A «ética protectora» contemporânea

 

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Escreve Alain Badiou em L’Éthique (1993): «A “ética”, na acepção hoje corrente da palavra, diz privilegiadamente respeito aos “direitos do homem” – concretamente, aos direitos dos seres vivos».

Quer dizer, quanto se entra na ética da protecção, já não se está a considerar os «direitos do homem», mas os «direitos naturais do homem-coisa orgânica-animal passivo» e sem vontade própria, deixado nas mãos da entidade que o protege.

Badiou: «Supõe-se que existe um sujeito humano universalmente reconhecível possuindo “direitos” de qualquer maneira naturais: direito a sobreviver, de não ser maltratado, de dispor das liberdades “fundamentais” (de opinião, de expressão, de escolha democrática dos governos, etc). Tais direitos são supostamente evidentes, e são objecto de um alargado consenso. A ética consiste na preocupação para com esses direitos, fazendo-os respeitar». Mas o problema surge quando se julga que os homens não são capazes de se fazerem respeitar a si mesmos, nem são seres activos em busca do seu próprio Bem, o problema surge quando isso é visto como tarefa de um ser providencial, daquele que maneja o chapéu de chuva do direito protector perante a incapacidade dos homens e dos colectivos.

Conclui Badiou: «Supõe-se a existência de um sujeito humano genérico, de tal modo que tudo o que acontece de mal possa ser universalmente identificável, considerando-se um tal sujeito como, ao mesmo tempo, um sujeito passivo, patético ou reflectido: aquele que sofre».

O homem sujeito a esta ética protectora é aquele que sofre e um incapaz. Por isso, se coloca nas mãos do «sujeito do juízo, activo ou determinante». O líder, ou seja, «aquele que, identificando o sofrimento, sabe que tem de o fazer parar usando todos os meios disponíveis». Por fim, o homem queda-se «naturalmente» agradecido. Ao líder.

 

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