Na fossa

Quando José Sócrates chegou ao poder, escrevi algo como «julgo saber por que diabos não me consigo irritar muito com o governo de Sócrates. É que ele terá sempre a seu crédito ter restaurado a decência e credibilidade do nosso Estado, ao desinfectar o governo do demente Santana Lopes e dos seus parceiros de coligação tão amigos de empreendimentos turísticos e de concursos públicos fechados a correr. Vai demorar uma cabazada de asneiras até que Sócrates consiga esgotar este capital de gratidão.»
Afinal, a minha santa inocência nem me deixava ver o quão pouco esta malta se distinguia do bando de gafanhotos disfarçado de agremiação política que era o PP. Agora, no que é apontado como uma sinistra cabala em vésperas de eleições (emulação clara do comportamento de Paulo Portas, quando acuado), o caso Freeport mostra-nos um governo demissionário que aprova a correr um projecto destinado à polémica. Revela-nos que os ingleses sabem bem como apressar as coisas nestes países manhosos. Desvela-nos mais uma família muito solidária e com portas abertas para os corredores do poder. Deixa-nos a pensar nas conclusões para que a crescente pilha de indícios aponta. Tudo no pior momento possível – mas os rastilhos não reconhecem conveniências alheias; limitam-se a caminhar para a desgraça ao seu passo.
E, acima de tudo, a vergonha de mais uma vez cair nas esparrelas da esperança de que pode ainda haver na política, sobretudo no “nosso” lado, quem acredite em princípios, valores e ética. Afinal, a alma lusa talvez seja mesmo assim, incapaz de engendrar líderes de uma outra cepa. E talvez estejamos mesmo fadados a vaguear entre pântanos e fossas.

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