E se ele é inocente? (ou como se tivesse visto «Uma casa na pradaria»)



Calma, calma, eu explico.
Aquela frase assolou-me a tarde de sexta-feira. E se ele é inocente? Afinal, é muito injusto uma pessoa ser acusada de algo que não fez.
Durante horas, matutuei naquilo. Regressava a casa depois de uma semana de trabalho e voltava a ver a minha pequenina de seis meses. Estava feliz, o meu coração transbordava de felicidade, de amor e de paz de espírito. Voltara a confiar na Humanidade e nos sentimentos mais nobres das pessoas e até dos políticos. Estava como se tivesse visto cem episódios seguidos de «Uma casa na pradaria».
Mas com os Telejornais e com a revisão de tudo o que já se escreveu sobre o assunto, voltei a assentar. Regressei à realidade. Afinal, não sei ele é inocente ou não, embora tenha uma opinião bem vincada. Mas sei que a culpa de tudo isto é dele. Nenhuma pessoa normal aprovaria um negócio de 50 milhões de contos a três dias de umas eleições legislativas. Nenhuma pessoa normal modificaria uma Zona de Protecção Especial, ainda por cima sendo Ministro do Ambiente, para poder aprovar um projecto que envolvia tantos milhões. Uma pessoa normal, sabendo que estava num Governo de mera gestão de assuntos correntes, deixaria assunto tão melindroso para o Governo seguinte. E eles que se amanhassem. Acima de tudo, uma pessoa normal teria o bom-senso de ser e de parecer séria e de se salvaguardar perante dúvidas legítimas que posteriormente haveriam de surgir. Afinal, qual era a urgência? Qual era a pressa? Uma demora de dois ou três meses prejudicaria o Estado? Alcochete? Não, prejudicaria apenas o Freeport. Mas disso, uma pessoa normal não teria culpa nenhuma.
Infelizmente, culpados ou inocentes (a Justiça prefere sempre esta última hipótese), os Governos em gestão nunca têm o bom-senso de deixar para os Governos seguintes assuntos melindrosos e negócios de milhões. Vá-se lá saber porquê, preferem ser sempre eles a decidir. A arcar com as responsabilidades. Foi assim com o SIRESP, foi assim com o caso Portucale, foi assim com as construções no Parque da Cidade do Porto.
Se não é de vergonha que se está a falar, ao menos que se fale de bom-senso!

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5 respostas a E se ele é inocente? (ou como se tivesse visto «Uma casa na pradaria»)

  1. teresa diz:

    Esquecem-se que havia mais pessoas a pressionar para o processo seguir como o presidente da camara de alcochete que queria o shopping. A pressa podia ser não por luvas, mas para resolver o assunto que já pastava há anos.

  2. Luis Moreira diz:

    Ricardo, e o caso, com todas essas dúvidas era assunto de um homem só,mesmo ministro?Ele recebia luvas á frente de todos (basta ler os seus argumentos) e ninguem lhe colocava as questões que lhe tiram o sossego,a si?E se colocavam, não temos um nem dois mas vários ministros corruptos? Eles são estúpidos a esse ponto? Há muita trafulhice e corrupção mas não é assim.Há bem pouco tempo alguem foi à TV dizer que estava num grupo e não fazia nada e não sabia de nada.Está, assim, em 10 empresas (há casos em que estão em mais de 10 empresas,depois de saírem do governo) a receberem 5/6 000 contos/mês em cada uma.Fora as acções,carros,envolvimento em negócios, ganhos em bolsa com privilégios.Ficam milionários em meia dúzia de anos como se está a ver com varíadissimos ex-governantes, e só o Sócrates (ele que tem tudo de estúpido) é que ía receber luvas nos off shores do tio! Ricardo, mudando para assunto mais arejado, a sua menina, está feliz?

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Está óptima, Luís Moreira, ainda não sabe o que custa a vida.
      Quanto ao «post», pus a questão no plano do bom-senso. Moralmente (e talvez legalmente), um Governo de gestão não devia alterar uma ZPE e licenciar um negócio de 50 milhões de contos. Só isso. Não dei a minha opinião sobre a existência ou não de luvas.
      Os teus considerados Têm razão de ser. Obviamente que os políticos honestos ganham muito mais fora da política.
      Se ele é estúpido ou não o suficiente para fazer isso, não sei. Mas as coisas, se aconteceram, não foram assim tão às claras, senão sete anos depois já se saberia algo de definitivo.

  3. Luis Moreira diz:

    Não,eu estou só a mostrar que se pode ser milionário em meia dúzia de anos e ir dizer à tv como se faz,porque é tudo legal.Não foi o que aconteceu com Dias Loureiro? Porquê receber uma mala de dinheiro ou transferências manhosas? Basta sair do governo e receber as devidas recompensas.Esta ideia que a corrupção passa por malas de dinheiro a serem trocadas numa praia deserta é ingénua.Há tanta forma de pagar. Meia dúzia de lugares bem pagos após a saída do governo e a recompensa dos favores está mais que paga!

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Pois, isso é para quem não quer seguir ou continuar a carreira
      política. Olha o caso do Jorge Coelho com a Engil.
      Quem quer continuar na política, terá de fazer as coisas de outra maneira.
      Estou a falar em geral.

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