A berlusconização do poder

A blogosfera socialista é uma realidade surpreendente. Há-os militantes, ajuizados e silenciosos, os que remetem e apelam à fé no homem e os que se lançam ao ataque. Os últimos são os mais criativos.
Já aqui salientei o sempre inspirado André Salgado que vê nisto tudo uma maquinação do PSD, CDS-PP, PCP e BE, ignorando que, de acordo com o ex-líder do CDS PP de Alcochete Zeferino Boal, estranhamente, Paulo Portas não quis que denunciasse o caso (ler a notícia).
Para Vital Moreira a culpa é do jornal que divulga, do Procurador que não se despacha, dos media em geral, e das Câmaras Municipais e para Osvaldo de Castro um assassinato de carácter.
Os socialistas fazem frente e estão ao ataque. Dos que falam, ninguém tem dúvidas.
Contudo, se é verdade que a maior parte das trapalhadas que têm vindo a público sobre José Sócrates, como o caso da sua licenciatura ou a utilização abusiva de um título profissional, se podem circunscrever a uma análise ética e/ou jurídica, a que está em cima da mesa é uma questão pública e política. Por isso, mais do que discutir a validade da decisão de um governo em gestão, é urgente perceber se o bem público foi salvaguardado.
Se é urgente que José Sócrates esclareça o que já aqui escrevi (a minha avaliação, em matéria de fé, guardo-a para mim), é fulcral que as entidades públicas competentes esclareçam as matérias do foro público, que nenhum segredo de justiça pode barrar, como por exemplo: que alterações de projecto existiram e em que medida resultam da intervenção dos organismos municipais e/ou do governo; quais foram os motivos e condições para a alteração da Zona de Protecção Especial; que pareceres favoráveis e desfavoráveis obteve o projecto.
Neste domínio, as explicações do antigo Secretário de Estado, sabem a pouco. Neste momento, a regularidade dos procedimentos administrativos é secundaria, em face de poder estar em causa um acto de corrupção.
O que deve ser publicamente esclarecido são os fundamentos técnicos e políticos das decisões tomadas.
Por último, começa a ser uma atitude política particularmente relevante que, à imagem do que sempre fez Berlusconi, quando são lançadas dúvidas sérias sobre a conduta dos actuais actores políticos, e designadamente do primeiro ministro, a sua resposta seja a de lançar a dúvida sobre quem investiga e não esclarecer o que se passou.

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10 respostas a A berlusconização do poder

  1. Carlos Vidal diz:

    O Vital M. é uma das pessoas com menos vergonha e escrúpulos que passeia por aí (como o Santana, mas para pior). Ele tem a desfaçatez de acusar o SOL e não tocar no PÚBLICO que tb entra na “campanha suja”. Poderia, claro, começar por abandonar o PÚBLICO. Porque é que não o faz??

  2. Tiago Mota Saraiva diz:

    Carlos isso é que era uma decisão à séria!
    Já estou a ver os títulos:
    “Honestos militantes socialistas deixam o Público, acusando Belmiro de receber ordens da Soeiro”
    “Eurosondagem dá maioria absoluta da credibilidade ao Diário de Notícias”
    “Ver O Sol só atrás das grades” – grita a Juventude Socialista

  3. JCP diz:

    se lhe sabem a pouco porque não lhe escreve uma cartinha com todas as suas perguntas?

  4. miguel dias diz:

    Sinceramente não percebo as indignações do Tiago, acerca da reacção de certos quadrantes da blogoesfera ao caso freeport. O Tiago não conhece a expressão vernacular que nos ensina a não cuspir no prato da sopa? Ora isto é tudo gente bem educada. Eu, se estivesse no lugar deles faria o mesmo. Isto é, pelo menos abstinha-me de comentar. Entre uma explicação cabal, que deveria ser reclamada com serenidade, prefere-se uma explicação cabalística, bem mais apropriada à nossa realidade. Aliás como não confiar nas teses de instrumentalização política da justiça em particular do ministério público. Não desta magistratura que escaparam como por magia segredos de justiça que, em vésperas de eleições para secretário-geral do PS, envolveram Ferro Rodrigues e o seu delfim Paulo Pedroso, no caso casa-pia, um dos mais vis casos de assassinato político da história da nossa jovem democracia.
    Mas eu não me preocupava muito com os efeitos eleitorais deste caso, se no afairre casa-pia estávamos a 2 meses das eleições e tínhamos que lidar com a morosidade da justiça portuguesa, neste caso ainda faltam cerca de dez meses e está envolvida a justiça inglesa, uma bocado mais expedita que a nossa, o que permitirá esclarecer que tudo isto não passa de equívoco ainda a tempo de se ganharem as eleições.
    O Tiago, estabelece apropriadamente uma analogia com o caso Berluscosni. Deixem-me recordar outro, aqui ao lado, quando Baltázar Garzón começou a investigar o caso Gal. Depois de uma ingénua passagem pelo governo de González, com a qual se pretendia comprar o seu silêncio, ao retomar a investigação do caso iniciou-se uma campanha de desacreditação pública movida por González, que inclui, para além de ameaças, a mais torpe tentativa de descobrir podres na vida do juíz: se frequentava casas de má-fama, se tinha inclinação para a homossexualidade,se fumava charros, se alguma vez tinha cuspido para o chão ou se tinha estacionado mal o carro. Felizmente não descobriram esqueletos no armário. Mas que os tinha, tinha.

  5. A técnica Vileda (limpa-tudo) está em marcha.
    Mais dois ou três dias e já ninguém fala no assunto…
    O gajo vai safar-se novamente, como aconteceu com o caso da pseudo-licenciatura.
    Este país é um espanto – e tem o que merece!
    Se viveu 48 anos de “longa noite fascista”, por que motivo não há-de viver outros tantos de “longa noite socretinista”?

  6. miguel dias diz:

    Curioso este texto do VM
    http://causa-nossa.blogspot.com/2009/01/freeport-2.html
    Numa análise à Poirot. vejamos que tinha motivos para “assassinar”:
    – O PSD, que queria denegrir o chefe da oposição.
    – Sócrates que queria assumir a liderança do PS.

    No primeiro caso, é de se dizer que o crime não compensa.
    No segundo, o crime compensou.
    A terceira hipótese, que poirot não descarta: estava o mordomo nesse dia?

  7. De Facto, mau saque! Deviam ter exigido no mínimo a Coroa da Rainha, né. Esse é que é mesmo o a estupidez toda de tudo isto.

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