O furúnculo romeno

Raio de Inverno. No chuveiro, olho para os meus pés e vejo um furúnculo de todo o tamanho e dermatoses várias a alastrar, herança de imprudentes passos a pé descalço na alcatifa infecta de um hotel de cinco estrelas imaginárias que só brilhavam no skyline de Bucareste, uma business trip sem business nenhum para fazer, apenas o whisky da free-shop para despejar e eu ao frio com as mãos nos bolsos do sobretudo a olhar feito parvo para a fealdade da paisagem pós-socialista e a tentar atribuir-lhe um interesse qualquer que ela era obviamente insusceptível de ter, sem sentido aquilo tudo, o meu business de faz-de-conta, a inenarrável Bucareste e eu próprio ali plantado (agora estou a pagá-las). Fora do chuveiro, olho para os meus sapatos favoritos, uns mocassins pata larga que eu tinha comprado em Nova Iorque há um par de anos e que desde então tinham aguentado doses sucessivas de meias-solas sem um queixume, e agora quase choro de vê-los destruídos por uma chuvada súbita e desapiedada que se abateu sobre mim tinha eu ido buscar a miúda à escola, a chuva começou a cair e eu sem um carro onde me meter ou um chapéu-de-chuva sequer, enfiei-me com a miúda na paragem do autocarro e o autocarro sem vir, e a chuva a cair e a água a subir, até aos tornozelos, e os meus queridos mocassins pretos, que antes pareciam luvas e agora parecem sacos de batatas, a sofrerem uma morte atroz até finalmente o autocarro chegar, logo três de uma vez, no preciso momento em que a chuva amainou e a miúda me apontou feliz um arco-íris sobre as nossas cabeças. Nisto apanhei frio, e constipei-me, e dantes eu não apanhava frio assim, porque quando chovia eu parava, se tinha dentista desmarcava, se tinha encontro faltava (quem mandou esta miúda crescer?), e esperava sentado, com os braços cruzados, as pernas esticadas e os pés sem furúnculos nem sapatos, até que a chuva passasse e o sol voltasse, e o sol acabava sempre por voltar (mas agora parece haver sinais de que o sol deixou de obedecer).

Chegámos a Março: o fim de uma embalagem de oitenta filtros para café “Melita”, inaugurada no solstício anterior, anuncia-me a Primavera. Brilhantes, radiosos, dourados, opulentos, saturados de luz, sucedem-se agora os dias. No meu pé, entretanto regressado à pureza de linhas que o tornou célebre entre as mulheres, o temível furúnculo da estação passada não é agora mais do que uma coloração desvanecida e destinada a desaparecer, que alude a uma viagem também em vias de esquecimento aos confins transcarpáticos da Velha Europa. Na Roménia a sério de que os jornais falam, um governo novo faz miséria e acaba de vez com as minhas hipóteses de business. Tanto melhor, digo eu, que o dinheiro não paga tudo e não foi para isto que eu aceitei nascer. Agora ela faz anos e o meu pé vai dar um show de erotismo. Agora tudo parece possível outra vez.

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SEXTA | António Figueira
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4 respostas a O furúnculo romeno

  1. Nuno Ramos de Almeida diz:

    Genial. O quê que tu andas a injectar?

  2. António Figueira diz:

    Fico contente por gostares. Sabes, isto primeiro começava por “Puta de Inverno”, mas depois troquei a “Puta” por um “Raio” porque tive receio da reacção da Associação das Famílias Numerosas, onde como sabes também tenho muitos amigos.

  3. Há alguma informação sobre este assunto em outras línguas?

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