Círculo de Prosa: Campanha do Norte

Fui toca e foge ao Porto, uma viagem coroada de sucesso, diriam os jornais se tivessem sabido, um rabo e duas orelhas, o correspondente tauromáquico, splende tutto!, o crítico operático. Na volta, a meteorologia prometia aguaceiros, mas choveram picaretas. Algures na região Centro, ouvi numa rádio local o clássico “Não há nada para ninguém”, de Mário Mata, um estranho cruzamento de Jorge Palma com Quim Barreiros que eu julgava devidamente apagado da nossa memória colectiva, mas que pelos vistos ainda tem os seus cultores: tive vontade de conhecer o local da rádio e fiz um desvio na saída seguinte da auto-estrada para beber um café, que me foi servido por uma senhora muito feia e mal amanhada que usava uma t-shirt que dizia “I’m a Fashion Icon”: batia tudo certo, o país profundo nunca desilude. Retomei a viagem apenas para descobrir à chegada a morte de Mussolini Fajardo, o último taxidermista de Lisboa: quem empalhará agora as patas de raposa do meu amigo? É o Velho Mundo que se desmorona, e é Desidério Murcho que ficará um pouco mais sozinho, na requintada poesia do seu nome.

Sobre António Figueira

SEXTA | António Figueira
Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

13 Responses to Círculo de Prosa: Campanha do Norte

  1. Pingback: cinco dias » Círculo de prosa: Isto não existe

Os comentários estão fechados.