Como é que eu acabei a gostar de um clube que equipa de encarnado

Uma das regras universais do futebol que procuro seguir é a de não gostar de clubes que equipam de encarnado. Por isso, e por ser o clube de um dos heróis da minha juventude, o grande Joe Slovo (o branco mais preto do mundo, ainda mais que esse farsante genial chamado Vinícius de Moraes), entre os clubes ingleses, o meu preferido era o Chelsea. Da primeira vez que fui a Londres, no Verão de 78, fiquei a dormir em casa de uns amigos de uns amigos de uns amigos que moravam ao lado de Stanford Bridge, e a partir daí passei a considerar-me praticamente um íntimo; o problema foi quando a besta do Abramovitch comprou o clube e os adoráveis underdogs da minha juventude se transformaram no clube mais posh da bifelândia. – Que fazer?, perguntou então o leninista que há em mim. Tornava-se imperioso emigrar (eu sei, eu sei, um homem muda de mulher, de partido, do raio que o parta, de clube é que nunca, mas para mim isso só se aplica intramuros), e as alternativas não eram gloriosas: o Man U é uma labreguice pegada, com tanto ou mais dinheiro do que o Chelsea e com a mesma pretensão a clube da humanidade inteira de um outro que eu cá sei e que abomino desde pequenino; o Liverpool tinha a seu favor o coro que se ouvia no Meddle, dos Pinkfloyd, que o meu irmão N. tinha lá em casa antes de em 74 lhe ter dado a travadinha e ter vendido os discos de rock todos para só comprar edições da Chant du Monde, mas também é o clube do Heysel (um cartão de visitas um bocado foleiro, reconheça-se) e agora ainda por cima está cheio de espanhóis; sobrava o Arsenal, e eu, apesar das parecenças com o clube do Mesquita Machado, aceitei a sugestão do meu sempre avisado filho M. de passar a apoiá-los na Premiership: o Arsène Wenger é um senhor, o clube aposta na formação, joga bonito, colectivo e ao primeiro toque, e, apesar de ameaçar sempre, nunca ganha (quase) nada, só vitórias morais: o perfeito equivalente do meu querido SCP. A outros sportinguistas que queiram seguir a minha opção e precisem de explicar à família como é que, permanecendo fieis ao emblema do leão dourado em campo verde, podem acabar a gostar de um clube que equipa de encarnado, sugiro o visionamento deste video: percebe-se logo tudo.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

3 respostas a Como é que eu acabei a gostar de um clube que equipa de encarnado

  1. Morgada de V. diz:

    V. está no bom caminho, com essa sua conversão extramuros aos vermelhos – e o Benfica, apraz-me dizê-lo, também.

  2. António Figueira diz:

    Com o devido respeito, a Senhora Morgada confunde vermelhos com encarnados…

  3. pois olhe que vermelho é mais bonito que encarnado…

Os comentários estão fechados.