Ainda a propósito de notas e partituras

A conversa que aqui se desenvolveu fez-me recordar uma história contada por Artur Rubinstein. Em 1906, este pianista iniciou a sua primeira tournée pelos EUA. 75 recitais, começando pelo Carnegie Hall, onde tocou com a orquestra de Filadélfia, com Fritz Scheel. Depois de um êxito retumbante nos palcos da Europa continental, onde era especialmente adorado pelos melómanos latinos e eslavos, chegou a desilusão. Segundo Rubinstein, «aí foi uma história diferente. Eles gostavam de quem tocava com precisão. Pagavam bilhetes para os concertos e achavam-se com direito a ouvir todas as notas. Como eu por vezes só tocava trinta por cento das notas, sentiram-se enganados. Os críticos toparam-me.”

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9 respostas a Ainda a propósito de notas e partituras

  1. Carlos Vidal diz:

    Sentido de humor imbatível.
    Ele sabia que as suas trinta por cento valiam mais do que os cem por cento de quase todos os outros.

  2. “Eles gostavam de quem tocava com precisão. Pagavam bilhetes para os concertos e achavam-se com direito a ouvir todas as notas. Como eu por vezes só tocava trinta por cento das notas, sentiram-se enganados. Os críticos toparam-me.”

    Muito significativo. Bendita ética protestante.

  3. Por outro lado, interpretar uma peça só com trinta por cento das notas revela uma notável capacidade de síntese… É uma outra obra de arte. É a versão dele, do Rubinstein. Não acho inválido. A arte não é uma ciência exacta.
    Agora gosto do espírito de pedir prestação de contas. Ninguém escapa. É disto que eu gosto na América.

  4. Cecília diz:

    Sem querer entrar nas picardias (é capaz de ser suave…) entre o FM e o CV, há uma questão que me parece valer a pena pôr ao Filipe – tem a certeza que gosta de ouvir música?

  5. Carlos Vidal diz:

    Olá Cecília Costa.
    Julgo estar a falar com a artista Cecília Costa, de quem eu conheço e gosto do trabalho, é isso?
    Sim ou não, fizeste a pergunta certa.

  6. miguel dias diz:

    Segundo o Filipe Moura , os eslavos e latinos cultivam a ética protestante. Isto é uma novidade totalmente nova para mim. Elucidem-me por favor.

  7. Luis Rainha diz:

    Mesmo sem procuração do Filipe, posso responder que, tanto quanto sei, ele gosta bastante de música. Será estranho num cientista?
    Quanto à elucidação pedida, repare-se que Rubinstein falava da recepção que recebeu nos EUA.

  8. Miguel Dias, a novidade (decepcionante) para mim é que você não sabe ler bem. Acha mesmo que eu me referia aos eslavos e aos latinos? Quem são “eles”?

    Cecília, gosto muito de ouvir música. Gosto sobretudo do João Gilberto, que desafina como o raio que o parta. Ele não desafina, aliás: a música é que não o segue. Mas se me sucedesse o que sucedeu há uns anos no Coliseu dos Recreios (tocou duas ou três músicas e foi-se embora porque naquela noite “não dava mais”), exigia o preço do bilhete de volta. Vi-o no Carnegie Hall, em 2000, onde a Bossa Nova se internacionalizou. Aí ele tocou a noite inteira e tiveram que o mandar parar. Está a ver a diferença? Há que ter a rédea curta com estes artistas temperamentais. Bendita ética protestante.

  9. miguel dias diz:

    Tem toda a razão, pelo que lhe peço desculpa.

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