Texto de guerrilha sobre a blogosfera

No início a blogosfera política nacional vivia do confronto – Ivan Nunes denominava-o como picardias. Esquerda vs direita, esquerda vs esquerda, direita vs direita. Havia textos para todos os gostos. Gente que não se conhecia, que debatia ideias com textos violentos e controversos. Entretanto alguns foram-se conhecendo, perderam gás ou ganharam moderação, e a blogosfera política nacional perdeu interesse na exacta medida em que se institucionalizou como viveiro de novos comentadores políticos. Apesar do inicial afastamento, as estruturas partidárias e, sobretudo as de poder, foram-se apercebendo do seu imenso alcance.
Hoje conhece-se inúmeros blogues de assessores políticos, que escrevem como forma de trabalho, e sabe-se de alguns blogues gerados e mantidos por gabinetes de Estado emitindo “opinião” disfarçada e “independente”. Tudo normal, embora pudesse ser mais interessante.
Aquilo que me parece ser relativamente recente, é a violência e a atitude censória com que se pretende silenciar o texto marginal, de combate ou contra-corrente, sempre sob o argumento do bom senso e da moderação.
Se fosses vivo Luiz…

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16 respostas a Texto de guerrilha sobre a blogosfera

  1. Eric Blair diz:

    Ainda restam muitos blogs ditos militantes; se calhar até mais do que no início da blogolândia. Vocês é que não os frequentam. A picardia está lá, o livre pensamento também. O descomprometimento também. O que acontece é que a ditadura dos media chegou aqui também. Já não há jornais, programas de rádio ou de tv decentes? Ou quem tem a responsabilidade de os divulgar prefere deixá-los de fora e dar relevo a corta-fitas e companhia, onde só se trocam cortesias, onde não se traça uma ideia: corta-se e cose-se um título e espera-se que os leitores construam o post.

  2. manuela diz:

    Foi mais ou menos o que de imediato me ocorreu, que não vai longe o tempo em que não havia vacas sagradas, independentemente do respeito que merecem como pessoas que são. E basta entrar numa biblioteca e pedir uma resma de jornais de há meia dúzia de anos para o constatar, a blogosfera apenas prosseguiu com a prática que já vinha de trás.
    Devagar, devagarinho, aos poucochinhos, a vidinha vai entrando nos eixos…

  3. RIBO diz:

    Nem percebo a inquietação. É tudo tão simples!! Na verdade, os blogues substituem apenas as antigas soleiras de portas ou alpendres, cafés ou bailes de aldeia, como lugares onde as pessoas procuram, no diálogo com outros, arranjar um lugarzinho seja como motorista da junta de freguesia, seja como colunista do Expresso. Fodam-se todos. Ou melhor, deixem-se estar.

  4. Antónimo diz:

    que análise mais absurda. deu-vos para o estilo calimero pacheco pereira, foi? eu é que sou a parte 0,01 positiva da blogosfera? Sem lucidez nenhuma, parece haver quem goste de lançar a lama à ventoinha e queixar-se do lamaçal.

    que percebem pouco das coisas vê-se quando acham que é “recente […] a violência e a atitude censória com que se pretende silenciar o texto marginal, de combate ou contra-corrente, sempre sob o argumento do bom senso e da moderação”.

    que não percebem nada do que é um texto, marginal, de combate ou contra corrente, vê-se quando em causa desta apelam ao Pacheco – que aliás ainda ficou grato ao gajo por lhe emprestar vinte paus, e ao santana lopes por lhe arranjar a tença e comer umas gajas.

  5. Antónimo diz:

    em acrescento aos novos ingressos (Com LR, NRA e AF não se justificam as palavras): que não percebem nada de combate vê-se também quando arranjam aliados (basta ver os comentários) junto dos retornados e dos ex-colonos – gente moderada e progressista, como se viu.

    lembram-me um amigo, militante, de um partido que se auto-reclama da extrema esquerda que não se questiona porque motivo há gente conservadora, ideologicamente à direita do cds, a votar no seu movimento. só fica feliz por garantir mais deputados.

  6. Spartakus diz:

    Nivelou por baixo, ” democratizou-se “. Perdeu interesse e vitalidade.
    Tem demasiados conflitos de interesses e ( não é pessoal e por mim falo ) muita gente a jogar em dois campos que se confundem crescentemente.
    Era inevitável, penso. Como em tudo, tudo o Sistema “recupera”. Mas sobram bolsas, apesar de tudo.

    Já agora,
    As minhas desculpas pela intrusão:

    http://bandeiranegra1.wordpress.com/2009/01/15/post-de-esquerda-moderna-fracturante-multicultural-exotica-e-reformista-naturalmente-o-futuro-esta-na-burka/

    Bom dia e obrigado.

  7. M. Abrantes diz:

    A moderação é uma equipa muito tramada. Quando se joga no campo dela é muito mais difícil ser-se herói. Porque geralmente os heróis fazem-se menos pelo que dizem, ou pensam, e mais pelo número de gargantas que cortam.

    A moderação não come corajosos ao pequeno almoço. Porque se comer então não é moderação. É uma cabra sedenta de gargantas no lugar dela.

  8. Antónimo diz:

    A anarquia é o único estado verdadeiramente digno a que a humanidade pode e deve legitimamente aspirar. Infelizmente, nunca conheci pessoalmente nenhum auto-denominado anarquista, que valesse a pena ouvir.

    de facto, o sistema recupera, muito por burrice do adversário.

    Sendo casuístico: alguém colocou em cima da mesa e na agenda a questão da tão anunciada falência da segurança social e dos serviços públicos?

    Quem tem obrigação de dar a volta a isto (aqueles que sempre anunciaram querer fazê-lo e não os que sempre se limitaram a gerir a tristeza dos dias) Continua à volta com temas estéreis como a guerra dos professores.

    Mas alguém lhes liga? E merecem que lhes liguem? Que posso eu fazer ou pensar quando um professor me mostra desanimado a carga de trabalho que agora tem? Mostrou-me um denso relatório de vinte páginas onde, julgava ele, tinha respondido às exigências do Ministério para que elaborasse um plano de objectivos. Uma dezena de folhas onde achou que devia elencar objectivos como “dar as aulas previstas no horário”, “reunir com pais quando solicitado”, “assistir às reuniões escolares para que for convocado”, “fazer trabalhos de grupo com dois e com quatro alunos”.

    Alguém acredita mesmo que o Ministério quer que os professores escrevam entre os seus objectivos a necesidade de cumprir os horários e de ser assíduo?

    Pois é a única luta que vejo animar e mobilizar as nossas esquerdas sérias. Ou isso, ou Israel, ou, já agora, e só nalguns sítios, o Mário Soares. Lamenta-se mas é pouco quando se quer aproveitar a crise. Serão causas de justiça, mas são mais do mesmo que temos tidos, não cativam nem mais um daqueles que já estava cativado, não faz pensar nem mais um daqueles que já não pensava antes.

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Caro Antónimo,
      Engraçado falar de anarquia e de anarquistas. A Ministra da Educação é um bom exemplo. É ela própria que se confessa anarquista.

  9. Antónimo diz:

    Vê-se por exemplo alguém de esquerda questionar-se acerca das verdadeiras vantagens de um investimento público, improdutivo, que vai destruir uma área brutal de alguns dos mais férteis terrenos produtivos portugueses em Alcochete em nome de um aeroporto cuja verdadeira necessidade se desconhece?

    Quando no PSD se fala em evitar as obras públicas faraónicas, dão sempre como exemplo o TGV, cuja não concretização nos afasta mais uma vez das redes eléctricas ferroviárias europeias, mas Alcochete nunca é referido. Porquê? Que interesses movem esta insistência?

    A crise petrolífera estará realmente afastada? O número das viagens de avião irá realmente continuar a subir? Não é mais ecológico e menos destruidor o trnasporte ferroviário? A esquerda que é esquerda não agenda isto porquê?

    Até o PCP parece satisfeito por hipotecar a natureza da natureza local. Permitindo o fim das RAN e das REN ao abrigo de um qualquer PIN. Nem a perspectiva cínica da perda de influência os demove? Será que ninguém reparou que parte da perda autárquica na margem Sul se deveu também à ponte Vasco da Gama e a uma alteração da matriz populacional local, com a chegada de forasteiros que ocuparam Alcochete eo Montijo? O Aeroporto reforçará também esse tipo de consquências.

    Em aparte: À boca cheia anunciava-se na blogosfera, e nos cafés, que a coisa ia para a Ota, porque o clã Soares tinha fortes interesses na área. Afinal, mudou-se a coisa de sítio sem que alguém tivesse reparado que João Soares defende a manutenção da Portela e que não se construa aeroporto nenhum, que não fará falta.

  10. Antónimo diz:

    Que e que eu lhe disse, Ricardo Santos Pinto? A ministra da Educação é mais uma dessas que não interessa ouvir ou seguir.

  11. Antónimo diz:

    Alguém acredita mesmo que para evitar que o sistema recupere e para contrariar a corrente o que é preciso é discutir Sokal e Zizek na blogosfera?

  12. Tiago Mota Saraiva diz:

    Antónimo, discordamos à grande!
    – “evitar que o sistema recupere”?
    A crise faz parte do sistema, embora se possa constituir como uma oportunidade pelo facto de acentuar as diferenças sociais e potenciar a luta de classes. O sistema não está a recuperar, está vivo.

    – Embora possa concordar que as perdas autárquicas do PCP, se devem nalguns sítios, a processos de alteração demográficos não me parece que seja o factor principal ou um motivo de preocupação. O que não me parece é que as perdas autárquicas de que fala, tenham a ver com a Ponte Vasco da Gama (obra de 1998). Vá ao STAPE e consulte os resultados eleitorais.

    – Fico curioso em saber que partido é esse que se auto-reclama de extrema-esquerda.

    – Tenho enormes dúvidas sobre o investimento no TGV. Portugal não tem uma rede ferroviária decente que ligue as principais cidades e pontos do país. O TGV vai ser uma forma de transporte para poucos, se movimentarem entre Lisboa e Porto e irem a Espanha.

    – Acredita que é na blogosfera que se transforma o mundo? Eu não.

    Mas, por sinal, afastámos-nos do tema do post.

  13. mescalero diz:

    Ainda gostava de saber como é que se fazem análises estas gerais sobre a imensidade que é a blogosfera. Omnisciência?

    De resto, o que me parece que vos falta, é o que falta a muito boa gente, eu incluído, que é alguma coisa que agite o marasmo. Depois destes dias de revolução na Grécia algo deve ter ficado a contaminar os espíritos.

  14. Antónimo diz:

    Tiago,

    Não me parece que discordemos assim tão enormemente como refere. Atendendo à nova constituição do 5 Dias, devo até andar pelas mesmas áreas ideológicas de quase toda a gente. Mesmo que não votemos nos mesmos partidos.

    Não me parece que nos tenhamos desviado do tema do post. O que elenco, são tudo assuntos que, na minha opinião, deviam fazer parte de qualquer discussão de “combate ou de contra-corrente” em Portugal (já vou ali à discussão do NRA sobre a existência de Deus dizer mais qualquer coisa). Obras Públicas, Segurança Social, Atentados à Natureza, Privatização dos Serviços, Tercearização da Sociedade, Ensino da Economia. São debates feitos em muito poucos sítios e que por cá quase só o conheço num sítio, nos nunca demasiados louvados Ladrões de Bicicletas. Infelizmente vejo poucos ecos desses temas noutros blogues tendencialmente de esquerda

    Parece-me também que no essencial concordamos quando à questão da pervivência do sistema. Uso apenas aquela construção frásica porque um comentador (Spartakus) disse que o sistema recupera. Entendi aquilo na perspectiva em que uma crise obriga sempre a uma recuperação. Os comentários sobre anarquismo iam também para ele.

    Felizmente (não vou discutir aqui as suas posições na área dos Negócios Estrangeiros, discussão com tanto interesse), o PCP tem vindo a conquistar bons resultados e a ganhar terreno, mas não tenho a certeza de que saiba o que de útil fazer com eles.

    A merecida queda da ministra da Educação e a guerra dos professores (de que não são motor e que não me parece merecer tanto aproveitamento) dá-lhe visibilidade (muita gente que nunca reparou nele presta-lhe atenção) são exemplos.

    Na Margem Sul, sinto que a reconquista de terreno das últimas eleições teve bastante a ver com o charme proletário de Jerónimo de Sousa, mas num concelho, como o Montijo, onde a explosão imobiliária foi muitíssimo forte, e apesar das guerras intestinas do P«S» local, o poder «socialista» foi abalado, mas não pelo peso comunista, que se manteve entre 2001 e 2005. Em Alcochete, menos afectado e com uma imagem mais rural, de RAN e REN, em Sesimbra e no Barreiro, onde a Vasco da Gama ainda não mudou a estrutura social, foi possível recuperar câmaras. Não me parece que a ponte possa ser excluída da análise.

    Em que partido de esquerda é que acha possível um tipo do CDS votar?

    Eu também tenho dúvidas quanto ao TGV, até por estar a forçar à construção de uma linha autónoma e a evitar a recém-remodelada e caríssima, linha do Norte. Também concordo que preferia outras ligações ferroviárias internas e que a aposta nos transportes em Portugal está dependente de muitas coisas e interesses mas não do serviço público. Não percebo é porque é que entre dois investimentos faraónicos só ouço os partidos quererem chumbar o que apesar de tudo parece mais interessante à luz dos sinais dos tempos.

    Alguém sabe mesmo se é preciso fechar a Portela ou se a Portela continua com problemas de excesso de voos, que não se resolvam com a abertura civil da pista de Figo Maduro e com a transferência das oficinas para Beja, por exemplo?

    A blogosfera já alterou o mundo. Mas não é decisiva. E é, por exemplo, o único sítio onde existe uma opinião de esquerda. Parece-me que neste momento existe menos tolerância, em Portugal, à corrupção por causa da blogosfera. Estamos em desacordo sim quanto à questão da violência e do espírito censório. É tão grande comos empre foi mas é mais difícil exercê-lo apesar da multiplicação das vozes que se disfarçam e tapam umas às outras. [Claro que não meto reacções a textos sobre lucidez nesse rol, assino por baixo o que sobre isso foi dito pelo NRA.]

  15. Miguel Dias diz:

    Se o Luiz fosse vivo mandava-nos todos à bardamerda. Cravava uma milena e ía beber o seu tintol para Massamá.

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