O medo, o último recurso dos medíocres

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«A única coisa de que devemos ter medo é do próprio medo» – assim falou um dos homens que moldaram o século XX, ao tomar posse no meio de uma crise sem precedentes. Franklin Roosevelt não procurou dourar a pílula nem tentou ignorar as hordas de desempregados à beira da fome, os financeiros em queda livre dos arranha-céus antes símbolos de prosperidade infinda. FDR começou o seu discurso inaugural prometendo «falar a verdade, toda a verdade, com franqueza e ousadia». E assim fez: enumerando as dificuldades, sublinhando as oportunidades, gizando um plano de união dos americanos para vencer a depressão. Sem medo.
José Sócrates, que patentemente gosta de se imaginar uma espécie de cruzamento entre FDR e JFK, é feito de uma outra massa. Preferiu exorcizar a realidade enquanto pôde, com previsões alucinadamente optimistas e uma barragem de aldrabices descabeladas – como a famosa reivindicação de responsabilidade pela descida da Euribor. Agora, depois de negar as dificuldades, salta o nosso primeiro-ministro para o outro lado da barricada: afinal, a crise está aí e vai ser ele, de punho alçado e expressão façanhuda afivelada, quem vai proteger os fracos e oprimidos.
Roosevelt, há 85 anos, afirmou que «em todas as horas negras da nossa vida nacional uma liderança de franqueza e vigor encontrou aquela compreensão e apoio do próprio povo que é essencial à vitória»; por cá, continuamos presos à fanfarra grotesca do Grande Homem que vai cuidar do povo ignaro e desprotegido. Tudo isto sem surpresa: Sócrates não é nenhum FDR, é sim o artista dos casebres horrendos com projectos mais ou menos apócrifos; da licenciatura acabada com testes por fax; dos acessos coléricos; das pressões sobre tudo e todos que o enfrentem. Ele sabe-se desprovido de qualquer solução global. E adivinha-se incapaz de servir de catalisador a uma insurreição nacional contra a inércia e a modorra. Logo, chama em seu auxílio o espantalho do medo. Hoje, desistiu de fazer qualquer coisa, contenta-se em resistir, em dar uma mãozinha caridosa aos desvalidos. Largou a ponte de comando do navio e já só promete uns quantos salva-vidas a quem o seguir. Mas mantém a pose arrogante e heróica do grande timoneiro.

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