A realidade vista de muito longe

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Para o João Miranda, qualquer presidente americano dos dias de hoje teria de tratar cada prisioneiro da “Guerra ao Terror” como «combatente irregular, caso em que será julgado por tribunais especiais à margem do sistema constitucional.» Claro que nunca poderia um desses putativos terroristas ser visto como «prisioneiro de guerra comum», pois isso seria «dar direitos a quem não os tem nem oferece reciprocidade» (e sabemos que não se pode dar direitos a quem não os tem; ainda se habituavam). Equiparar uma tal maltosa a cidadãos podia resultar em «terroristas absolvidos por questões formais», o que está fora de questão – essas coisas só devem acontecer a gente civilizada. Bom, para JM, era mesmo recambiar os pensionistas de Guantánamo para Bagram – ao blasfemo, parece hospedaria menos «mediática».
Nunca cessa de me admirar a facilidade com que os defensores mais estrídulos da nossa liberdade tratam com tamanha displicência a liberdade dos outros.

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18 respostas a A realidade vista de muito longe

  1. LR:
    “Claro que nunca poderia um desses putativos terroristas ser visto como «prisioneiro de guerra comum»,”

    Claro que poderia. Mas, como diz João Miranda, poderia ficar preso até ao fim da guerra. Poderia ficar prisioneiro até ao fim da guerra e sem ser julgado.

    São as leis da guerra que Portugal, como toda a Europa, assinou. Não é coisa nova.

    .

  2. M. Abrantes diz:

    *****

  3. Luis Rainha diz:

    O problema com essa hipótese, para o JM, é outro: «Se escolher 1, está a dar direitos a quem não os tem nem oferece reciprocidade.»

  4. LR:
    “Equiparar uma tal maltosa a cidadãos podia resultar em «terroristas absolvidos por questões formais», o que está fora de questão – essas coisas só devem acontecer a gente civilizada.”

    “Nunca cessa de me admirar a facilidade com que os defensores mais estrídulos da nossa liberdade tratam com tamanha displicência a liberdade dos outros.”

    Percebe-se que para o LR os mariolas são apenas mariolas. Não são terroristas. São assim uma espécie da malandrecos que apanharam uma piela e espatifaram parquímetros. De outra forma, acentuaria o valor da liberdade em lugares onde o LR e eu podemos dizer o que pensamos e não as posições dos caramelos que querem, reiteradamente, acabar com ela.

    Já sei, já sei, que por terras de Taliban as coisas têm um valor para além da compreensão do típico americano, estúpido, tá bem de ver.

    Nunca cessa de me admirar a facilidade com que os querubins mais estrídulos em matéria de defesa da liberdade de terroristas encaram displicentemente os que defendem a nossa liberdade.

    .

  5. «Se escolher 1, está a dar direitos a quem não os tem nem oferece reciprocidade.»

    Não tem não. Não é um combatente. Ser um combatente implica estar ao serviço de um estado. Eles não estavam.

    Aos não combatentes, pela legislação internacional, a coisa fia mais fino. Podem ser julgados e até executados. Um não combatente não é um civil. Os espiões são não combatentes.

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  6. miguel dias diz:

    Apesar da hora tardia aproveito para chamar a atenção dos cincodienses, que a primeira medida do novo presidente dos Estados Unidos da América foi suspender os tribunais militares de Guantanamo até novas ordens, facto de extraordinária relevância política, que não mereceu o devido comentário.

    Minto, há uma hora atrás foi o abc a anunciar
    (http://news.bbc.co.uk/2/hi/americas/7841492.stm)
    a decisão de encerrar Guantanamo no prazo de um ano e proibir a tortura.

    Range-o-dente
    Cito (de cor) um filósofo muito querido destas bandas, o zizek, que diz que com Guantanamo (e antes em Abu Gharib) a tortura foi admitida no universo do legalmente possível. A tortura passou a ser hipótese possível e viável, deixou de fazer parte do não se deve, com tudo o que isso implica.

    E isto é intolerável. Para mim e para muita gente. Mas sobretudo é incompreensível para o mundo islâmico. A rua árabe (para utilizar um termo querido ao Daniel Oliveira) que, segundo o mesmo zizek, mais do que a sharia fundamentalista o que quer é viver de acordo com os mesmos padrões de prosperidade do ocidente, constata que as garantias que a América apregoa como símbolo da sua superioridade ética, moral e politica, não são para aplicar no mundo islâmico. Este aspecto constitui, mais do que um discurso do Bin Laden, a maior base de recutamento da Al-Qaeda e quejandos.

    O outro aspecto, é precisamente o estatuto destes prisioneiros, que na minha opinião não podem ser encarados como prisioneiros de guerra nem como combatentes irregulares, ainda que alguns tenham sido presos no decurso de uma operação militar. São acusados de terem praticado actos de terrorismo, ou de serem cúmplices, e é como tal que deveriam ser julgados. Como criminosos.

    É claro que Bush decretou uma guerra contra Incertos, o que gera a maior confusão jurídica, mas de facto, a Al Qaeda é uma organização terrorista, não um estado.

    Quando ao JMiranda, só não o insulto aqui porque parece mal, prefiro ir directamente ao Blasfémias chamar-lhe nomes.

  7. nuno castro diz:

    O nome é “enemy combatent” e como prova este doc. da Naomi Wolf – que vocês conhecem com certeza –

    http://www.youtube.com/watch?v=RjALf12PAWc

    qualquer um pode ser arrolado a tão escorregadia definição – desde que se prove que coloca em perigo a integridade da nação.

    o JM é (volta a ser…) um aldrabão sem regras.

  8. MD:
    “Range-o-dente
    Cito (de cor) um filósofo muito querido destas bandas, o zizek, que diz que com Guantanamo (e antes em Abu Gharib) a tortura foi admitida no universo do legalmente possível. A tortura passou a ser hipótese possível e viável, deixou de fazer parte do não se deve, com tudo o que isso implica.”

    Uma das coisas mais estúpidas no comportamento da “esquerda moderna” é o hábito de comentar o que não foi dito, nem escrito, nem sugerido.

    Eu não defendi a tortura (entendo a história do afogamento como tortura) limitei-me a comentar a história em causa, que aborda a coisa jurídica.

    A execução do espião (de figura jurídica ‘não combatente’), em tempo de guerra, continua em cima da mesa na generalidade dos países. Suponho que também em Portugal.

    Já agora, os prisioneiros estão detidos ao abrigo de uma coisa chamada “combatente inimigo”, coisa recente.

    Combatente inimigo é aquele que luta contra um estado sem estar ao serviço de nenhum outro estado (ou ser cidadão desse estado).

    O combatente inimigo é uma figura recente porque o cenário é recente.

    Não sei se a tortura, neste caso, é legal ou não, nem sei o que o “mundo islâmico” vê nela. Sei que algumas floribélicas personagens se aborreceram quando um presidente qualquer (Panamá?) foi desalojado de um sítio qualquer à força de … música rock debitada da rua, partindo de um PA.

    Por mim já seria tortura ‘ministrar’ RAP aos prisioneiros de Guantânamo. Rock, talvez não.

    Já agora, talvez não fosse má ideia lembrarem-se, de vez em quando, dos que na mesma ilha estão presos por pensarem.

    .

  9. Luis Rainha diz:

    Uma das coisas mais estúpidas no comportamento da “direita cavernícola” é o hábito de comentar os estereótipos que tem nas cabecitas, ignorando a realidade.

  10. Caro LR,

    “Já agora, talvez não fosse má ideia lembrarem-se, de vez em quando, dos que na mesma ilha estão presos por pensarem.”

    Suponho que claramente me referi aos que estão (continuam) presos, não aos que foram libertados.

    É que a coisa assim … até parece que o LR quer ‘compensar’ o esquecimento pelos que estão presos com a ‘alegria’ pela libertação daqueles que nunca deveriam ter estado presos.

    No caso que aponta, a canção pode ser uma arma, mas para os querubins detidos na base militar, a arma é uma canção e eles fazem-na cantar contra quem quer que faça da canção uma arma (à excepção da canção a Alá).

    .

  11. Luis Rainha diz:

    Mais um tirito no pé. Tinha ali dois links. O primeiro falava precisamente da recente vaga de prisões em Cuba. E lá se vai a sua tese do “esquecimento”. Azar.

  12. Raquel diz:

    Os binóculos estão mais tapados do que o observador.

    Hilariante.

  13. miguel dias diz:

    Ranger

    “Uma das coisas mais estúpidas no comportamento da “esquerda moderna” é o hábito de comentar o que não foi dito, nem escrito, nem sugerido.

    Não sei se a tortura, neste caso, é legal ou não, nem sei o que o “mundo islâmico” sabe. ”

    Em primeiro lugar deixe-me felicita-lo por ter descoberto que eu sou de esquerda moderna. Eu próprio não o sabia.

    Em segundo, poderíamos limitar a falar das abstracções jurídicas que quiser, mas a realidade de Guantanamo é incontornável e é essa que me importa, e dessa realidade fez parte a tortura “institucionalizada”. A estes prisioneiros, não foi nem aplicado o estatuto de prisioneiro de guerra para lhes não ser aplicado a Convenção de Genebra, nem são considerados, como a Inglaterra e a Espanha o fizeram, criminosos civis, para lhes serem restringidos direitos constitucionais. É este o meu ponto. A tortura, cujos relatos são conhecidos, não só foi permitida, como encorajada por diversos responsáveis, e é sob a capa da indefinição jurídica de combatente irregular que se abriga.

    Um dos factores mais decisivos de combate ao terrorismo é precisamente a capacidade de recrutamento de agentes que se possam infiltrar nas redes. Daí o pormenor da “rua Árabe”.

    Resta-me por último felicita-lo por também pertencer à esquerda moderna ao comentar o que não foi dito, nem escrito, nem sugerido.

  14. LR:

    “Mais um tirito no pé. Tinha ali dois links. O primeiro falava precisamente da recente vaga de prisões em Cuba. E lá se vai a sua tese do “esquecimento”. Azar.”

    Não meu caro. O seu segundo link falava de uma das bizarrias do sistema: a mania de engavetar os potenciais estragadores de ‘festas’ que, habitualmente, são libertados após o fim dos festejos. Salazar fazia o mesmo.

    Eu falo dos engavetados há anos. Às vezes, mais de uma década.

    Eu falo dos esquecidos às masmorras de Castro.

    Um dia destes saiu um. Tinha lá estado uns 6 anos. Parece que tinha sonhado em voz alta.

    .

  15. MD:

    “Eu próprio não o sabia. ”

    Ainda bem.

    “estes prisioneiros, não foi nem aplicado o estatuto de prisioneiro de guerra para lhes não ser aplicado a Convenção de Genebra, nem são considerados, como a Inglaterra e a Espanha o fizeram, criminosos civis, para lhes serem restringidos direitos constitucionais.”

    Vir dizer uma coisa dessas é como chover no molhado.

    Se eles forem considerados prisioneiros de guerra – combatentes – podem ficar na choldra até que a guerra acabe.

    Se forem considerados prisioneiros de guerra – não combatentes – podem ser, entre outas maldades, fuzilados. A Convenção de Genebra trat estes caramelos um pouco abaixo de cães.

    Face ao exposto, onde vê o acro amigo a vantagem de lhe aplicar a convenção de Genebra?

    Era justamente esse o assunto inicial. Você pretende levar a coisa para as bandas da moral e depois volta à legalidade da coisa reclamando implicitamente que eu quero apenas debater a legalidade?

    A indefinição jurídica está patente, por exemplo, no que respeita a ‘não combatentes’. Quase tudo lhes pode acontecer.

    A convenção de Genebra aplica-se a guerra entre nações. Qual, aqui, a outra nação?

    .

  16. Raquel diz:

    Caro Miguel,

    Acho que te conheço mas não tenho a certeza. O nome Santana diz-te alguma coisa?

    Só escrevo isto porque conheço um Miguel Dias com um sentido de humor igualinho ao seu.

    “Eu próprio não o sabia.” Muito bom. Superlativamente bom.

    Beijinho

    Raquel

  17. miguel dias diz:

    Raquel :
    Santana, santana….ora deixa cá ver,…..diz. É aquele músico rock americano de origem hispânica que tem uma versão do Oye como va.

    Ranger:
    Onde é que acro amigo vê a vantagem de lhes ser aplicado a Convenção de Genebra?
    Nenhuma, a não ser o facto de não poderem ser torturados. Podem de facto ser fuzilados, se julgados e condenados como combatentes irregulares, em casos como o que referiu de espionagem ou de infiltraçao nas linhas inimigas com uniforme do inimigo, ou por qualquer outro crime de guerra.
    Mas eu também não disse em lado nenhum que alguns deles não deveriam ser condenados à morte.

  18. “Onde é que acro amigo vê a vantagem de lhes ser aplicado a Convenção de Genebra?”
    miguel dias:
    Não vejo nem deixo de ver. A preceito, a convenção não lhes pode ser aplicada.

    Nunca defendi que deva ou não ser aplicada. Apenas tentei manter a coisa na racionalidade.

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