Thou shalt not kid (thyself)

Declaração prévia de interesses: adoro bakhlavas, especialmente de noz, e em lado nenhum do mundo são elas mais saborosas que numa discreta pastelaria a subir uma das encostas do unfashionable side de Istanbul. Também podia viver o resto da vida a çorba de lentilhas vermelhas, não fosse gostar também muito de caldo de acelgas e ser difícil encontrá-las num raio de 300 km do morgadio. É-me por isso impossível manter as saudáveis distâncias do outburst do Erdogan. Depois, e aqui a culpada é a minha costela anarca, tenho um fraquinho por aquilo a que gosto de chamar, à falta de melhor termo, “estados de emergência”, desvios à regra, e tudo o que despenteie o protocolo. O meu amigo António bem tenta avisar-me contra as ratoeiras da “política do gesto”, mas eu, inculta e parva, caio sempre na esparrela. O que me é simpático em Erdogan é a impermeabilidade à pressão dos pares e ao lastro das convenções (estava toda a gente a ver, etc), a forma como se aventura no território de ninguém das cenas não scriptadas no programa. É nestas alturas que passamos a ver os políticos para além do fato, e o Erdogan, concordarão comigo, foi mal aconselhado na gravata. Mas o que o torna ainda mais simpático a meus olhos é que, tendo a bela Turquia que eu amo o massacre de duas minorias às costas, e muitos cadáveres no armário, Erdogan consiga deixar-se “emporter”, movido pelo melhor combustível, o da ira, para brandir mandamentos que não professa, profeta impoluto em estado de graça. Não era a brincar, acredito que o homem foi sincero. Erram por isso os que lhe apontam, de dedo em riste, o massacre dos arménios e a campanha contra os curdos, não porque não tenham razão, mas porque ao fazê-lo lhes escapa o mais tocante do episódio. Erdogan, e é essa a beleza dos estados de emergência, nasceu de novo naquele palco, inocente como um born again, sem pecado original. A mim, que fui castigada com uma mente cubista e não paro de dar a cada lado do hemisfério o direito ao contraditório, fascinam-me estas coisas. E quem faz uma sopa tão boa não pode ser mau.

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6 respostas a Thou shalt not kid (thyself)

  1. M. Abrantes diz:

    “E quem faz uma sopa tão boa não pode ser mau”

    De repente lembrei-me de Hitler afagando carinhosamente uma cadela pastor alemão (Blondie?), tendo como pano de fundo a beleza de Berchestgarden.

    “Erdogan, e é essa a beleza dos estados de emergência, nasceu de novo naquele palco, inocente como um born again, sem pecado original”

    De ir às lágrimas. As melhoras…

  2. Não querendo desfazer o texto mas não será mais o caso de:

    1) Ele sabem bem em que grupos reside a sua base de poder político na Turquia.
    2) No exterior encontra uma Europa sem coluna vertebral que não sabe bater o pé quando é preciso e como tal sente-se à vontade para dar espetaculo.

  3. Pedro diz:

    Se não se pode falar dos arménios (é giro, porque no debate do Médio Oriente só os judeus é que têm responsabilidades históricas), então falemos de assuntos de hoje:

    A Turquia de Erdogan, de 2009, que bombardeia o norte do Iraque na caça aos “terroristas”, que prende jornalistas, juízes, militares e sindicalistas a torto e a direito, que mantém o boicote económico à Arménia, que país é este para dizer o que quer que seja?

  4. Morgada de V. diz:

    Hitler? A mim lembrou-me todos nós, sobretudo a vizinha do 5 esq. do meu pied-à-terre, que põe a TVI aos berros e se queixa quando eu ouço a Ferrier (ela tb tem um bigodinho). Além disso, thou shalt not kid thyself, eu vendo-me por um prato de lentilhas. Ou de acelgas. Bah.

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