Afinal, não usar uma Bíblia na tomada de posse é que é coisa de fundamentalista

Mal se lobriga quem quer que seja a dar importância a um qualquer paramento religioso, certo é que a brigada dos bons costumes ateus vem a terreiro, de lupas e archotes em punho. Misturar símbolos da crendice com assuntos de Estado? Aleivosia. Assumir essa deficiência moral que é a religião, em público e usando-a como arma eleitoral? Pecado do piorio. Não vale a pena invocar tradições particularistas ou a liberdade individual; religião em prime time só se for nas transmissões do Vaticano ou nos protestos dos monges tibetanos.
Com Obama, a irritação da esquerda parece ganhar contornos de doença auto-imune: se o gajo é dos nossos, como é que cede à barbárie supersticiosa do “inimigo”? No fim, todos vamos para casa convencidos de que se trata de mais um daqueles pitorescos hábitos que fazem dos EUA um país quase civilizado. Close, but no cigar.
A bem da verdade, nem a Bíblia nem a irritante coda da cantilena – «So help me God» – fazem parte da legislação que orienta a cerimónia. Mais: o único presidente americano que se recusou expressa e terminantemente a usar um desses santos cartapácios no seu juramento foi John Quincy Adams, cristão fervoroso. E fê-lo por achar que se tratava de adereço digno demais para sair do círculo sagrado das práticas religiosas. Acabou por usar dois tomos de leis profanas, precisamente as que ele iria jurar cumprir.

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