Eu sou contra os marcianos!

A campanha “contra” Deus que literalmente circula em algumas cidades europeias é dos actos mais inúteis de que me lembro. Ainda está por provar qual é a especial acção de Deus e das várias igrejas em Barcelona que torne urgente uma campanha de afirmação da inexistência de Deus. Eu sinceramente pauto a minha relação com o Eterno com um grande respeito pela esfera de acção de cada um e a garantia de não ingerência nos assuntos internos. Estou perfeitamente disponível para acreditar na sua existência desde que ganhe cinco vezes seguida o Euromilhões (quatro já me provocavam uma dúvida metafísica). Resumindo: Deus nunca me fez nada, o mesmo já não posso dizer de alguns governos.
O histerismo com que alguns discutem estas questões na Europa Ocidental é enternecedor. Julgam mesmo que vivemos na Idade Média e que a coisa mais importante do mundo é a crença que algumas criaturas, europeias de meia idade, têm no divino? É uma fobia bastante reveladora, da parte de pessoas para quem as questões sociais dizem muito pouco. Para quê discutir os pobres e dos ricos se podemos falar dos camelos no buraco da agulha?

Sobre Nuno Ramos de Almeida

TERÇA | Nuno Ramos de Almeida
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16 respostas a Eu sou contra os marcianos!

  1. Sérgio diz:

    Muito bom!

  2. Carlos Vidal diz:

    Eu gosto deste post.
    Os jugulares e congéneres entretêm-se com cada m…….
    Eu, por prazer e obrigação, sempre li e convivi com muito material católico.
    Não sei se penso no assunto se deus / Cristo existem ou não, se deixam de existir ou não. Por exemplo, a integração dos textos “de” Cristo (dos evangelistas) na colecção de escritos revolucionários da Verso Books é bem-vinda. Tanto mais que a introdução é do nosso marxista Terry Eagleton (brilhante a conclusão: Cristo está simultaneamente além e aquém de Lenine – Eagleton explica em quê e no quê).

    Por isso sempre suspeitei de quem tem como única causa de “esquerda” o anticlericalismo.

    Vão chatear outro, claro.

  3. João diz:

    Vinha tentar dizer alguma coisa mas o Vidal chegou-se à frente primeiro…
    Há causas que são giras, fracturantes, mas que em nada incomodam… que deixam tudo na mesma…
    são causas jugulares. bem escritas mas em que nada fica em causa.

  4. Antónimo diz:

    Concordo com NRA.
    Mas gostava de deixar a sugestão de um inquérito.
    Para mudar as coisas, e aproveitar a crise, deve-se:

    0. barafustar com o incentivo à corrupção que constitui a lei dos ajustes directos
    1. cercar a banca e os seus lucros,
    2. exigir responsabilidade pessoal rectroactiva aos banqueiros de forma a personalizar os prejuízos que não fui eu que provoquei
    3. nacionalizar a banca com garantia de devolução aos contribuintes das massas lá metidas, depois de se forçar os banqueiros a irem repondo o que perderam
    4. Questionar as petrolíferas acerca dos motivos pelos quais os combustíveis não descem
    5. questionar a autoridade da concorrência sobre a sua utilidade quando lavra relatórios onde diz que não há provas de cartel, quando o que devia fazer era verificar se os preços praticados têm correspondência nas fórmulas de cálculo
    6. tentar perceber se um PIN (projecto de interesse nacional) que levou à concessão de muitos milhões de euros e ao esquecimento de regras ambientais pode valer pouco meses depois, levando para o fundo o quádruplo das massas que o Estado lhe atribuiu para começar a trabalhar
    7. tentar perceber se todas as obras públicas são mesmo úteis ou apenas vão destruir o ambiente e o dinheiro dos contribuintes
    8. perguntar porque é que a alteração retroactiva das regras da segurança social e do cálculo das pensões de reforma não teve influência sobre as pensões da Caixa Geral dos Depósitos
    9. discutir as candentes reformas da educação no Chile
    10. entender as diferenças entre Sokal, Zizek e os gnomos do Pai Natal
    11. Dar ouvidos aos insuspeitos detentores de cargos políticos em governos de ex-colónias quando falam do envolvimento em tráfico de diamantes de determinados figurões da política nacional e (logo promovidos a vacas sagradas, para dizer que os outros trazem segundas intenções ao contestá-los e tentar desvalorizá-los).

  5. João diz:

    Tenho a ideia, posso estar errado, de que em muitas destas campanhas se pretende apenas dar o passo que falta…

    esta gente só quer que não acreditemos em coisa nenhuma…

    não devemos acreditar nas ideologias… (massacram-nos com isso)
    não devemos acreditar na religião…(entretêm-nos com isso)

    devemos apenas ser escravos entretidos… que em nada acreditam e que vegetam produzindo, nas nossas vidas pequeninas, riqueza para as grandes vidas destes novos pensadores…

    como já decretaram o fim da ideologia, pretendem agora fazer o funeral às religiões, a Deus e, principalmente, a Cristo para que tudo se mantenha inalterado até ao fim da história que entendem já ter atingido…

    agora falta apenas o ópio para nos manter anestesiados o quanto baste… e esse é-nos servido nestas irrelevâncias de uns quantos, que nos mantém entretidos com raciocínios circulares periódicos…

  6. Para quê discutir Gaza se há pobres no mundo então? Ora bolas, os israelitas nunca me fizeram nada. Os judeus que conheço eram todos tão simpáticos. O único palestiniano que eu conheci (sim, só conheci um lamento por isso) até era meio acabrunhado (creio que era por só termos o alemão como língua comum e o dele ainda não ser fluente).

    Porquê preocupar-me com a Europa se tenho de votar em Portugal para a Assembleia da República? Porquê preocupar-me com a AR se tenho de votar para a Câmara Municipal. Porquê preocupar-me em votar se tenho que ir trabalhar e fazer a cama dos miúdos e ir arranjar o jantar?

    Caro Nuno. Se não gosta da campanha, não goste. Se não gosta dos jugulares, força. Agora diminuir uma campanha porque há outros assuntos? Vá lá, junte-se ao José Manuel Fernandes nas críticas.

    PS – se toda a gente partilhasse da opinião de quem patrocinou os autocarros não haveria esta guerra toda no Médio Oriente. Sem questões religiosas ninguém no seu perfeito juízo lutaria por aquele pedaço de deserto.

  7. Nuno Ramos de Almeida diz:

    João André,
    Acho muito bem que faça esta campanha (em versão inteligente e não Sexo e a Cidade) na Arábia Saudita, nos EUA , em todos os países onde o fundamentalismo religioso é um problema importante. Em Barcelona essa questão deve estar, na escala de questões, abaixo do cocó dos cães nos passeios.
    É só uma campanha engraçadinhas para as páginas de faits divers dos jornais.

  8. joão viegas diz:

    Percebo o que quer dizer mas o seu raciocinio esta errado na raiz : a campanha não se dirige a Deus (ou seria contraditoria), mas às pessoas que acreditam em Deus…

    Agora se me disser que é tão ridiculo criticar o mal que vem ao mundo por causa de se acreditar em Deus, como criticar o mal que vem ao mundo por não se acreditar em Deus, dir-lhe-ei que tem provavelmente razão, but that’s precisely the point…

  9. joão viegas diz:

    Percebo o que quer dizer mas o seu raciocinio esta errado na raiz : a campanha não se dirige a Deus (ou seria contraditoria), mas às pessoas que acreditam em Deus…

    Agora se me disser que é tão ridiculo criticar o mal que vem ao mundo por causa de se acreditar em Deus, como criticar o mal que vem ao mundo por não se acreditar em Deus, dir-lhe-ei que tem provavelmente razão, but that’s precisely the point…

  10. gaija boa diz:

    Com a idade e o apróximar da morte, Deus e muito mais começam a chegar. Vidé o bom do Saramago e muitos mais a rabiar na hora da morte.

  11. Carlos Vidal diz:

    Este João André é de uma inteligência reflexiva espantosa.
    Aparece aqui com a graça de um materialismo radical, mais do que o meu, o que é chato. E depois acha que o conflito na Palestina é religioso. Ora o senhor que me diga quantas sinagogas os árabes queimaram (quanto aos de Israel já não ponho as mãos no lume, pois há sempre gente do hamas a disparar de todo o lado).
    Quando deve ser materialista, o senhor não sabe sê-lo. O conflito é um conflito de terra, território e de humilhação de um povo sobre outro povo. É um conflito de poder e de território em que um dos lados tudo ocupou e o que não ocupou inviabilizou como espaço de vida (com centenas de colonatos, ou que raio de merda de nome têm esses lugares de loucos fanáticos).
    O último comentário do Nuno é clarificador.
    Ai a Pietà do Buonarroti! Que bem que nesse sítio ficava uma delegação do Banco Privado.

  12. jorge c. diz:

    Porra, até que enfim alguém que percebe a inutilidade daquele disparate! Para além do paradoxo, mas isso é outra conversa.

    É por isso que eu gosto de ti, camarada! Autodetermina-te, já! 🙂

  13. António Figueira diz:

    Na corrente de ampla unidade democrática em que também me inscrevo, cabem todos os portugueses honrados – os crentes e os incréus.

  14. «Acho muito bem que faça esta campanha (em versão inteligente e não Sexo e a Cidade) na Arábia Saudita, nos EUA , em todos os países onde o fundamentalismo religioso é um problema importante»

    Nuno, talvez o fundamentalismo religioso seja um problema maior do que se pensa noutros países além da Arábia Saudita e EUA (por esemplo). Além disso, faz-lhe assim tanta comichão?

    Carlos Vidal, se acha que a religião não tem nada a ver com o assunto só porque as sinagogas não foram queimadas (como se os palestinianos o consigam caso queiram) então deve viver noutro planeta. Aquele dos marcianos de que fala o Nuno. Os conflitos no Médio Oriente têm tudo a ver com religião. Com território também, mas não é com o vinagre territorial que se apanham moscas, é com o açúcar da religião.

  15. António Figueira diz:

    Mais uma boa contribuição para o debate – este post do Vasco Barreto no Jugular: http://jugular.blogs.sapo.pt/621459.html

  16. Camelo no buraco da agulha? diz:

    Pois acabei por saber que a parábola do Cristo (na sua versão aramaica) não podia ser aquela enormidade desfigurante que foi adoptada pela/s Igreja/s.

    Ainda bem que reflexão do Mestre é mesmo sensata, não metendo camelo onde ele não cabe (nem é chamado).

    José Silva

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