Pinceladas acerca da Educação no Chile


Ao contrário do que muitos pretendem fazer passar, o Chile não é um modelo no que diz respeito ao sistema educativo. Daí que não se perceba muito bem por que razão, ao implementar um novo modelo de avaliação de professores, o Ministério da Educação português foi copiar o modelo chileno.
Nada me move contra o Chile. Pelo contrário. No que me toca, admiro os escritores chilenos e toda aquela atmosfera – cores, sons e cheiros – que nos é transmitida pelos livros de Isabel Allende ou de Luis Sepulveda. Aliás, a página 73 da «Casa dos Espíritos» de Allende (edição Difel) nunca me saiu da cabeça. Um «guisado afrodisíaco» que um dia – prometo a mim mesmo há anos – ainda hei-de experimentar, nem que para isso tenha de deixar de ser vegetariano por um dia.
Uma questão diferente é considerar que o Chile é um país-modelo nestas questões. Pessoalmente, continuo a pensar que, em termos de educação, os países da Europa desenvolvida são o exemplo a seguir. O próprio Governo o admitiu, ao falar no fim das retenções até ao 9.º ano, como acontece na Finlândia.
No que respeita à avaliação de professores, por exemplo, o modelo de avaliação chileno é de inspiração clara da ditadura de Pinochet. As medidas de fundo começaram a ser esboçadas ainda durante o seu Governo, como refere Raul Iturra na carta aberta à Ministra da Educação.
Aliás, seria ingénuo pensar que os tentáculos e as influências de Pinochet terminaram no momento exacto em que ele entregou o poder. É elucidativo que, até 1998, Pinochet tenha continuado a ser o mais alto responsável pelas Forças Armadas do país, altura em que passou a ocupar o lugar de Senador no Congresso chileno.
E basta ver que o poder passou de Pinochet para Patrício Aylwin, que apoiou o golpe contra Salvador Allende em 1973. Durante muito tempo, no Chile, o Regime Militar é que continuou a dominar. A administração local estava ainda nas mãos de pessoas designadas por Pinochet e o próprio continuava a ser o chefe das Forças Armadas.
Aliás, Francisco Rojas, director da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais e um dos mais importantes analistas políticos do país, dizia em 1998 que, «para chegar à democracia plena, o Chile ainda precisa de uma reforma constitucional, além de superar a vocação autoritária, enraizada não só nas Forças Armadas, mas em toda a sociedade chilena» e que «as paixões estão envolvidas em certos simbolismos vinculados à situação actual, que mostra que a figura do general Pinochet continua influenciando os chilenos.»
Como referiu em 2007 Simon Schwartzman, pesquisador do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade, «o Chile ainda adopta o modelo educacional criado no final da década de 80 pelo ditador falecido Augusto Pinochet, com pequenas alterações.»
Em Julho de 2008, Juan Guzmán, o juiz que processou Augusto Pinochet, afirmou que «mesmo depois de 18 anos do fim da sangrenta ditadura, tem-se avançado muito pouco na direcção de uma verdadeira democracia, porque ainda hoje se mantém vigente a Constituição de Pinochet e uma Corte Suprema que colaborou com a ditadura militar.
O juiz declarou que o Chile ainda se rege pela “constituição elaborada pela ditadura de Pinochet, que cria instituições pinochetistas e permite que uma minoria autoritária continue ditando leis na República democrática”. Segundo Guzmán, desde 1990, quando Pinochet deixou o poder depois de 17 anos no comando do Estado chileno, muito pouco se transformou na estrutura jurídica e legislativa do país.»
Notícia de Junho deste ano publicada no MNN: «Há mais de dois meses estudantes e professores chilenos têm-se mobilizado numa luta incessante contra a aprovação da reforma educacional proposta pela presidente Bachelet. A Lei Geral da Educação (LGE), que vem sendo discutida desde 2006, foi aprovada pelos parlamentares na última semana. Essa nova legislação surge para substituir a Lei Orgânica Constitucional da Educação (LOCE), que vigora no país desde a ditadura de Pinochet.
Como já explicitado em artigos anteriores, os protestos dos estudantes e professores têm ocorrido constantemente desde o final de Abril. Eles acusam a nova legislação de ser apenas uma adaptação da velha lei de Pinochet. Com a reforma educacional, Bachelet estaria, então, apenas dando continuidade ao projecto do ditador.
Entre os dias 16 e 19, ocorreu a segunda greve dos professores chilenos. O objectivo da paralisação era evitar a aprovação da reforma educacional no parlamento. Segundo os organizadores, 80% dos professores teriam aderido à greve. Jaime Gajardo, presidente do Colégio dos Professores, afirmou que: “Estamos falando de milhares e milhares de pessoas. Reunimos facilmente 15 mil na Plaza de Armas, além de estudantes e de outros grupos, mas apenas 10 mil professores se mobilizaram”.
Diante da grande mobilização, a Ministra da Educação, Mónica Jimenez, afirmou que foi baixa a adesão dos professores à greve. Todavia, desmentindo a ministra, as estatísticas do secretário regional ministerial da educação (SEREMI), Victor Schuffeneger, confirmaram que 80% das escolas metropolitanas não tiveram aulas.
Combatendo as críticas da ministra, Gajardo afirmou que: “O pior caminho que a ministra pode seguir é o de continuar insistindo que estas mobilizações almejam outros fins, e o de não reconhecer que o que temos aqui é uma reivindicação generalizada da sociedade para que se realizem mudanças substanciais no sistema de ensino. Existe um consenso, porque nós temos feito consultas com líderes regionais e as mobilizações têm o objectivo de retirar a LGE do parlamento, de modo a superar as limitações do actual projecto em discussão”. Contudo, mesmo diante das grandes mobilizações, o parlamento aprovou a reforma que agora segue para o senado.
Ou estoutra notícia: «Como noticiamos em edições anteriores, há mais de dois meses o Chile vem sendo palco de manifestações e protestos de estudantes e professores contrários à reforma educacional. Segundo os manifestantes, a legislação educacional de Bachelet não atende as reivindicações para que se construa uma educação pública e de qualidade. A nova legislação seria apenas a continuidade da lei educacional de Pinochet, que vigora no Chile desde 1990.
Mesmo após o parlamento chileno ter aprovado a nova legislação educacional, estudantes e professores chilenos seguem em luta nas principais cidades chilenas. Colégios e universidades continuam ocupados, assembleias com centenas de estudantes têm sido realizadas e muitas avenidas tomadas pela marcha contra a Lei Geral da Educação de Bachellet.»
Ou ainda esta: «Os estudantes lutam para que a Lei Geral da Educação não seja aprovada pelos parlamentares e para que ela seja revista em diversos pontos fundamentais. Segundo o presidente do Colégio dos Professores, Jaime Gajardo: «Esperamos que no dia 21 de Maio, os deputados digam que vão rever este projecto e que vão ter mais tempo para debater e discutir um novo projecto educacional para o Chile. Pois, este projecto actual em vários pontos é igual ao projecto da Lei Orgânica Constitucional de Ensino (LOCE).” Esta lei foi outorgada pelo ditador Augusto Pinochet, um dia antes de deixar o poder, em 1990, consagrando a educação privatizada.»
Semelhanças com Portugal?
Uma das maiores polémicas no actual sistema educativo do Chile, esclareço eu, prende-se com o facto de os alunos e as suas famílias receberem um «voucher», que lhes permite optar entre escolas públicas e escolas privadas. A pura e clara privatização do ensino que, mais uma vez, vem dos tempos de Pinochet. E não é também isso que está por trás das reformas educativas de Portugal? A entrega das escolas às autarquias prevê-se para breve, e este é só um primeiro passo para o que virá a seguir.
As repressões de que os manifestantes têm sido alvo mostram à saciedade que existem ainda fortes resquícios do Chile de Pinochet. Até nas comemorações do 1.º de Maio 122 trabalhadores foram presos e a polícia lançou gás lacrimogéneo. «O secretário do Interior, Felipe Harboe, disse que as 122 detenções foram muito inferiores às realizadas no ano passado», refere uma outra notícia, como se isso fosse motivo de grande orgulho.
Tudo isto para concordar com Francisco Rojas quando diz que, ainda hoje, a sociedade chilena é profundamente autoritária. E era-o mais ainda em 1998, e mais ainda em 1990.
E quanto ao actual modelo de avaliação de professores no Chile? Como instrumentos de avaliação, utiliza-se como fonte de informação, no Chile, o portefólio do professor com descrição de actividades e planificações, pautas de auto-avaliação, entrevista ao avaliado e relatórios dos órgãos de direcção e coordenação da escola.
Actualmente, a compra e venda de portefólios tornou-se um negócio muito rentável no país. É a pura mercantilização do processo de avaliação de professores. O vídeo que está publicado no YouTube é elucidativo.

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6 Responses to Pinceladas acerca da Educação no Chile

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  3. Roteia says:

    É isto mesmo que sinto: o sistema de avaliação de professores que o actual Ministério da Educação pretende implantar é claramente excessivo e, por isso mesmo, de raíz “totalitária”. Devo no entanto dizer que sou favorável a um sistema de avaliação que tenha em mente apoiar os professores com dificuldades de desempenho e premiar os mais competentes. Mas é necessário que tal sistema exclua exigir dos docentes que estes se tornem uma espécie de missionários à força.

    O pior de tudo no ME, a ideia de tudo quantificar ao longo do processo de avaliação, parecendo uma proposta de rigor, tem a meu ver motivações apenas economicistas. Um truque castigador, mas barato, para poupar.

    Sigo com muito interesse os artigos sobre o estado da educação aqui publicados por Ricardo Santos Pinto.

  4. Daniel says:

    “E não é também isso que está por trás das reformas educativas de Portugal? A entrega das escolas às autarquias prevê-se para breve, e este é só um primeiro passo para o que virá a seguir.”

    Não percebo a relação, na Europa, os melhores sistemas de ensino as escolas básicas são da responsabilidade das autarquias.

    A minha experiência como pai, com filhos em escolas do 1.º ciclo da cidade do Porto, mostra-me que o trabalho da câmara municipal é bem melhor que o da direcção regional.

  5. eduardo says:

    YO CREO QUE EL SEÑOR, DEVERIA PRIMEIRO CONOCER SU PROPIO

  6. Patricio says:

    Senhor Ricardo Santos Pinto,
    Você tem uma visão da educação totalitaria e que fico no passado, a educação no Chile foi desenvolvendo até ter o atual nivel, o seja de um alto nivel que muitos paises gostariam ter.
    O muro caio faz muito tempo….

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