«Aldrabice ou matreirice sem vergonha», ou como José Sócrates mentiu descaradamente


Retomo o tema do «post» do Carlos Vidal, «Aldrabice ou matreirice sem vergonha», a propósito do relatório encomendado pelo Governo sobre as reformas do ensino em Portugal.
Ontem, em toda a comunicação social, era vendido que a OCDE fez um estudo, no qual elogiava as reformas do Governo português em matéria de sistema de ensino. No «site» do PS, como muito bem anotou o Carlos Vidal, referia-se que «Relatório da OCDE elogia política da Educação do Governo PS».
E ao dizer que se tratava de um relatório da OCDE, o primeiro-ministro mentiu. Eu ouvi. O meu pai costuma dizer que quem mente é mentiroso. Assim mesmo, com todas as letras.
O que não disse José Sócrates é que as conclusões do relatório foram baseadas num relatório prévio elaborado pelo Ministério da Educação.
O que não disse José Sócrates foi qual a composição do grupo de trabalho que elaborou este relatório. O Presidente, Alexandre Ventura, é o Presidente da Comissão Científica da Avaliação de Professores. Os quatro peritos portugueses (João Formosinho, grande defensor das políticas do Ministério, Isabel Alçada, directora do Plano Nacional de Leitura, com sede na 5 de Outubro, e personalidade muito próxima do Governo, Rosa Martins e Lucília Salgado) são militantes do PS ou estão muito próximos do Partido.
O que não disse José Sócrates foi que o título do relatório é «Avaliação internacional para o Ministério da Educação», que foi editado pelo GEPE – Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação, que foi executado graficamente na Editorial do Ministério da Educação e que, no final, aparece a anotação «Relatório para o Minstério da Educação».
O que não disse José Sócrates é que essa tal de Deborah Roseveare (quem o ouviu, pôde constar o seu excelente Inglês Técnico) escreveu apenas o prefácio e não é autora de qualquer relatório.
O que não disse José Sócrates é que foram ouvidos sete concelhos portugueses, dos quais seis são presididos pelo PS (Guimarães, Santo Tirso, Amadora, Ourique, Lisboa, Portimão) e o sétimo (Gondomar) por um independente, Valentim Loureiro, que se tem destacado nos elogios à Ministra da Educação e ao Primeiro-Ministro.
E logo Gondomar! Azarito. Eu vivo em Rio Tinto, no concelho de Gondomar, e conheço vários familiares e amigos que leccionam nas sacrossantas AEC’s – Actividades de Enriquecimento Curricular, a jóia da coroa da Ministra da Educação. Melhor do que ninguém, eles conhecem a excelência da «escola a tempo inteiro».
Em Gondomar, os professores só recebem as horas que trabalham, em contratos de nove meses, renovados ou não todos os anos. Se faltarem, seja por que motivo for, não recebem – seja por uma consulta médica, seja pela morte de um familiar, seja por assistência a filho menor, seja pela realização de uma ecografia pré-parto, seja simplesmente porque é feriado (direitos básicos de qualquer cidadão). Recebem 10 euros por hora, embora haja outros concelhos, como Cinfães (também PS), que só pagam 7. E outros menos ainda.
Em Gondomar, estamos a iniciar o mês de Fevereiro e ainda não chegaram os manuais escolares para todos os alunos.
Em Gondomar, há escolas onde não existe mais do que um rádio. Se vários professores, de Inglês, por exemplo, precisarem de fazer aulas com rádio ao mesmo tempo, têm de levar o seu próprio material.
Em Gondomar, algumas aulas de TIC são dadas com 6 ou 7 computadores para turmas com quase 30 alunos.
Em Gondomar, há escolas que não têm pavilhão e alunos que têm actividade física no recreio, perturbando as aulas que decorrem dentro das salas. Quando chove, ficam na sala a fazer alguns exercícios (os possíveis dentro de uma sala repleta de mesas e cadeiras), a pintar desenhos ou a ver filmes.
Em Gondomar, ter pavilhão nada significa. Muitas vezes, funciona como cantina durante o almoço. Assim, as aulas são dadas com cheiro a comida, às vezes em mesas cheias de gordura. Também há salas de aula transformadas em cantinas. Noutras ocasiões, no mesmo pavilhão estão duas ou mais turmas a ter actividades ou aulas de apoio em simultâneo.
Em Gondomar, nem sempre há material para os professores de Educação Física usarem. Alguns compram-no do próprio bolso.
Em Gondomar, muitas escolas não têm aquecimento, apenas pequenos aquecedores a óleo que não aquecem nada.
Em Gondomar, os funcionários são poucos, mal pagos e têm muito trabalho: controlar entradas e saídas de alunos e professores, tomar conta nos recreios, fazer curativos, limpar a escola, servir refeições, arrumar a cozinha, tratar das louças, etc). Muitos desses funcionários (desempregados contratados pela Junta de Freguesia) são tarefeiros e têm horários que chegam a ser de duas (?) horas por dia. Escusado será dizer que levam uma fortuna para casa no final do mês.
Rico exemplo, o de Gondomar, sim senhor – exemplo acabado da excelência das políticas educativas do Ministério de Maria de Lurdes Rodrigues. Isso, José Sócrates não disse.
Para o senhor Major não ficar aborrecido comigo (mesmo não sendo eleitor do seu concelho, mas sim do Porto), sempre direi que o concelho de Gondomar, no que toca às actividades extra-curriculares, nem sequer é dos piores. E direi também que é verdade que a Câmara tem feito um esforço, a nível de instalações, para melhorar as condições dos seus alunos.
Mas sendo, ainda assim, muito mau, não se percebe por que razão serve de exemplo para um tão propalado e elogiado relatório.
Um relatório que, apesar do que dizem aqueles que mentem, não é da OCDE.

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10 respostas a «Aldrabice ou matreirice sem vergonha», ou como José Sócrates mentiu descaradamente

  1. Carlos Vidal diz:

    O que é espantoso é que esta descrição, feita de verdadeiro conhecimento do terreno, é muito provavelmente semelhante às condições dos outros concelhos. Todos os outros do PS. E como é que isto dá resultados maravilhosos? Como é que um indivíduo se congratula com a desgraça dos outros, ele que estudou numa magnífica universidade (UNI), que apenas teve o azar de ter de fechar sem que se saiba porquê, pois pedagógica e cientificamente era exemplar.

  2. na página do PS online já fizeram como o estaline: alteraram a história

  3. LAM diz:

    “na página do PS online já fizeram como o estaline: alteraram a história”
    Pois muito bem, mais do costume. Se dessa forma foi feita também a licenciatura do 1º ministro…
    Ah grande Ceaucescu!! nunca imaginaste ter seguidor 30 anos depois…

  4. Luis Moreira diz:

    Mas temos que reconhecer que o relatório está muito bem redigido e que tem um prefácio de uma senhora directora da OCDE!

  5. Carlos Vidal diz:

    Temos de reconhecer sim, e até a Ordem dos Engenheiros vai ter de o reconhecer um dia. Quando a UNI reabrir. Para breve. Prometo.

  6. helderega diz:

    Mas afinal o que dizia o relatório? Ouvi dizer que a ministra até fez umas coisas de jeito ou ficou tudo na mesma ou pior?

  7. Raquel diz:

    Para que conste: nunca andei em Napoles e sempre detestei lambrettas, italianos, comunas, (falam demais e sempre muito alto) e aquelas coisas estranhas chamadas “pastas.” Cozinha de pindérico é o que é.

  8. helderega diz:

    Obrigado Ricardo, mas já li (na diagonal) e acho que não se trata de uma verdadeira avaliação, mas sim um conjunto de opiniões, algumas pouco fundamentadas (p.e.:indícios de que as coisas estão a melhorar a matemática), com que muitas das quais eu concordo, ou seja, houve uma clara melhoria no 1º ciclo. Eu percebo que a questão que quer discutir não é esta, porque não lhe interessa para nada. Mas, já era tempo de se mudar de agulha, pois neste país nunca se discute o essencial e acredite que a educação é dos temas mais importantes para o futuro deste país, se não o mais importante.

  9. ocde diz:

    relatorio ocde

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