Círculo de Prosa: Campanha do Norte

Fui toca e foge ao Porto, uma viagem coroada de sucesso, diriam os jornais se tivessem sabido, um rabo e duas orelhas, o correspondente tauromáquico, splende tutto!, o crítico operático. Na volta, a meteorologia prometia aguaceiros, mas choveram picaretas. Algures na região Centro, ouvi numa rádio local o clássico “Não há nada para ninguém”, de Mário Mata, um estranho cruzamento de Jorge Palma com Quim Barreiros que eu julgava devidamente apagado da nossa memória colectiva, mas que pelos vistos ainda tem os seus cultores: tive vontade de conhecer o local da rádio e fiz um desvio na saída seguinte da auto-estrada para beber um café, que me foi servido por uma senhora muito feia e mal amanhada que usava uma t-shirt que dizia “I’m a Fashion Icon”: batia tudo certo, o país profundo nunca desilude. Retomei a viagem apenas para descobrir à chegada a morte de Mussolini Fajardo, o último taxidermista de Lisboa: quem empalhará agora as patas de raposa do meu amigo? É o Velho Mundo que se desmorona, e é Desidério Murcho que ficará um pouco mais sozinho, na requintada poesia do seu nome.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
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13 respostas a Círculo de Prosa: Campanha do Norte

  1. AnaV diz:

    Meteorologia…..

    Claro, la météo… Obrigado, Ana.

  2. O Desidério Murcho com os seus dentinhos de ratinho tem ar de parvinho … nhã-nhã.nhãnã

  3. Pedro diz:

    ui, ui, as gentes que moram nas bermas profundas da A1 são tão feinhas e possidónias, credo! Vão lá ver, vão lá ver! E ó António Figueira, a gente tem de ir de todo-o-terreno, ou pode alugar um autopullman?

    O carro da empresa serve. Ass.:AF

  4. Pedro Ferreira diz:

    Ó António, olha o que podem dar as leituras enviesadas do teu excelente texto, já estou a ver a imprensa sensacionalista: “Escândalo no 5dias: Professor Doutor Figueira desloca-se ao porto e trás de lá um rabo”

  5. Carlos Vidal diz:

    A última frase é de antologia: a referência a esse imenso Nome da filosofia, é de antologia. Sobretudo a forma como esta história continua a anterior.

  6. António Figueira diz:

    Obrigado a todos pelos comentários.
    Troca de galhardetes: genial é o teu post por cima deste, ó Carlos.
    E tu, Pedro, fica sabendo que estive para escrever “dois rabos e uma orelha” mas depois achei que era matador a mais…
    Abraços, AF

  7. Bem, lá isso de “fashion icon” é com moi même je. Agora o resto ignoro em absoluto: o dito cujo Portugal profundo, o Desidério Murcho (acho que estão na reinação, mas enfim, não me vou pôr a fazer pesquisa Google), o Mário Mata e o Mussolini Fajardo. E desconfio bem que este artigo tem interpretações subreptícias que moi même je enquanto “fashion icon” não consegue apreender.

  8. joaõ XXI diz:

    O Kamarada da Kapital foi à provincia.
    Saiu da praça vermelha e foi à Sibéria, estava frio não era e vento e neve.
    Os extremos tocam-se, para Salazar o Portugal profundo era a PROVINCIA e o mesmo acontece na EXTREMA Esquerda, que também considera o PORTO o Portugal Profundo, por mim tudo bem.

  9. Pedro diz:

    “O carro da empresa serve. Ass.:AF”

    O caraças, mas é! ainda mo roubam! eu lá só vou em comboio de jipes turbo, com batedores do exército. Eu até tremo só de pensar que um dia o meu carro avaria na berma da A1. Você viu o Deliverance?… hhmmm… espero que não tenha sido enrabado por tocadores de banjo desdentados… mas a gente discute isto depois no Grémio Literário ou no Frágil

    Tou a brincar, mas o seu post foi mesmo engaçado. Fez-me vagamente lembrar uma crónica antiga da Mena Mónica (pré net), em que esta se manifestava agradavelmente surpreendida por descobrir que os minhotos manejavam com destreza faco e garfo.

  10. Daniel Marques diz:

    Caro Pedro,

    Não é necessário gastar tanta gasolina para ver possidónias feiosas. Basta ir ao Colombo. É melhor levar algumas patrulhas a pé caso se perca.

  11. Ricardo Santos Pinto diz:

    Foste ao Porto? E não foste atacado pelos bárbaros? Sentiste-te bem rodeado por gente daquela?

  12. Pedro diz:

    Caneco, o António Figueira foi mesmo raptado pelos rednecks, algures entre Santo António dos Cavaleiros e a Ponte da Arrábida…

    E ó sô Ricardo, qué lá isso? Há lá pelo Porto bons e civilizados burgueses com rádios potentes capazes de captar as ondas hertzianas das rádios de Lisboa para ouvir música decente!

  13. Pingback: cinco dias » Círculo de prosa: Isto não existe

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