O caso Freeport de Alcochete (I)

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Lista da Polícia Judiciária (Departamento de Investigação Criminal de Setúbal) com 15 suspeitos no caso Freeport, publicada no jornal «O Independente» de 18 de Fevereiro de 2005 (o sublinhado é do próprio jornal)

 

Tal como anunciei ontem, dou hoje início a uma série de «posts» relativos ao caso Freeport de Alcochete, que, como sabem, tem estado na ordem do dia graças à investigação de Felícia Cabrita no «Sol».
Não tenho pretensões de ser um jornalista de investigação. Aliás, não tenho sequer pretensões de ser jornalista, embora fosse, desde miúdo, o meu maior sonho. Para além do mais, viver no distrito de Viseu profundo, durante a semana, não deixa grande margem de manobra para levar a cabo uma investigação a sério.
Apesar de tudo isto, temos hoje um meio fantástico à nossa disposição, a Internet, e não fazer uso dela é um erro tremendo, seja em que situação for. Pesquisei também na Biblioteca Municipal do Porto.
Com todas estas limitações e com eventuais falhas, devo assegurar que este é um texto que se pretende sério, justo e imparcial. Numa palavra, verdadeiro. A minha opinião, aqui, não vem para o caso. É a diferença entre um texto editorial ou um texto noticioso.
Para terminar este pequeno intróito, dizer apenas que foi uma simples brincadeira o «post» que escrevi acerca de «dar o salto». Vivemos numa democracia e não sei por que razão deveria ter medo de alguém ou de algum assunto.

A FÁBRICA DA FIRESTONE

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Em 1959, começava a laborar nos terrenos que viriam a ser ocupados, décadas depois, pelo Freeport, a primeira grande fábrica do concelho de Alcochete. A Firestone dedicava-se ao fabrico de pneus e de câmaras de ar.
Um local que, diga-se de passagem, já é habitado há milhares de anos. Numa prospecção realizada entre 10 e 23 de Dezembro do ano 2000, no âmbito do Estudo de Impacte Ambiental do Freeport, foram detectados vários fragmentos de esboços de instrumentos – lascas e restos de talhe – e de raspadores e furadores. Registou-se ainda a presença de conchas de ostras, gastrópodes e fragmentos fósseis.
A escolha do local obedeceu a uma série de critérios definidos pela consultora técnica Firestone Tire & Rubber Company. O terreno, situado próximo da vila de Alcochete, reunia todas as condições necessárias, em especial a possibilidade de expansão futura.
A escritura de aquisição decorreu no dia 10 de Dezembro de 1958 e, de imediato, iniciou-se o processo de adjudicação. A «Construtora Moderna» venceu o concurso para a execução da estrutura metálica do corpo principal da fábrica e a «NOVOPCA – Construtores Associados, Lda.» a obra geral de construção civil.
As obras tiveram início em 23 de Janeiro de 1959 e foram concluídas no dia 15 de Dezembro do mesmo ano. Treze dias depois, era produzido o primeiro pneu da Firestone Portugal.
No seu primeiro Relatório e Contas, impresso na Empresa Tipográfica Casa Portuguesa, o Conselho de Administração, presidido pelo Prof. Doutor Luís da Câmara Pinto Coelho, orgulhava-se pelo facto de «o custo total da fábrica – não só a mais recente mas na realidade a mais moderna do mundo, actual, eficiente, como foi planeada – longe de exceder, como tantas vezes acontece, o montante orçamentado, não chegou sequer a atingi-lo».
De resto, a empresa apostava muito no «marketing» e na divulgação das suas actividades. Para além da publicação anual do Relatório e Contas e de uma pequena brochura com o Acordo Colectivo de Trabalho feito com os funcionários, distribuía gratuitamente o «Boletim da Firestone Portuguesa», bimestral, onde mostrava as condições de que dispunha para laborar com qualidade, publicitava as festas realizadas e explicava o fabrico dos pneus.
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Em 1961, o Governo respondeu a um pedido da Firestone e autorizou a montagem, também em Alcochete, de uma fábrica de rodas e jantes para automóveis. Era o início de uma estratégia de expansão que, nos anos seguintes, não iria parar.
O número de funcionários era significativo. Quase todos, sobretudo os quadros médios e os trabalhadores menos qualificados, eram recrutados localmente. Aos quadros da empresa pertencia também um médico, que cuidava da saúde dos funcionários. O Dr. Simões Arrôs foi o primeiro médico da Firestone, cargo que ocupou durante mais de dez anos.
Com o decorrer dos anos, começam a surgir alguns problemas, até porque os novos responsáveis não modernizam a empresa da forma que seria exigível. A 13 de Maio de 1974, nos meses quentes que se seguiram ao 25 de Abril, os operários ocupam as instalações da fábrica em protesto. Exigiam então o afastamento de um director estrangeiro que se mantinha na empresa há alguns anos.
No final dos anos 80, a Firestone acabou por ser comprada por uma outra multinacional ligada ao fabrico de pneus, a Bridgestone. A empresa passa então a chamar-se Bridgestone/Firestone Portugal, nome que irá manter até 2003, mas sem o sector de produção de pneus.
No momento da aquisição, foi ainda equacionada a reactivação da fábrica, mas o investimento exigido era demasiado elevado, já que a unidade fabril estava demasiado obsoleta e o Governo de Cavaco Silva não deu o acordo necessário para a sua viabilização.
Mantendo-se embora na zona do Passil, em Alcochete, a nova Bridgestone/Firestone abandona então, definitivamente, a fábrica que durante quase quatro décadas produziu pneus para todo o país e Europa.
Anos depois, em 1999, uma multinacional irlandesa denominada RJ McKinney, promotora imobiliária, apresenta no Instituto da Conservação da Natureza um pedido de informação acerca da viabilidade da reconversão da antiga fábrica de pneus Firestone num Complexo Lúdico-Comercial, a que daria o nome de «Designer Village». O Freeport.

A LUTA CONTRA A AMPLIAÇÃO DO CAMPO DE TIRO DE ALCOCHETE

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Entretanto, desenvolvia-se em Alcochete e em toda a região uma outra guerra relacionada com a defesa da Reserva Natural do Estuário do Tejo. Tratava-se do projecto de ampliação do Campo de Tiro, que movimentou dez Câmaras Municipais na luta contra o projecto.
A revista «Alcochete: Informação Municipal», propriedade da autarquia, perguntava na sua edição de Outubro de 1989: «Porquê e para quê em Alcochete o maior Campo de Tiro da Europa?»
O ecossistema local e a segurança das populações eram dois dos argumentos da edilidade, que contava com as pressões internacionais e os protestos populares para obrigar o Governo a travar o projecto. A desvalorização de bons terrenos agrícolas, as perspectivas de regadio e consequentes acréscimos de produtividade eram também argumentos chamados à colacção.
«Não podemos permitir um atentado contra-natura, pondo em risco uma das mais importantes reservas ecológicas internacionais como é a Reserva Natural do Estuário do Tejo – refúgio de muitos milhares de espécies migratórias da avifauna protegida internacionalmente e que por isso, não é apenas património de toda a Humanidade, cabendo-nos a nós o privilégio e a responsabilidade de a ter à nossa guarda» – assim terminava mais uma acção de protesto o então Presidente da Câmara Municipal de Alcochete, Miguel Boieiro.
Tal como no caso do Freeport, também a Reserva Natural do Estuário do Tejo acabaria por não ser salvaguardada e o Campo de Tiro passaria, mesmo sob fortes protestos de toda a região, de 1680 para 7539 hectares.

continua…

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7 respostas a O caso Freeport de Alcochete (I)

  1. Luis Moreira diz:

    Ricardo, o caso que está a ser divulgado no “SOL” trás novas ou é requintado do que saiu no “Independente”?

  2. GL diz:

    Mas a malta do Independente não foi condenada por causa dessa reportagem? Ricardo amigo, apaga isso ou ainda acabas na prisa!!!

    Levo-te merendas… e o copo prometido. Dize a tua preferencia, douro ou alentejano.

  3. Ricardo Santos Pinto diz:

    Os meus dois comentadores preferidos, a par da De Puta Madre.

    Luis Moreira, requintado? Acho que é mais requentado mesmo. A menos que aquela do DVD que refere o segundo nome de um minisro do Governo Guterres venha alterar alguma coisa.

    Gilson, o inspector da PJ foi condenado a prisão com pena suspensa. A Directora e o jornalista do Independente apenas uma multa, sem referência no registo criminal. Não te preocupes que este documento já foi publicado, depois disso, várias vezes. Acho que vou mais pelo Douro, para me sentir mais em casa, embora também goste muito de alentejano. Também pode ser uma caipirinha, se te der mais jeito.

  4. Antónimo diz:

    Credo que isto ainda não foi apagado pelas assessorantes brigadas kápagêbianas e cêiiaistas do engenheiro.

    Nem na tua sombra calcaria com medo das injecções radioactivas. Interessante (e acrescentador) seria ler em civilização do espectáculo (blogue que frequento) vários posts sobre este tema. Cobrindo assuntos desmentidos do ministério público, pese embora uma estranha reunião em haia.

  5. P.Porto diz:

    Quem diria. O RSP montou um ‘forno’ no 5Dias.
    Outros ‘forneiros’ tomam boa nota e desejam-lhe felicidade.

  6. Antónimo diz:

    Parece que por esta altura vai valendo é a pena seguir o sol, o público e muito possivelmente outros jornais que amanhã se publicam, né?

  7. Luis Moreira diz:

    Ricardo,olha que a “grande dama do jornalismo de investigação” na segunda instância levou um ano de prisão.Mas ela merece estar lá vários anos,tu não.Faz como o “SOL”, não fala em nomes mas põe lá uma foto,e a ligação é óbvia. Deixas é de ser o Ricardo coração de leão! Abraço amigo.
    Lembrei-me agora, que foi por causa da foto que ela inventou de um sósia de um cliente do pai,que levou um ano de cadeia.Grande jornalismo!

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