Mitomania

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Francamente, invocar Zola e o Caso Dreyfus a propósito do nosso rasteiro escândalozito de umas luvas que terão ou não sido pagas à conta de um shopping de arrabalde parece ideia descabelada. Nem a Fernanda Câncio nem José Sócrates terão estatura para tais papéis. Nem se imagina como é que um passado recente de acusações vigorosas e assertivas veio agora descambar neste calimerismo de ocasião. Há uns meses, a mesma cronista apontava o dedo à invocação que Santana Lopes fez do seu pai, a propósito das embrulhadas do Casino de Lisboa: «é uma interessante linha de defesa, que apenas peca por dois pequenos defeitos. O primeiro é não esclarecer nada quanto ao fundo da questão – seja o caso do casino de Lisboa, seja outro qualquer.» E o dedito acusador lá seguia, embora sem a franqueza elegante de um Zola: «a ausência de decência de que já fez uso em relação aos seus opositores é afinal o espelho da forma como trata aqueles que mais respeito e resguardo lhe deveriam merecer» (sounds familiar?).
Hoje, as invectivas já não se viram contra os poderosos que adoram queixar-se de metafóricos pontapés em incubadoras ou de campanhas negras de nevoenta origem e maléficos propósitos. Não. Hoje, quem mal anda é essa «gente que, quiçá imaginando-se da estirpe do autor de J’accuse, se compraz em funcionar como guarda avançada» de uma tal «instrumentalização da verdade» – sendo que esta expressão nem sequer se entende; a verdade deixa de ser verdade quando é usada seja para o que for? As voltas que o mundo dá em tão pouco tempo.

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7 respostas a Mitomania

  1. Cristina Gomes da Silva diz:

    Peço desculpa, mas o porque é que traz a Fernanda Câncio para a história?

  2. Luis Rainha diz:

    Está desculpada. E não trouxe nada, como concluirá se reparar que os textos em questão são dela.

  3. Cristina Gomes da Silva: Ora porque é que será? É proibido? Feio é andar com machado na mão a querer cortar o pensamento y imaginação dos outros. Y a Fernandinha devia ensaiar-se mto se os protagonistas fossem outros y há sempre o ditado ” Não te rias que o teu vem a caminho!”.
    Ora baixa lá o machado q a f. já conhece de cor as línguas q a casa gasta …
    …..
    LR
    N sei porquê, mas o mais emblemático y simbólico no caso Dreyfus para a Humanidade dela retirar a Grande y Verdadeira Lição foi exactamente a posição de Silêncio y Indiferença e Dreyfus qd lhe pediram solidariedade aquando de uma condenação à morte nos EUA … confesso a minha memória é selectiva quanto às morais das histórias, mas nula no que toca a detalhes dos nomes. Mas este foi o facto. Ele não se quis envolver y a sua palavra era Ouro. ( No fundo considerou que ninguém se colocara do seu lado no devido tempo…. etc, etc etc.

  4. também achei um pouco fora de propósito. e já agora mas a propósito: que post tão bem escrito!

  5. Segundo a Fernanda Câncio fiquei a saber três coisa que desconhecia:
    1. Sócrates é judeu e oficial subalterno do exército francês.
    2. Existe em Portugal uma poderosa corrente anti-semita.
    3. Não há Zolas aos pontapés.

    Quanto ao terceiro ponto não podia estar mais de acordo. Que jeito fazia à selecção o Zola que jogou no Chelsea.
    http://www.youtube.com/watch?v=91_kxVWcLY4&feature=related

    Quanto aos dois primeiros pontos remeto para quem tiver paciência para o meu blog:
    http://espumadodias.blogspot.com/2009/01/jacusse.html

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