Afinal, não usar uma Bíblia na tomada de posse é que é coisa de fundamentalista

Mal se lobriga quem quer que seja a dar importância a um qualquer paramento religioso, certo é que a brigada dos bons costumes ateus vem a terreiro, de lupas e archotes em punho. Misturar símbolos da crendice com assuntos de Estado? Aleivosia. Assumir essa deficiência moral que é a religião, em público e usando-a como arma eleitoral? Pecado do piorio. Não vale a pena invocar tradições particularistas ou a liberdade individual; religião em prime time só se for nas transmissões do Vaticano ou nos protestos dos monges tibetanos.
Com Obama, a irritação da esquerda parece ganhar contornos de doença auto-imune: se o gajo é dos nossos, como é que cede à barbárie supersticiosa do “inimigo”? No fim, todos vamos para casa convencidos de que se trata de mais um daqueles pitorescos hábitos que fazem dos EUA um país quase civilizado. Close, but no cigar.
A bem da verdade, nem a Bíblia nem a irritante coda da cantilena – «So help me God» – fazem parte da legislação que orienta a cerimónia. Mais: o único presidente americano que se recusou expressa e terminantemente a usar um desses santos cartapácios no seu juramento foi John Quincy Adams, cristão fervoroso. E fê-lo por achar que se tratava de adereço digno demais para sair do círculo sagrado das práticas religiosas. Acabou por usar dois tomos de leis profanas, precisamente as que ele iria jurar cumprir.

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5 respostas a Afinal, não usar uma Bíblia na tomada de posse é que é coisa de fundamentalista

  1. /me diz:

    Que chatos, com essas merdas da direita e da esquerda. Não perceberam ainda que Obama ganhou exactamente por se estar nas tintas para essas coisas?

  2. Homem de hábitos estranhos, esse Quincy Adams:

    “President John Quincy Adams was the first President to wear trousers at his inauguration.”

  3. A Laurens diz:

    Não confundir católicos com luteranos, protestantes ou budistas. São coisas diferentes, não na base do ensinamento mas antes no papel Poder Politico versus Instituição Religiosa e vice-versa. Nem tão pouco na ideologia. Se para os católicos a vida é lá no céu, para os protestantes é mais na terra. O budismo é outra coisa – é viver na terra com espiritualidade , como diz o filósofo Luc Ferry. Pelas razões do oportunismo que reveste a Igreja Católica, ela merece todo o despreso.
    Por outro lado, as civilizações têm que ter as suas orientações, nem que sejam as da Filosofia, aquela em que mais aposto. Contudo nem todas as pessoas têm acesso a ela, nem os governos fazem disso questão. Finalmente uma vez que a igreja perde adeptos e os professores na sua maioria pouco esclarecidos e maus professores em filosofia como quase em tudo, o nosso país que nunca foi lá muito civilizado, começa a parecer um burgo de Novos Selvagens. Claro que só poderá melhorar um pouco com bons professores e profundas reformas de ensino. Assim é melhor primeiro avalia-los e depois dar-lhes novas tarefas. Senão sabe-se lá com o que se conta.

  4. Youri diz:

    O Obama é dos nossos? Sempre pensei que a Esquerda não se aborrecia lá com a Bíblia na tomada de posse porque é mais um, e sendo mais um é natural que cumpra a “tradição”. Eu borrifo-me na sua tomada de posse com a Bíblia, os U2 e 2 milhões de pessoas, quero é ver agora como vai ser a “change”.

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