A um cientista de cabeça dura só se pode responder com BEETHOVEN

beeth11
Manuscrito de L. van B.

Eu tinha solenemente prometido a mim mesmo (são as melhores promessas) não voltar a dar trôco aos cientistas-jugulares – agora não há links e que se lixe. Mas li esta pérola num texto de Palmira Silva, a cabeça dura intrépida da blogosfera:
“Os charlatães que comercializam tretas como curas quânticas ou taquiónicas ou homeopatetices têm um discurso tipo Kristeva ou Lacan “.
Porra!, eu até posso não estar próximo destes pensadores, ou estar. Isso não está em causa. Não posso é admitir que uma ignorante visceral fale deste modo. Acho que a uma cabeça tão dura só se pode responder com Beethoven. E porquê? Tenho de o confessar. Se me perguntassem quem foi a criatura que mais admirei na superfície da terra por ter aqui existido, eu confessaria (apesar do absurdo da pergunta e da irracionalidade da resposta: BEETHOVEN, e não penso em justificar nada).
E respondo com uma página do seu diário, não tendo presente a que ano se refere – é uma resposta aos cientistas duros de cabeça, esta desenvoltura verbal de Beethoven. Leiam e ouçam Beethoven (e mandem a Palmira dar uma volta): DIÁRIO DE BEETHOVEN (Ano X, não posso precisar):

« 31 de Janeiro: despedi a governanta.

15 de Fevereiro: cozinheira entrou ao serviço.

8 de Março: cozinheira despediu-se.

22 de Março: entrou ao serviço a nova governanta.

20 de Julho: despedi a governanta.

17 de Abril: cozinheira entrou ao serviço.

16 de Maio: despedi cozinheira.

19 de Maio: nova cozinheira foi-se embora.

1 de Julho: cozinheira entrou ao serviço.

28 de Julho: cozinheira fugiu de noite.

9 de Setembro: a rapariga entrou ao serviço.

22 de Outubro: a rapariga foi-se embora.

12 de Dezembro: cozinheira entrou ao serviço.

18 de Dezembro: cozinheira despediu-se. »

Em suma, um ano de vida bem vivida. A sua música não é para os ouvidos de todos. Não mesmo.

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35 respostas a A um cientista de cabeça dura só se pode responder com BEETHOVEN

  1. Almajecta diz:

    Oh! parece o diário de muitos blogs da nossa praça.
    Isso, mantêm-nos sob tensão e cansa-os.
    Bravo do Platoon.

  2. Carlos Vidal diz:

    Ok, Alma.
    Nunca no jugular e noutros sítios se escreveu tão bem como neste diário magnífico. E pensar que tantas e tantas páginas deste diário são iguais a esta, do mesmo autor.

  3. LR diz:

    Não me parece mesmo nada que a criatura em si – não a sua música, sobretudo os últimos quartetos – tivesse grande coisa de admirável. E não vejo como é que a resposta a uma generalização provocadora (típica de quem nunca leu coisa alguma de Kristeva ou Lacan a não ser em pequenas citações do Sokal e do Bricmont) pode ser falar de Beethoven. Ou acharás que não apreciar esses dois pensadores equivale a ser um calhau com olhos incapaz de alguma vez amar a grande música? Se é este o caso, não poderia estar em desacordo mais estridente. Grande parte do pessoal do IST que conheci (alguns ainda são dos meus melhores amigos) tem um gosto artístico quilómetros acima da média.

  4. Carlos Vidal diz:

    LR, um grande crítico musical (e tb de arte e fotografia), que me habituei a ler, vem do IST e lá lecciona, creio (J. calado)
    Eu só quis dizer, com a bela página do Beethoven, que, às vezes, se deve falar pouco ou quase nada.

    Quanto à tua outra questão: se quem não admira a filosofia ou outra forma qualquer de especulação argumentativa, pode ou não gostar de Beethoven? Olha, sinceramente, parece-me que não, que não consegue, apesar de, por razões politicamente correctas, tenha de dizer que sim. É o que eu penso e, já agora, sinto.

  5. Luis Rainha diz:

    Repara que eu não escrevi “não admira a filosofia”. Falei de dois autores específicos. C’est pas la même chose (embora, a bem da verdade, só tenha chegado a meio de um livro da Kristeva).
    Não estou mesmo a ver em que é que um determinado tipo de reflexividade poderá facilitar a alguém o acesso ao velho Ludwig – não será propriamente o compositor mais exigente do mundo…

  6. Arlequim diz:

    Só passei por aqui para dizer que vos amo.

    E que o Carlos Vidal ultrapassa o ridículo em doses cada vez maiores.

    O que ficou dos seus escritos? A prosa incompreensível porque confunde verborreia com estilo; a inevitável presunção de incompatibilidade entre ciência e arte; o tique obstinado, teimoso e chato com que verruma e mastiga os seus textos, atacando as pessoas como efígies dos seus estereótipos.

    Para concluir só lhe faltaria mesmo afirmar que a ciência é de Marte e a arte é de Vénus; ou que os cientistas usam o lado esquerdo do cérebro e os artistas o direit . Parabéns pela prudência

  7. Nuno Anjos diz:

    Carlos, os cientistas não são contra a especulação.
    Todas as teorias científicas nascem como especulações,
    mais ou menos motivadas pela experiência.
    O que os cientistas não suportam são especulações irracionais.
    Num post anterior refere que
    “Um cérebro mecanicamente formatado tem três suspeições: arte, especulação filosófica e religião”

    A arte não é chamada para aqui. A arte goza-se a um nivel consciente
    e inconsciente, não tem de ser racional. Poder-se-á estudar cientificamente a resposta do cerebro à arte, mas isso não
    afecta como cada um reage à arte. Como lhe disse antes,
    um biofisico que estude um desporto não deixa de se emocionar
    (ou não) com esse desporto.

    A religião é um assunto sobre o qual a ciência não se pronuncia.
    A ciência procura explicar a natureza de uma forma racional,
    mas não pode excluir interpretações irracionais. A partir do
    momento em que se admite a omnipotência de Deus, todos
    os argumentos cientificos podem ser contrariados.

    Mas isso não tem a ver con sentir a experência religiosa.
    É perfeitamente possivel a um racionalista compreender a
    experiencia religiosa. Porque a experiencia religiosa tem
    muito a ver com a experiencia artistica. Em ambos os casos
    o objectivo ultimo é o transe. Por isso a intima ligação entre
    arte e religiao. Aposto que um estudo cientifico mostrará que
    o extase religioso e o extase artistico levam à mesma reacção
    cerebral.

    Um racionalista não acredita em religião, mas pode compreender
    e até sentir a experiencia religiosa. Quantos arquitectos ateus
    projectaram grandes igrejas?

    Mas, meu caro Vidal. A filosofia pretende ser racional.
    A especulação filosófica não é arte. Pode haver arte no
    processo, mas o resultado tem de ser avaliado racionalmente.

    E já agora, uma nota sobre o Jorge Calado, que eu também me
    habituei a ler. Ele não é só um melónano, especializado na critica
    de ópera. Ele também faz critica de fotografia. E já pensou porque
    ele é um bom critico? Não será porque, com uma linguagem simples
    e clara consegue transmitir a paixão que sente, usando
    referências imediatas que nos permitem conhecer bem o contexto
    da obra. Talvez o facto de ser um engenheiro o ajude.

    Talvez o Carlos também beneficiasse de uma atitude mais
    pragmatica na sua critica de arte. Porque o seu dialogo com
    Michel Fried pareceu uma conversa de surdos. O Carlos
    fala a todo o tempo de Badiou, mas o Fried não parece
    ligar muito ao seu guru…

    Carlos, a critica de arte resume-se a uma actividade simples:
    explicar ao outro porque certa coisa nos leva ao transe.

  8. Carlos Vidal diz:

    Arlequim, este post do Beethoven é quase uma bricadeira. O meu anterior sobre a história da partitura e a sua importância para a fruição musical, é mais sério. Pelo menos preferia discutir esse primeiro.
    Quanto aos comentários agressivos são os que gosto mais, pois ajudam muito a separar as águas. Não é o caso. Repare que quem atacou a arte e a especulação foi gente do “outro lado”, do outro blogue: Dizer que a subjectividade gera o racismo, isto para si o que quer dizer?
    Agora eu seria violento: se não tem nada a dizer a quem afirma que a subjectividade gera o racismo, vá dar uma volta.

    Luís,
    Permite-me que comece pelo Ludwig. Como sabes eu considero dois Ludwigs: o que realizou a maior parte da sua obra e o “Ludwig late style”. Este último produziu derradeiros quartetos de cordas, as últimas sonatas para piano, a Missa Solemnis, que não são obras nada fáceis de entender e de gostar. Habituei-me a elas e são as que prefiro. Este late style de Beethoven para mim é o momento mais alto da história da música. É, como disse, uma frase irracional, mas assumu-a. Sinto-a, e não posso fazer nada.
    Se a filosofia nos leva a gostar de música clássica?
    Perguntado desta maneira, não, não há nenhuma relação directa entre estas duas coisas. Consta que Kant até era alguém sem sensibilidade artística o que não o impediu de produzir para as artes uma coisa tão importante como a terceira crítica.
    O que eu digo é diferente e é o contrário: uma pessoa avessa à especulação (filosófica, poética, hermenêutica) tende a não sentir a produção artística, a obra de arte que, como sabemos, “não tem finalidade”.

  9. Carlos Vidal diz:

    Meu caro Nuno Anjos,
    Só uma nota: a crítica não explica porque é que a obra nos leva ao êxtase. A crítica cria conceitos que se ligam à presença da obra. Dois exemplos: quando Panofsky escreveu o seu livro sobre perspectiva, não explicou porque é que a perspectiva, representando o nfinito, nos move a alma. O que ele disse foi muito mais simples – disse-nos que a perspectiva representava uma época social onde se passou da teocracia para a antropocracia.
    O conceito de “planitude” de Greenberg, nada explica sobre a emoção de uma pintura, ele diz-nos que a pintura tem a planitude e não a narrativa (que pertence á literatura) como essência, ou especificidade.
    A crítica não “explica” a obra, a crítica é uma forma específica de criação de algo que é paralelo à obra.

    Nuno Anjos, prolonguei este comentário às 19:20.
    É verdade que Fried não se interessa por Badiou, nem tem de se interessar. Eu explico porque insisti em Badiou.
    A verdade em Badiou é da ordem daquilo que acontece e é indiscernível num primeiro tempo. Esta indiscernibilidade afasta-se da visão ou visualidade clara cartesiana. Justificável e confirmável.
    Para Fried, o quadro moderno é aquele que ficciona, desde o século XVIII, a ausência do espectador. Ambos os autores pensam ou ficcionam espaços não ligados directamente à visão. Foi isso que me levou a insistir na relação Fried/Badiou.
    De reesto eu também insisti noutros tópicos da arte contemporânea com Fried – já agora revelo-os: o readymade a arte conceptual. Para Fried nem um nem outro têm valia artística que valha uma análise. Sobre um e outro nada me quis responder. Temos de insistir para percebermos certas coisas.

  10. Nuno Anjos diz:

    Concordo que a crítica não é a explicação da obra. A critica procura
    compreender a reacção que a obra provoca no espectador. A critica
    é a identificação dos ritmos e/ou padrões que provocam uma reação
    não meramente racional, mas também emocional, no cerebro do espectador.

    O meu conhecimento dos historiadores e criticos de arte que refere
    resume-se à Wikipedia! Mas basta ler o artigo sobre Panofsky para
    concluir que a sua teoria de três niveis de entendimento na arte é
    sobretudo uma teoria do pensamento. Dizer que a pintura tem como essência a planitude, e não a narrativa, é uma forma de exprimir que
    os estimulos visuais são processados no cerebro de forma distinta que
    a linguagem.

    O Carlos pode não gostar, mas o critico é um cientista que estuda o cerebro humano. A arte é a sonda que nos permite compreender a interacção entre razão e emoção (ao mesmo tempo que nos provoca
    imenso gozo, sendo para isso que a arte realmente serve). Por isso não lhe fazia mal compreender o metodo científico. E sobretudo não devia ter a mesma atitude de Panofsky, que chamava aos seus filhos (com formação cientifica) “os meus canalizadores”.

  11. Nuspirit diz:

    Para se apreciar Beethovan, ou mesmo Bach, não é necessário possuir grande capacidade especulativa ou sequer sensibilidade especial, e que escapa à maioria dos cientistas puros e duros ( como é o meu caso). Essa capacidade de abstracção, é mais necessária para alguma da música actual e que se inscreve na revolução electrónica.

  12. LAM diz:

    “A crítica não “explica” a obra, a crítica é uma forma específica de criação de algo que é paralelo à obra.”
    Do que eu venho desconfiando é que essa tal paralela tem cada vez menos a ver com a obra, muito menos com o que move o artista a executá-la, e intrepreta o resultado final da forma que lhe vai dando mais jeito. Trata-se de uma coisa tão exógena à obra quanto a da visão cientifista.
    Muito francamente quer Palmira Silva quer Carlos Vidal estão ambos a mijar diante da árvore que não é a deles.

  13. Carlos Vidal diz:

    LAM, por acaso o assunto com o exemplo que lhe proponho agora é fácil de ser entendido. Rosalind Krauss, em “The Originality of Avant-Garde and Other Modernist Myths”, deu o mote na Introdução. E se a crítica não tivesse a ver exclusivamente com o juízo de valor? Isto é, e se a crítica tivesse a ver com a produção de conceitos pertinentes? O exemplo era este: sabe-se que Clement Greenberg não apreciava nada a obra pictórica de Frank Stella, mas o conceito que Greenberg inventou para falar de pintura (a planitude/flatness) é o mais adequado para perceber a obra de Stella. Contraditório? Confuso?
    Espero que não. Eu posso criar um conceito que pode ser útil para explicar uma obra de que eu não gosto. A crítica pode ser isto ou não?? Olhe, para mim, a crítica é isto.

  14. Carlos Vidal diz:

    Está a ver Nuspirit, sempre é preciso alguma capacidade de abstracção para estas coisas.

  15. LAM diz:

    “A crítica pode ser isto ou não??”
    Claro que pode. O que não pode, melhor, não devia poder mas eu sei que as coisas foram-se organizando assim, era de, com esses conceitos, condicionar de alguma forma a produção artística. E concordaremos na sobreposição que os conceitos críticos têm tido, não só relativamente à obra em si como à sua visibilidade e o condicionamento que indirectamente impõem ao artista. É nisto que discordamos. Embora eu reconheça que as coisas, quer eu queira quer não, são como voçê diz.
    Percebe o meu ponto de vista?

  16. Carlos Vidal diz:

    Caro LAM, ainda nas artes plásticas dos últimos quarenta anos que é aquilo que conheço melhor, Um conceito não impede nada nem condiciona, nem se sobrepõe á obra. No exemplo que lhe dei, o conceito de planitude/flatness não condicionou o aparecimento de movimentos que lhe eram antiéticos ou alheios: por exemplo a Pop Art (que Greenberg abominava), a arte conceptual e minimal. Percebo o seu ponto de vista, acho que percebo, mas repare que um conceito, ainda que hegemónico, nada pode impedir. É isso que torna a arte, o art world, imprevisível.

  17. LAM diz:

    Impede Carlos. E impede (e vç saberá melhor até do que eu), quando se sabe que os galeristas (antigamente eram os maiores hoje a práctica estendeu-se), estão cada vez mais dependentes desses “críticos” (espero que compreenda as aspas porque cada vez mais há de tudo…) não só na promoção como até nas escolhas dos artistas que representam.
    Como digo no comentário anterior, Carlos, independentemente da minha vontade ou da sua compreensão, isto hoje é um facto.
    Há mais de 20 anos, talvez 25 (?) tive uma grande discussão que quase chegava a vias de facto (ok, não tenho bom feitio), com o Alexandre Melo. Mal eu suspeitava que passado este tempo o “sistema” artistas/galeristas/críticos/público iria criar quinhentos Alexandres Melinhos. A maior parte, deixe passar o desabafo, gajos de merda. E a coisa promete, aceito. Alguns foram por ali acima à cotovelada aos críticos da velha escola e chegaram longe. Você sabe.
    Naturalmente esse “sistema” criou e vai criando uns putos embevecidos com a coisa. Licenciatura, mestrados, doutoramento etc, que vai funcionando e é muito giro enquanto o puto é puto e ainda não deu com os cornos contra uma parede. Quando dão é que se aprecebem que há uns anos o estado ainda lhes garantia mais ou menos um lugarzito de professor numa qualquer C+S, que era o destino de 90% dos “artistas”. Agora sabe-se que nem isso. Até lá andam atrás da cenoura dos “críticos” e das promessas dos galeristas.

    Caro Carlos Vidal, este é o meu discurso sobre arte. Mais da vida e menos do Derrida, do Foucaultou ou do Greenberg, nomes porque passei como gato sobre…ai como é que se diz?
    Gosto e sou seguidor do que escreve aqui. Para partir pedra não. Escolha a Palmira.

  18. Carlos Vidal diz:

    Caro LAM, compreenderá que estamos a mistura dois temas: O da relação conceito-obra (que pode ser visto como realidade autónoma, nas obras ou autores que não se deixam intimidar pelo actual crítico-curator-conselheiro de coleccionador); e o dos meandros da relação crítico-galeria, comissário-galeria, comissário-governo, director de museu-directo de colecção privada, comissário-partido, crítico-director de museu público ou privado, crítico-comissário-cargo governamental, director de museu público-director de museu privado, etc, etc. Creio conhecer todo estes meandros bem, e poderia escrever um texto muito extenso sobre tudo o que por cá, ou por Espanha aqui ao lado, conheço, e no resto da Europa não é muito diferente. Este sistema das artes levou a autores como Baudrillard a chamar à arte moderna a mais fraudulenta da história (exagero!), porque o circuito de legitimação era tudo menos isso. Mas não sei se estamos muito piores das intrigas do tempo dos Médicis, por exemplo, não sei se o mercado e o nosso tempo é de uma degeneração progressiva. Agora vão à Bienal de Veneza o duo Paiva e Gusmão, e eu sei como é que eles foram escolhidos, e é possível que venham a fazer um projecto interessante, mas ficaram de fora artistas que davam muito mais garantias: João Onofre, João Tabarra, João Louro, Miguel Palma, Filipa César, Vasco Araújo, João Pedro Vale, etc. Se as coisas correrem mal a Paiva/Gusmão, esteja descansado, vai deixar de ouvir falar neles e continuará a ouvir falar dos nomes que eu citei. A justiça também é misteriosa. Isto sem desprimor para Paiva e Gusmão, pois esterei lá, em Veneza, na altura devida, a ver a sua proposta. E a ver a Bienal, claro.
    Um artista só pode andar ao colo durante um tempo limitado.
    Não tenha dúvidas.

  19. Uma das criticas que se costuma fazer à critica de arte é -tentar “condicionar de alguma forma a produção artística”, embora sem grande conhecimento da critica existente também tenho argumentado desta forma algumas vezes e ouvido da parte de outros o mesmo; mas ao mesmo tempo interrogo-me: como gera o artista a sua autonomia artística se se deixa padronizar por uma critica. A arte caracteriza-se exactamente por ser um acto de liberdade.
    Deixo aqui as minhas interrogações.

  20. não sei se o verbo “gerir” está bem conjugado, nunca fui grande coisa em gramática.

  21. Carlos Vidal diz:

    Caro Adão Contreiras, a crítica não condiciona aquilo que um grande teórico como Harold Bloom chamaria o “artista forte”. Mas, por isso, é que eu falo de uma crítica que decorre em paralelo com o trabalho do artista. É a única forma da crítica e da obra serem autónomas e ligadas uma à outra. Ou seja, imagine que a crítica segue a obra – aí o crítico que vai a reboque tem de ser visto como um mau pensador. Não percebe a arte do seu tempo, vai a reboque dela. Mas, por outro lado, o crítico, também não pode criar um conceito (um “conceito forte”) e esperar que o artista lhe obedeça – aí é o artista que se menoriza. A questão é complexa e os modos de trabalho paralelos um em relação ao outro também são complexos. É lícito que se considere Clement Greenberg (ainda que não concordemos com muitas das suas teses e opções) como um paradigma que parece resolver isto “bem”. Como Michel Fried. Este é um caso muito especial e único: é especialista, investigador e historiador desde Caravaggio (o seu anunciado livro sobre o italiano é o livro mais esperado desde há anos) à arte dos anos 60 (neovanguardas) e actual (ver o meu post com diálogo entre mim e Fried). A arte é um corpo, como em Warburg, que não se pode sujeitar à cronologia sequencial, ela é uma unidade importante em todos os períodos, daí tiraremos conclusões – conhecer todos os períodos é fundamental, percebe-se que tudo é historicizável. Quer dizer, não há uma essência da pintura/escultura, cada época encontrou problemas e respostas específicas. O crítico tem de estar no meio disso – nem antes nem depois.

  22. almajecta diz:

    feiras, museus, bienais, trienais, mágicos da terra á lua, fundações, banca são lojas adstritas á indústria da cultura exibindo a teatralidade da sucata conceptual,
    indústria tóxica e apodrecida, vidé os últimos casos de polícia sobre lavagens várias de fundações indígenas através de aquisições de arte e os casos dos vendedores de antiguidades.
    És tu um jovem professor de uma instituição de ensino artístico público e já de joelhos aos interesses e negociatas corruptas da privada. Preocupa-te com o ensino artístico, sem objectivos e sem saídas profissionais. Faltam-nos apenas as 100 obras de arte de referring em revistas internacionais de reconhecido mérito e outras tantas em feiras, museus e fundações chinesas. Tambem podem ser do Dubai ou do Abudabi, não sou esquisito como os renascentistas.
    Isso é mais Bolos ou Bolonha?
    E o rol de nomes de antigos alunos que tu conheces e levas ao colo. Assim não crescem.
    Hilariante.
    Prefiro os mitras do Cais Sodré , os chunguitas da Feira da Ladra e os avilos do Cambodja.

  23. Carlos Vidal diz:

    Boa, grande Alma, valente cacetada no “je”.
    Mas sem razão.
    Primeiro, solidário, falei em excluídos, pobres excluídos do sistema para o qual tinha feito um anterior (no mesmo comentário) organigrama. O meu cepticismo cristão (como diria a Raquel) é sempre em relação aos eleitos de poucos méritos. E quanto ao David Oliveira? – a coisa já vai em dez posts (mais ou menos).
    Ó Alma, tu tb vais fazendo um pouco igual, só que, como temos inimigos comuns (está quase a aparecer aí o teu aliado arquitecto Miguel Dias), safamo-nos em face da história (ora vês como se fala!!). Deixa lá estar os miúdos que eu citei que são boas pessoas.
    Excluídos, uni-vos.
    Com o meu contributo (e de Almajecta também).

  24. miguel dias diz:

    Já ansiava pela chamada. Mas para o citar não lhe falo mais, você não merece. Não se pode concordar consigo que amua.
    Quanto à Alma, para além de má estirpe ideológica, não lhe cai bem os gostos musicais. O comandante deste calibre não pode ouvir George Michael. Afecta a moral do balneário e da caserna.

  25. almajecta diz:

    Lá isso é verdade e que são boas pessoas lá isso serão. Excluídos também são por via dos altos numerus clausus de 15 a 17 para entrar na FBAUL. Os excluídos depois da saída são outra conversa, mais lá para a governaça. Quanto ao teu cepticismo cristão talvez como divulgador, crítico, curator e conselheiro. No caso de artista e professor, tal não consta, tem sido bodo e indulgências ad nauseum. No meu caso apenas artista e professor, somos humildemente mais moderneiristas, do género dos anões ás costas de gigantes.

  26. Carlos Vidal diz:

    Eu gosto de quando concordam comigo e de quando discordam violentamente, como eu dizia, separa as águas e obriga a explicar melhor – não aos outros, não, apenas ao autor, o autor a si prório: quando o autor é fortemente atacado, a sua escrita melhora e muito.
    Então, caro arquitecto, insónias.
    Olhe, o nosso amigo Alma está a revelar que eu como prof sou só bodo e indulgências à fartazana. Mas não é verdade, é mais o contrário: como crítico é bodo ad nauseum, como prof é atenção, rigor, disciplina, hierarquia, tirania. É tudo uma questão de educação. Gostaria de falar tanto como o meu Beethoven (“despedi a criada, admiti nova rapariga), mas não consigo, descaio-me sempre. Ah, apenas dei um 18 ou 19, já não me lembro, a uma polaca loiríssima, aluna Erasmus, enfim, uma mulher irrepetível. E já comuniquei o facto à administração do blogue. Porreiro, não me mandaram embora.
    Agora, por mais uma horitas, lá vou voltar ao estudo (processos compositivos do conceptualismo: indexação, arquivo).
    Depois, volto, já dia talvez.

  27. miguel dias diz:

    Eu tinha solenemente prometido a mim mesmo (são as melhores promessas) não voltar a dar troco aos divulgadores, críticos, curadores (os que curam dores de papagaio e de cotovelo) e conselheiros deste postibulo. Mas o amigo provoca-me e eu não se sou homem de me ficar.

    Se bem percebi, a discordância potencia-lhe a libido. Por mim, ficava-me pela polaca como vontade e representação, que eu já contribui para a preservação da espécie. Ainda anda por aí a catraia?

  28. Carlos Vidal diz:

    Está a ver, Miguel Dias, o Alma propõe George Michael. Eu não lhe disse que o Alma não era de confiança (apesar da musiqueta, com seu balanço jazzístico até ter piada, discreta como um nocturno).
    Amanhã à mesma hora.

  29. miguel dias diz:

    Já agora só um reparo. Chamou-me arquitecto. Talvez o serei, é assim que o dono da tabacaria me prefixa. Mas ao contrário dos meninos, que não passam de proletários da arte e do ensino, vergados à opressão do capitalismo de estado, eu, por fortuna e condição, vivo da propriedade, do capital e de mais algumas manobras que a vossa ignorância não atinge, os quais me proporcionam o desafogo necessário para perder tempo (o bem mais precioso) com estes devaneios nocturnos.
    Enfim, um burguês quase aristocrata que vos suga as entranhas, por mera recriação e desenfado.

  30. Carlos Vidal diz:

    Ó Miguel, então você é arquitecto graças aos proletários da arte do ensino como nós, eu e o Jecta, artistas antes promissores e hoje falhados, estrondosamente falhados (mas com boa obra atrás de nós, inolvidável mesmo). Para voltar à produção, estou à espera que chegue a hora do meu late style, mas para isso ainda faltam muitos anos.
    Se eu reencontrasse a polaca, uma original paisagista loira neokandinskiana (a rapariga descobriu um formulário sígnico interessante), eu sairia da escola prolet-kult e dedicava-me à produção de coisas belas: paisagens, paisagens. A catraia foi-se e não vai voltar mais. Só se de surpresa tiver saudade da sala de Pintura III, e aperecer por Lisboa com uma vista de Varsóvia debaixo do braço para eu lhe dar conselhos. Aí, dou-lhe todos os conselhos que me pedir.
    O Jecta já se foi por hoje. Deve estar na horta. Preparando a lenha para amanhã. Toros sobre toros. Calor e inspiração.

  31. miguel dias diz:

    Chegado agora dos prazeres etílicos de sexta-feira à noite, a noblesse oblige um boa noite no arquivo. Depois chichi cama.

  32. almajecta diz:

    Posso?
    talvez possa representar um incomodo, contudo, como estais de desconfiança, quedo-me á vontade.
    Postagens de qualidade confessional estas ontem p’la noutinha, foi concerteza por vias do diário de quarto do bom gigante, da inspiração na musa de Varsóvia ou, e ou por vias da memória?
    Grande paralelo de Sólon e Publícola, depois do “publícas-me isto” vem o “constrói-me aqui”, depois sopas, é esta magnanimidade que me faz admirar incondicionalmente esta pequena e carinhosa horta.
    Não é que logo p’la manhã ao sachar em torno da salepeira maior encontro uma lata cheia de morabitinos? – já me considero o mais feliz dos homens, vou ter uma morte suave, pois tenho tido uma vida virtuosa e muitos filhos estimados que me sobreviverão.
    O tal filósofo franciu que muito admiras, o tal Dá que Dá , se não me falha a memória, não, não é da fenomenologia nem da filosofia moral, AH! já me lembro é do estruturalismo e desconstrução, não escreveu uma obra de autor versando os bens de arquivo?

  33. Acordei na “Arca de Noé”? ora aqui está a nossa salvação…

    amigo CV

    eu diria que há um “amor ódio” entre a arte e a critica de arte:
    o artista quer, às vezes quase que exige, que a critica lhe seja favorável, o que obrigaria ao critico a renunciar à sua autonomia (mau pensador), é por isso que eu remeto a arte para acto de liberdade,ou seja, para a autonomia do artista, e ponho aqui o acento criativo, (artista forte)

    Mas, de autonomia em autonomia ficam de costas voltadas, então para que servirá a critica?

    A posição “historicizável” (situar-se nem antes nem depois) daquilo que entendi, parece-me ser a mais aceitável, mas o critico também não se pode remeter à posição de historiador do presente.

  34. Carlos Vidal diz:

    Caro Adão Contreiras
    O crítico tem também de antever.
    Dois críticos, talvez os mais emblemáticos do século XX, de que muito falo, Greenberg e Fried, recusaram a produção do seu tempo e só foram recuperados depois, como críticos e pensadores. Tiveram diferentes sortes: Greenberg morreu há alguns anos, dedicou-se ainda mais a Kant nos últimos tempos, e deplorou uma arte que tinha optado por vias opostas às suas: a Pop Art, o minimalismo e o conceptualismo. Note-se que também grandes artistas deploraram essa evolução artística: Rothko, por exemplo, nunca esperou que depois dele viesse a Pop, Lischtenstein, Warhol ou Oldenburg. A recusa de Rothko é legítima e nada lhe prejudica a obra. A de Greenberg é mais complicada. Obrigou-o a retirar-se, digamos, da vida pública (quase).
    Outro foi e é o caso de Fried: este criticou violentamente o minimalismo por ser uma arte feita em função do espectador e ele, influenciado (como escrevi no post sobre Fried) por Diderot, sempre achou que a arte moderna tinha por direito ficcionar a ausência do espectador. Para Fried isso era claro desde Caravaggio, passando por Manet até aos anos 50 do século XX: Anthony Caro, Morris Louis, Frank Stella. Depois o minimalismo foi para ele uma grande decepção. Voltou Fried em grande há dois ou três anos, escrevendo sobre a fotografia actual (veja o meu post), onde aí detectou problemas “diderotianos”. Acreditou ou acredita que a história lhe deu e dá razão. É de uma coerência única. Dogmático, o que pode ser uma qualidade para um crítico. Isto quer dizer que o crítico também pode ser um inimigo do seu tempo, em nome, por exemplo, do futuro que antevê.
    De resto, não creio existir nenhum confronte entre a crítica e a arte, há é confrontos, inevitavelmente, entre críticos e certos artistas. E ainda bem, pois a arte não pode ser um campo de “negociação”.

    Grande Alma e Jecta, vamos a mais uma confissão. Porque é que eu detesto (ou detestamos) os cientistas-jugulares? Simples, não é. Porque nós estudamos o que eles se recusam a estudar. Quando Badiou chama de “novo sofista” a Derrida (o Dá que Dá), eu posso estar do lado de Badiou: porque para Badiou a verdade não se desconstrói, a verdade “acontece”. Mas num encontro amigável, ambos, Derrida e Badiou comentaram que, apesar das diferenças, têm inimigos comuns – claro, os “novos filósofos” (com Bernard-Henry Levy à cabeça) e os “sokalianos” anti-intelectuais. Ou seja, tu (e eu) boa e grande alma, estás autorizado a dizer o pior possível do Derrida. Os “cientistas-jugulares” NÃO !! Não estão, de modo nenhum.
    Até breve, ó alma
    (ó grande Miguel Dias, isto é uma achega curiosa, ou não?)

  35. almajecta diz:

    from
    Jacques Derrida

    Mal d’Archive

    Une Impression Freudienne

    We will not commence with the commencement, if I have your consent, nor even with the archive. But rather with the word *archive* and with the archive of so familiar a word. Arkhé, as you know, names at once the commencement and the commandment. We have here, apparently, two principles in one: the principle according to nature or history, where things commence (physical, historical or ontological principle), but also the principle according to the law, where command, authority, social order are exercised, the place from which order is given (nomological principle).
    There are two orders of order here: sequential and jussive. From this point on, a series of cleavages will incessantly divide every atom of our lexicon. Already in the Arkhé of the commencement, I alluded to the commencement accroding to nature or history, introducing surreptitiously an entire chain of belated and problematic oppositions between physis and its others, thesis, tekhné, nomos etc., which are found to be at work in the other principle, the nomological principle of the Arkhé, the principle of the commandment. All would be quite simple if there were one principle or two principles, and if the physis and each one of its others were one or two. As we have suspected for a long time, it is nothing of the sort, yet we are forever forgetting this. There is always more than one and more or less than two. Both in the order of the commencement and in the order of the commandment. The concept of the archive shelters in itself, of course, this memory of the name Arkhé. It’s sheltered by and from this memory, which comes down to saying also that it forgets it.

    […]

    And the theory of the archive is a theory of this institutionalization, that is to say of the law, of the right which authorizes it. This right imposes or supposes a bundle of limits which all have a history, a deconstructible history, and to the deconstruction of which psychoanalysis has not been foreign, to say the least. In what concerns family or state law, the relations between the secret and the non-secret, or, and this is not the same thing, between the private and the public, in what concerns property or access rights, publication or reproduction rights, in what concerns classification and ordering (what comes under theory or under private correspondence, for example? what comes under system? under biography or autobiography? under personal and intellectual anamnesis? in so-called theoretical works, what is worthy of this name and what is not? should one rely on what Freud says about this to classify his works, and believe for example that it has to do with a novel when he speaks of a “historical novel”, etc.?), in each of these cases, the limits, the borders and the distinctions have been shaken by an earthquake from which no classificational concept, no implementation of the archive, can be sheltered. Not a single order.

    […]

    As the death drive is also, accroding to the words Freud himself most stressed, an aggression and a destruction drive, it incites not only forgetfulness, amnesia, the annihilation of memory, as mnemé or anamnesis, but also the radical effacement of that which can never be reduced to mnemé or to anamnesis, and of which I would like to speak tonight, that is the archive, consignment, the documentary or monumental apparatus as hypomnema, mnemotechnical supplement or representative, auxiliary or memorandum. Because the archive, if this word or this figure can be stabilized so as to take on a signification, is neither memory nor anamnesis as spontaneous experience, alive and internal experience. There is no archive without a place of consignment, without a technique of repetition and without a certain exteriority. There’s no archive without outside. Allow me to stress this Greek distinction between mnemé or anamnesis on the one hand, and hypomnema on the other, a distinction which has occupied me at length elsewhere. The archive is hypomnetic.

    […]

    In what way has the whole of this field been determined by a state of the technology of communication and of archivization? One can dream or speculate about the earthquakes which would have made the landscape of the psychoanalytic archive unrecognizable for the past century if, to limit myself to these indications, Freud, his contemporaries, collaborators and immediate disciples, instead of writing thousands of letters by hand, had had access to telephonic credit cards from MCI or AT&T, portable tape recorders, computers, printers, faxes, televisions, teleconferences and above all E mail. I would like to have devoted my whole lecture to this retrospective science-fiction, and to imagining with you the scene of that other archive after the earthquake. As I am not able to do this, on account of the ever archaic organization of our colloquia, of the time and space at our disposal, I will limit myself to a remark: this archival earthquake would not have limited itself to the secondary recording, to the conservation of the history of psychoanalysis; it would have transformed this history from top to bottom and in the most initial inside of its production, in its very events. This is another way of saying that the archive, as printing, as writing, prosthesis or hypomnestic technique in general is not only the stockroom and the conservatory for archivable contents of the past which would exist in any case, and just the same, without the archive.

    No, the technical structure of the archiving archive also determines the structure of the archivable contents even as it comes into existence and its relationship to the future. This means that in the past psychoanalysis would not have been what it was (no more so than many other things) if electronic mail, for example, had existed. And in the future it will no longer be what Freud and so many psychoanalysts have anticipated now that E mail, for example, has become possible. One could find many clues other than E mail. As a technological postal system, this example undoubtedly merits privilege because of the major and exceptional role played in the psychoanalytic archive by a handwritten correspondence of which we have yet to finish discovering and processing the immense corpus, in part unpublished, in part secret, and, perhaps, in part radically and irreversibly destroyed – for example by Freud himself, who knows? And one must consider the historical and nonaccidental reasons which have tied such an institution, in its theoretical and practical dimensions, to postal communication and to this particular form of mail, to its substrates, to its average speed: a handwritten letter takes so many days to arrive in another European city, etc. But the indicative value of E mail is privileged in my opinion for a more important and obvious reason: because electronic mail today, and even more than the fax, is on the way to transfroming the entire public and private space of humanity, and first of all the limit between the private, the secret, and the public or phenomenal. This is not only a technique: this instrumental possibility of production, of printing, of conservation and of destruction of the archive is inevitably accompanied by juridical and thus political transformations which affect property rights, publishing and reproduction rights, etc.

    […]

    In an enigmatic sense which will clarify itself perhaps (perhaps, because nothing can be sure here, for essential reasons), the question of the archive is not, I repeat, a question of the past, the question of a concept dealing with the past which already might either be at our disposal or not at out disposal, an archivable concept of the archive, but rather a question of the future, the very question of the future, question of a response, of a promise and of a responsibility for tomorrow. The archive: if we want to know what this will have meant, we will only know tomorrow. Perhaps. A spectral messianicity is at work in the concept of the archive and like religion, like history, like science itself, this ties it to a very singular experience of the promise.

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