João Aguardela (1969-2009)

dsc04242
O Nuno Ramos de Almeida e o Tiago Mota Saraiva irão perdoar-me a repetição do tema, mas tinha de o fazer.
Foi no «5 Dias» que soube da notícia. Andamos atarefados nas nossas guerrinhas pessoais e profissionais e, de repente, zás!, as notícias colhem-nos de surpresa. E o comentário é sempre o mesmo: «Realmente, há muito que não ouvia falar dele».
Conservo gratas recordações de João Aguardela, em especial, por causa da minha idade, da fase dos «Sitiados».
Lembro-me de os ver num concerto aqui no Porto e da sua energia em palco. Lembro-me de «A Noite» ou de «E ela cega», duas das mais belas músicas em português que já ouvi, e das recordações que essas músicas me deixaram até hoje. Lembro-me de os cantar vezes sem conta no velhinho Estádio das Antas, adaptando «Esta vida de marinheiro» para «Esta vida de dragão». Tenho mesmo aqui ao meu lado o disco homónimo dos Sitiados, um vinil de 1992 que, apesar dos anos, ainda está muito bem conservado.
Mordaz na crítica, todo esse disco era uma crítica ao cavaquismo. Em «Naufrágio», diz: «Já a morte dança / no convés / Já a morte dança / Não, nunca me engano / E raramente tenho dúvidas». Em «Balada da Neve», «Nem a mãe nem o polícia / nem o guarda nem o cão / nem o aníbal nem o marcelo / nem antónio nem barão». Em «Pérola Negra»: «pérola negra / era a cobiça de todos os homens / em todo o bairro / ninguém cantava como ela / o senhor aníbal rico e poderoso / ai quando a viu / caiu do seu trono.»
Dizia João Aguardela, na já referida «Balada de Neve», que «quando eu morrer / eu só quero ir pró ceu». Mesmo não acreditando nessas coisas, espero mesmo que tenha ido para o céu. Porque isto aqui é, sem dúvida, uma «puta de vida, merda de vida».
O filme aí em baixo é uma gravação caseira manhosa, para a qual utilizei o disco em vinil, um gira-discos dos antigos e uma máquina fotográfica digital. E pus no YouTube, que é o supra-sumo do que consigo fazer nestas coisas da informática.
Peço desculpa pela fraca qualidade, mas a homenagem, essa, é sincera.

«e ela cega
e ela sabe
ai onde vai

e ela cai
mas ao cair
finge-se cega

e ela entrega
sente o fundo
de quem a tem

e ela vem
sem que alguém
sinta chegar

e ela dor
deixa-te só
faz-te chorar

ela ensina
ela engana
ai a saudade

e o desejo
de mais um beijo
tocar a mão

e se ela existe
ela resiste
mesmo se os olhos
dizem que não ela insiste
espera em vão

mas ela é vida
triste a vida
sem ela»

Este artigo foi publicado em cinco dias. Bookmark o permalink.

2 respostas a João Aguardela (1969-2009)

  1. Tiago Mota Saraiva diz:

    Obrigado pela recordação…

  2. moi chéri diz:

    muito bonita a homenagem. mesmo.

Os comentários estão fechados.