permitir convido a visitarem o meu e a saberem de que tem medo Cavaco Silva

  2. José Pedro Monteiro diz:

    E desde quando deixou o Fausto de ser um cantor de intervenção?

  3. Ricardo Santos Pinto diz:

    É a sua opinião. Mas folgo em saber que foi a única coisa que reteve de uma homenagem ao Fausto e a uma música da qual nem a letra existia na intrenet até hoje.

  4. José Pedro Monteiro diz:

    Exactamente por achar que e homenagem ao Fausto é merecida pensei que não caía bem a expressão “aos tempos em que Fausto era um cantor de intervenção”, até porque o que distingue o Fausto de outros tantos é exactamente o não ter abdicado da “intervenção”. É normal que já não escreva que ” as comissões terão de saber que são alicerces do novo poder”, mas compensa com :

    e se a censura aviva
    a morte do criador
    banido da pantalha
    cedo morre esse cantor
    e calado na rádio
    apagado nos jornais
    vai-se à vida a voz canora
    há-de morrer um pouco mais

    De resto, a vénia à homenagem, eu próprio já a fiz noutro sítio.

    Cumprimentos

  5. Concordo com a música, mas olha que se substituísse “patrão” por “senhorio” ainda ficaria melhor. Aí é que eu concordaria plenamente!

  6. “Vive em Cascais ou no Estoril e mora numa mansão
    (…)
    Vivemos no Casal Ventoso, moramos num barracão”

    Coincide tal e qual com os senhorios que eu conheço!

  7. Ricardo Santos Pinto diz:

    José Pedro Monteiro,
    Sei que os tempos são outros, mas Fausto, como outros, está muito longe da intervenção social de outrora. É a minha opinião, desculpe.
    Como seria José Afonso hoje?

    Filipe Moura,
    Por causa desse tipo de comentários é que eu digo que fazes falta ao «5 Dias».
    Como sabes, não concordo, e até podia concordar. Dou-te um exemplo: estou a viver longe de casa durante a semana e tive de alugar um quarto, numa casa onde vivem outros dois professores, por 150 euros por mês, mais a água, a luz e o gás. A casa não tem condições mínimas para se viver, é uma casa gelada numa terra gelada.
    Só com aquela casa, os senhorios ganham 450 euros limpos por mês, livres de impostos e tudo. Têm negócios e têm as suas profissões. Estão a explorar-me? Sim, estão. Mas eu é que os procurei, eu é que lhes pedi para ir para lá, eles fizeram o investimento na casa e têm todo o direito de querer obter o retorno.
    Sei que, nos teus textos, tens falado de situações algo diferentes, mas apeteceu-me deixar-te aqui este exemplo concreto.
    Abraços.

  8. José Pedro Monteiro diz:

    Provavelmente não escreveria “veio da mata, o homem novo, do MPLA”. Quanto à questão do Fausto, acho que a mais do que manter a intervenção social mantém a intervenção política. Acho que é redutor dizer que desapareceu a intervenção política: provavelmente é menos entusiasmada, a verve, mas é também reflexo dos tempos que vivemos. Por outro lado, consegue “processar” a intervenção em dois registos ( eu, pessoalmente, mas sou suspeito acho que o “por este rio acima” contém elementos de denúncia da natureza política dos descobrimentos , como por exemplo no Romance de Diogo Soares, a prepotência do fidalgo, a revolta das gentes “numa obra muito pia e santa), um de narrativa histórica e outra mais directa, como é o caso da Ópera Mágica do Cantor Maldito. Por outro lado, e como já deve ter percebido, não está a falar com um apologista da arte “concebida como um luxo cultural pelos neutros”, não acho que a música tenha que ser tão directa e truculenta como no caso. Saúdo o gesto, já o disse anteriormente, mas acho injusta a acusação de fausto como cantor não “interventivo”. Socialmente nem por sombras, políticamente também não. Não anda a fazer trocadilhos de consumo rápido que a crítica não hesita em apelidar de “intervenção”, mas, por exemplo, toda a ópera mágica devia ser ouvida a pensar naqueles que de um momento para o outro trocaram o Enver Hoxa e o Mao pelo Popper e pelo Berlin.

    De qualquer das formas, aprecio a discussão e o louvor

    cumprimentos

  9. antónimo diz:

    A crise não pára, o desemprego aumenta, a União Europeia insiste nos caminhos e políticas que aqui nos conduziram, enquanto os americanos começam a adoptar medidas keynesianas, os belezas e os bagões continuam a ir comentar economia e segurança social às televisões, jornais como o DE chamam privilégios aos direitos na saúde na função pública e continuam apostados em lançar os nus contra os rotos, durante quatro anos, o Estado esqueceu-se de avisar os bancos que tinham de devolver o IVA, em vez de fazer as contas para ver se as energéticas as fazem bem o cálculo dos preços dos combustíveis a Entidade da Concorrência assobia para o lado, o Banco de Portugal compra jaguares e esquece-se de multar os bancos que estão a recuperar em comissões os valores que perderem por serem forçados a deixar de aldrabar nos arrendondamentos. Os offshres aparecem envolvidos em tudo que é vigarice. E que fazem partidos como o PCP? Chamam a atenção de forma continuada e constante para estes factos, até que se tornem perfeitamente audíveis? Tentam conciliar-se com outros partidos e movimentos de esquerda portugueses ou europeus? Tentam mostrar que isto não pode continuar e que é preciso mudar completamente de vida? Juntam manifestantes para gritar contra isto? Não. Levantam antes cabelo por o Governo querer que os professores preencham umas quatro ou cinco páginas de planos de actividades, previstos numas circulares que ninguém na classe parece ter lido mas a que chamam burocracia intolerável e fascista. É ver a história passar ao lado, é o que é!

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