A esquerda do “pensamento único” (sobre a moção J Sócrates) …

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… ou a estupidez ditatorial da autodenominada “esquerda responsável e de poder”, (ou ainda a “esquerda” que nunca pensou nada) o que também seria uma hipótese de título, sub-título ou mote para a situação em que vivemos. Vejamos de perto esta coisa. O texto que o engenheiro civil J Sócrates vai apresentar ao próximo congresso do seu partido intitula-se (título e subtítulo): “Partido Socialista: A Força da Mudança – Moção Política de Orientação Nacional ao XVI Congresso Nacional do Partido Socialista”. Bom, lá tive que escrever 2 vezes a palavra “nacional” e “partido socialista” – mas tenho que ter fôlego e despudor para estas coisas. Mas não tive nem fôlego nem estômago para ler o “ensaio” todo do engenheiro, “ensaio” tão mal redigido e tão esvaziado de ideias que julgo, por isso, ter sido escrito pela mão do engenheiro J Sócrates. E, com efeito, não se pode pedir mais a um engenheiro civil, que é formado e destinado a outras andanças concretizadoras, que não a escrita.

No ponto I, alínea 1., a moção despacha algumas décadas de história da Europa num chavão: “A derrota do pensamento único”. Uma leve esperança sobressalta-nos, oxalá seja mesmo a derrota por exemplo do pensamento único da “esquerda moderna”. Em vão. Trata-se, sim, ao invés, da derrota do pluralismo, como se verá.

Primeiro, de modo muito banal, fala-se da queda do modelo neoliberal – do mercado entregue a si próprio sem Estado regulador, do lucro e especulação desenfreada dos mercados. O PS denuncia isto sem se saber concretamente o que o diferencia deste mundo e o que fez para o inverter, combater ou alterar. Nada, zero, obviamente.

Depois, para o redactor da moção, tombou também o pensamento comunista e o seu “totalitarismo” de estado. Aqui, o PS e congéneres alçam-se um pouco à esquerda e dizem: a queda do comunismo foi uma brecha para os conservadores julgarem que a história tinha terminado. Ora, o PS junta-se aqui aos conservadores, claro, pois também julga que a história terminou para o seu inimigo principal: a hipótese comunista, como lhe chama Alain Badiou, meu “mestre”.

Julga o PS com os conservadores, pois estes viram na “queda do comunismo” a vitória do neoliberalismo (e a “esquerda moderna” viu o seu triunfo – venha o diabo e escolha entre estes dois triunfalismos). Portanto, o PS vê aqui o seu triunfo, nomeadamente o do seu modelo de “estado social”. Ora o que é isto? O que é o “estado social” desta gente?

A política para a saúde de Correia de Campos (entretanto demitido)?, a política para a educação de Lurdes Rodrigues (a prazo no governo)? A do primeiro não é, porque ele já não existe (apesar das saudades que deixou no governo e fora dele). A da segunda é uma política “revolucionária” ou “anarquista”, como também a senhora se designa – a do conflito com a classe docente na sua totalidade (sobrando alguns participantes das “Novas Fronteiras” ao seu lado).

Portanto, que “estado social” é este? Ninguém sabe. Sabemos é que a “derrota do pensamento único” foi antes a vitória do pensamento único deste pessoal: António Costa, J Sócrates, Armando Vara, António Vitorino, Jorge Coelho. Depois também sabemos que esta gente é a “força da mudança”. Como são poder há 30 anos eu não sei o que querem mudar, uma vez que não se vão mudar a si mesmos, nem mudar de ares (de país, de continente, de galáxia). Ficamos pois com estes António Vitorino, Jorge Coelho, Armando Vara, J Sócrates, etc, como rostos da “mudança” e da “esperança”, como se lê no final deste agudo ensaio.

Portanto, até recentemente vivemos um tempo político em que se digladiavam o neoliberalismo, o comunismo e o “socialismo democrático”, na versão da história PS. A isto o PS chamava de tempo do “pensamento único”; hoje, que, na versão dos mesmos sábios, só resta a “esquerda democrática”, pelos vistos já não vivemos no “pensamento único”. A lógica é grotesca. Então, se só resta a “esquerda democrática” e tudo o resto se esfumou na ilusão e no “totalitarismo” para quê a esperança? Para quê “esperança” se isso que se espera já triunfou, aqui e agora? Esperar pelo que já existe? Pela única coisa que, na versão destes senhores, pode existir?

E, por fim, em que pensamos nós quando olhamos para figuras como António Vitorino, J Sócrates, Manuel Pinho, Mário Lino, Jorge Coelho e Armando Vara? O que nos vem logo de imediato à cabeça? Naturalmente, duas palavras: mudança e esperança.

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