A análise política da resposta do primeiro ministro ao Caso Freeport

O comunicado de ontem à noite ou as declarações de Sócrates de hoje, não fazem sentido e são politicamente graves:

1. Perante este caso, que cruza a justiça portuguesa com a inglesa e cujos contornos já são públicos, o primeiro ministro deve tornar esclarecer quando e onde teve reuniões sobre o referido processo, em que condições e com que objectivos foram realizadas as referidas reuniões;
a) O primeiro ministro não pode dizer que, enquanto ministro, reunia com promotores imobiliários a pedido de presidentes de câmara;
b) O primeiro ministro não pode dizer num dia que nunca reuniu (5ª feira) e no dia a seguir desmentir-se;

2. O primeiro ministro não tem que responder publicamente, se o seu tio ou sobrinho lhe pediram favores, o que tem de tornar público é se alguma vez reuniu com os donos do Freeport e os seus familiares com que objectivos e em que condições;
a) O primeiro ministro não pode dizer que não se lembra se o seu tio lhe pediu ou não um favor porque, se assim é das duas uma, ou os seus familiares lhe pedem muitos favores ou tem uma doença grave que lhe provoca ausências de memória;
b) O primeiro ministro tem de esclarecer publicamente se, na reunião que hoje disse ter tido com os donos da Freeport, também estaria presente algum seu familiar ou representante e não pode dizer que não se lembra;

3. O primeiro ministro não pode lançar a suspeita que a investigação é retomada por estarmos a entrar em período eleitoral, porque quanto mais não seja, revela que acredita que o ministério público possa ser influenciado por pressões políticas. Numa altura em que a maioria dos portugueses acredita que possam ter existido graves e bem sucedidas pressões políticas em diversos casos mediáticos – Casa Pia, Portucale, Moderna, Independente, as suas declarações são um tiro no pé.

4. Perante este caso, de tamanha gravidade, os portugueses não querem saber a opinião do primeiro ministro ou se se sente ou não abalado. O primeiro ministro tem de tornar públicos factos, que se provem verdadeiros.

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22 respostas a A análise política da resposta do primeiro ministro ao Caso Freeport

  1. Clap, clap, clap.

    Uma excelente análise 🙂

  2. e a arquitectura, tiago? a bela arquitectura?

    j

  3. curiosa esta propensão do nosso primeiro pela construção civil e “desenho” de arquitectura.
    a psicanálise será talvez capaz de explicar esta delicada concordância das actividades de josé sócrates com uma das indústrias mais tipicamente nossas e onde melhor se aflora a nossa “pequena” aldrabice colectiva.

    j

  4. Spartakus diz:

    Somos governados por um gangue. Ponto final.

  5. Tiago Mota Saraiva diz:

    Caro joão, é tudo tão grave que a discussão da bela da arquitectura fica, mais uma vez, adiada. Mas olha que os arquitectos que esquecem a arquitectura lá estão! E não é só o projectista, parece que há uma arquitecta pepe-rápido no processo.

  6. postei alguns dos pressupostos teóricos e críticos que terão contado nas opções de projecto.

    j

  7. Waiwan diz:

    Só há uma maneira de acabar com estas promiscuidades: içar o PCP ao governo deste país. Com o Jerónimo a primeiro-ministro estes cambalachos acabavam de vez.

  8. Pingback: O caso, tal como ele deve ser colocado « BLASFÉMIAS

  9. teresa diz:

    Mas porque raio é que o ministerio do ambiente, ou um primeiro ministro não se pode reunir a pedido de um presidente da camara com o mesmo e os promotores do projecto para tomar uma decisão?
    E já li em qualquer lado quem estava na reuniao e não se referiam a familiares. É preciso alguém vir mais esclarecer?

    É só complicados e tricas para confundir.

  10. GL diz:

    “Só há uma maneira de acabar com estas promiscuidades: içar o PCP ao governo deste país. Com o Jerónimo a primeiro-ministro estes cambalachos acabavam de vez.”

    AHAHAHAHAHAHAHAHAHAH… pois, no PCP não há corrupção. Aahahahahahahahahah

  11. andré silva diz:

    O que o Sr Ministro tem de explicar é porque não deu ordens para afastar os seus familares de um negócio em que a sua concretização dependia de si ? E se não deu por alinhou nos seus pedidos ?

  12. L ROSA diz:

    Pois é!
    Até já viram o 1º Ministro com “UMA MALA PRETA CHEIA DE NOTAS”
    ao que se julga, desta vez foi filmado e tudo…..
    Isto segundo fontes,
    de Belém…
    e do SOL…

  13. zzeluis diz:

    Então se ele nem o professor Morais conhecia…

    Um gajo, mesmo PM, não se pode lembrar de tudo!

    E a reunião com o(s) inglês(es), que idioma terá sido, tecnicamente, utilizado?

  14. Tiago Mota Saraiva diz:

    Waiwan e GL, continue-se a votar PS para que possamos viver todos em paz e… protegidos.

    Teresa, claro que o primeiro ministro pode reunir com promotores a pedido de um presidente de Câmara. O que refiro é que devem ser esclarecidas as circunstâncias e objectivos em que a reunião foi tida. Sobre a presença de familiares seus na reunião, já ouvi Sócrates dizer que não se lembra.

  15. CAA diz:

    Discordo do ponto 3.
    Quem não tem receio de que o MP possa ser pressionado, politicamente ou por outros interesses, anda excessivamente distraído.

    Há, indesmentivelmente, uma coincidência eleitoral nestas investigações – constatá-la não é condenável. Pedir celeridade na investigação também.
    O dono do MP, o indefectível D. Cluny, é que já se esqueceu do direito fundamental inscrito no n.º 5, do art.20.º da CRP…

  16. joao pereira diz:

    Costumo ver os debates na assembleia,e o que mais escuto é o sr.primeiro ministro dizer que tem uma memória do outro mundo.Ontem teve lapso de memória a mim disse-me tudo o que queria saber.tenham uma muita boa tarde.

  17. observateur diz:

    Alguém me sabe explicar porque é que o projecto do Freeport tinha chancela da Broadway Malyan (estive com os ficheiros do projecto abertos no PC do sítio onde à data trabalhava) e agora aparecem outros nomes ligados à arquitectura do dito…?

  18. Tiago Mota Saraiva diz:

    CAA, há quem acredite que o Ministério Público sofre influências políticas e, admito, que o próprio José Sócrates assim o pense. O primeiro ministro é que não o pode dizer. É uma questão de Estado, que não prova nada, e que pode reverter contra o próprio noutros processos.

    observateur, não faço ideia. Sobre os procedimentos deste projecto, ainda não percebi nada e estranho que o atelier de arquitectura que fez o projecto tenha sido alvo de buscas. Não se percebe para quê!

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