Um cérebro mecanicamente formatado tem três suspeições: arte, especulação filosófica e religião (respondendo ao Vasco Barreto-jugular)

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A pianista Martha Argerich

Acompanhei por acaso uma discussão absurda no Jugular onde João Galamba estava sozinho a tentar defender um lugar para a especulação filosófica contra os ataques absolutistas e mecanicistas da razão por parte de Palmira Silva, pontos de vista, os desta última, de uma aridez e secura confrangedoras. Mas nem sempre João Galamba tem argumentado eficazmente, com efeito. No meio de um comentário a um post desta questão que já tratei aqui no 5dias, comparei Palmira Silva a uma pessoa sem qualquer sensibilidade de fruição artística que se senta numa sala de concertos munida de uma partitura. Qual máquina, da obra nada diz nem sente, e apenas confere: aqui houve uma nota errada; aqui duas notas erradas; aqui neste grupeto faltam duas notas; outra nota errada; uma pequena desafinação nesta passagem; ah, falta o mi bemol, etc, etc, uma máquina sem sentimentos e sem sentidos que verifica e nada sabe do “ser” da obra no seu todo, nem nada concebe dessa mesma obra. Não estava a encetar uma discussão sobre teoria musical, nem nada que se parecesse. Estava a fazer uma comparação ou a ilustrar onde nos pode conduzir uma visão absolutista da ciência e do mundo submetido aos ditames da ciência. De repente, a despropósito, Vasco Barreto decide perguntar-me se eu sei ler música. Não sei, repito, a que propósito veio a pergunta, mas respondi-lhe que sim. Sei ler e interpretar. Depois, levo logo esta “porrada” (continue, leitor, que não se arrependerá) :

“o melómano que sabe ler música e usa a partitura para aumentar o gozo do que está a ouvir, por aquilo que a partitura vai esclarecendo e mostrando, na imaginação de Vidal é um híbrido de fiscal e revisor, apenas preocupado em ver se o músico “deu o mi bemol”. Não há sinceramente pachorra para este registo” (Vasco Barreto). 

Em primeiro lugar, eu não me referi ao melómano que usa a partitura para ampliar a fruição da peça, nem, por exemplo, ao músico que se deleita com a interpretação do seu colega, conhecendo ambos a mesma obra. Eu utilizei uma imagem para criticar a aridez de pensamento científico absolutizado de Palmira Silva e o Vasco vem discutir o tema de uma partitura comigo. Não percebi a relação!

Entre outras coisas falei-lhe de um caso passado num conhecido concurso: no Concurso Internacional Chopin, 1980, a enormíssima pianista Martha Argerich, então jurada, ficou furiosa pela desclassificação de Ivo Pogorelich, que ela considerou desde logo “um génio”. Pelos vistos, os outros jurados não foram da mesma opinião. Eu, humildemente, conhecendo Argerich, confiaria nela. Creio estarmos perante um problema que nenhum cientista pode resolver (a frase até é estúpida, pois a ciência não tem aqui lugar), nem mesmo a partitura da obra interpretada. Há algo na música que transcende a partitura. O Vasco chamou-me, por aquilo que eu disse, obscurantista, o que é absurdo, pois aqui devo dizer que a maximalização da partitura musical é de uma monstruosoa ignorância. Eu explico.

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O pianista Ivo Pogorelich: dandy ou génio? Para responder à questão as partituras “sagradas” de Vasco Barreto para nada servem.

O que é uma partitura? É uma rememoração para a interpretação, cabendo à interpretação uma elevada dose de subjectividade. Mais detalhadamente, uma partitura é uma representação pentagramática (repetindo várias vezes o grupo de 5 linhas por cada instrumento interveniente na obra, proporcionando uma leitura “horizontal”, de acordo com o papel de um instrumento durante essa obra, e uma leitura “vertical”, considerando a simultaneidade das acções dos vários instrumentos ou naipes – tentei ser o mais claro que consegui, e peço desculpa por algum lapso apressado). Genericamente, uma partitura é uma representação escrita de uma obra musical. O que o Vasco não disse no seu texto foi que a partitura, tal como hoje a conhecemos, é uma invenção nova, o que não impede de admirarmos o canto gregoriano, por exemplo. Ora o sistema moderno de notação musical tem precisamente origem no século VIII ou IX e na notação gregoriana, que não vou aqui explicar pormenorizadamente, até porque não sou historiador da música nem musicólogo. Acrescento apenas que a notação gregoriana era insuficiente e a sua informação era escassa, pois com essas indicações a obra dificilmente poderia ser interpretada por quem não estivesse familiarizado com a obra em causa.

Qualquer pessoa, minimamente informada nestes temas, sabe que a partitura moderna, com a notação exacta de hoje, nasce no século XVIII. Ora, toda a música anterior a essa época requer, para ser “correctamente” ou “filologicamente” interpretada com acerto, requer, dizia, complexos processos de investigação e reconstituição. Desde os anos 50 do século XX, eu destacaria dois nomes desse tipo de músico-investigador, talvez os dois mais destacados senhores da “música antiga” desse tempo, ambos activos presentemente: Nikolaus Harnoncourt e Gustav Leonhardt. Muitos mais nomes poderiam ser avançados até hoje (Alessandrini e Spinosi, para citar dois da minha eleição presente), mas não quero maçar ninguém.

Quero apenas referir pontos, digamos, alguns pontos onde um entendimento mecânico (“científico”, “objectivo”, diria Palmira Silva) da partitura para nada serve.

Sabe-se que uma partitura musical não pode dar indicações exactas acerca de variantes que, como variantes, estão à responsabilidade do intérprete, como em processos dinâmicos como os rallentandos, accelerandos, rubatos, etc. Além disso, sobretudo no barroco musical, há todo um conjunto de processos ornamentais que ilustram bastante bem a liberdade do intérprete. Também aqui a leitura da partitura de nada serva, ou serve de muito pouco, como devia saber o Vasco.

Cineticamente, digamos, uma partitura não indica com precisão matemática (e com pena de Palmira Silva, creio) os tempos que um maestro ou intérprete deve seguir perante indicações como Grave, Largo, Andante, Allegro, Prestíssimo, etc. Sabe-se até que um dos maestros do século, Leonard Bernstein, no seu chamado (pela crítica) Late Style tinha por hábito prolongar os tempos em face do que achava serem favorecidas certas descobertas de texturas sonoras.

Fortíssimos (ff) ou Pianíssimos (pp) são indicações concretas, mas sujeitas à subjectividade de maestros e instrumentistas. Dois intérpretes têm a mesma partitura à frente, mas dois ou mais críticos podem ainda assim encetar infindas discussões sobre a genealidade ou menoridade de cada um deles. Mesmo que ambos, claro está, dêem todas as notas incluídas na partitura.

Outro tema é o da ornamentação musical.

Quase todas as partituras, desde o século XVII, suponho, têm para o concertista uma cadenza ad lib na qual o virtuoso mostra o seu virtuosismo improvisando. O barroco é ainda conhecido por uma liberdade e profusão ornamental enorme: cadências, mordentes, grupetos, arpejos, trilos, etc, estão nas mãos dos intérpretes.

Onde é que eu quero chegar? Quero dizer que a “absolutização científica” da partitura e, já agora, do que quer que seja, é um absurdo que leva à náusea, para usar um termo muito do gosto Jugular. Ó cientistas-jugulares, passem bem, e poucas asneiras. E, sobretudo, não me roubem tempo! Não vos responderei mais.

Post-scriptum: este meu post tem uma motivação dupla – responde ao Vasco Barreto e à Palmira Silva, que chegou a afirmar o disparate do momento (da década?): É DA SUBJECTIVIDADE DESRESPONSABILIZADORA QUE NASCE O RACISMO E O SEXISMO.

(!!!! ?????)

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