Dificuldades escolares: o deserto

Respondendo ao texto do Pedro Ferreira e transpondo para o caso português, para os alunos com dificuldades na escola, existe o deserto. Ah, é verdade, e as aulas de substituição.
Com efeito, criar verdadeiros dispositivos de ajuda para os alunos em dificuldades fica caro. E o Governo, que é muito bom a sacar da máquina calculadora, concluíu que bastaria meter os alunos dentro das salas quando um professor falta e, dessa forma, o problema estaria resolvido.
A solução poderia ter sido criar aulas de apoio individualizado a todas as disciplinas para todos os alunos em dificuldades. Uma espécie de sistema paralelo de explicações dentro das escolas, a iniciar-se logo na primeira semana do ano lectivo para os alunos que tivessem registado níveis negativos, no ano anterior, às diferentes disciplinas. Assim se ocupariam os professores de forma minimamente construtiva, assim se ajudava realmente os alunos a vencer as suas dificuldades.
Vai havendo aulas de apoio a Português e a Matemática, já há muitos anos, mas é algo de muito caótico. E se o aluno altar um número pré-determinado de vezes, perde esse apoio. E se o Encarregado de Educação não autorizar, o aluno não precisa de ir. São professores iguais aos outros, não especializados, que prestam esse apoio.
Quanto ao ensino especial, a situação é igual. Muito recentemente, já durante o consulado desta Ministra, quarenta mil alunos com Necessidades Educativas Especiais perderam o direito ao estatuto que tinham. Para reduzir custos, claro. E muitas vezes, são professores sem formação, professores não-especializados, a lidar com alunos muito especiais.
Ao contrário do caso francês, os problemas na educação resolvem-se, em Portugal, com psicologias ou pedagogias. Para os alunos, claro, que podem contar com um Estatuto muito mais permissivo. Já para os professores, é com autoridade e trabalho que os problemas se resolvem.

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6 respostas a Dificuldades escolares: o deserto

  1. HelderEga diz:

    “A solução poderia ter sido criar aulas de apoio individualizado a todas as disciplinas para todos os alunos em dificuldades. Uma espécie de sistema paralelo de explicações dentro das escolas, a iniciar-se logo na primeira semana do ano lectivo para os alunos que tivessem registado níveis negativos, no ano anterior, às diferentes disciplinas.”

    Isto já está previsto no Despacho Normativo 50/2005, mas a sua aplicação na escola deixa muito a desejar!

    “E muitas vezes, são professores sem formação, professores não-especializados, a lidar com alunos muito especiais.”

    Muitas vezes não. Quase sempre!

    “…os problemas na educação resolvem-se, em Portugal, com psicologias ou pedagogias”

    Esta frase de converseta de café que dizer exactamente o quê? Que se devem resolver com economias e engenharias? Explique lá isso sff (se conseguir).

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      HelderEga,

      Decorria da conversa com o Pedro Ferreira. Que aqui, em Portugal, os alunos são sempre os coitadinhos, que, por pior que façam, têm sempre de ser apoiados e defendidos. Não sabem nada, mas devem passar sempre, senão vão perder os seus colegas e isso vai traumatizá-los. Agridem um professor Pedagogicamente, é errado culpABILIZÁ-LOS E CASTIGÁ-LOS, SENÃO AINDA SE sentirão pior.
      Era mais ou menos neste sentido.

  2. HelderEga diz:

    Se acontece isso nas escolas portuguesas está errado. Mas o que é que a pedagogia e a psicologia têm a ver com isso?

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Exactamente. Nada. Mas a frase não foi minha, foi do Pedro Ferreira no «post» anterior. Leia por favor, senão não se entende.

  3. Pedro Ferreira diz:

    Caros Ricardo e HelderEga, a minha frase é simplesmente uma constatação da actual política do ministério francês da educação que tem o maior desprezo pelas abordagens psicológicas e pedagógicas dos problemas.
    Muitos alunos têm problemas graves de escolaridade para os quais o estrito trabalho de ensino não chega: problemas de concentração, falta de método de trabalho, desrespeito pela autoridade, etc. Nesses casos é necessário uma abordagem pluridisciplinar, é exactamente esse o trabalho dos re-educadores que menciono no meu artigo. Esta abordagem é completamente diferente de um tratamento desresponsabilizante que refere o Ricardo.

  4. diz:

    “Uma espécie de sistema paralelo de explicações dentro das escolas”

    já existe. chamam-se aulas.

    “alunos muito especiais”

    chamam-se burros/preguiçosos/etc.

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