Ennemis Publics

Ennemis publics” é o resultado da troca de correspondência ocorrida de Janeiro a Julho de 2008 entre o escritor Michel Houellebecq e o filósofo Bernard-Henri Lévy. Na origem da publicação conjunta de tão diferentes personagens estão os ataques pessoais de que ambos são alvo e que vão muito para lá da sua escrita, chegando ao ponto de envolver a mãe de Houellebecq e no caso de Lévy, atingindo a actriz Arielle Dombasle, a sua companheira. Na primeira carta, Houellebecq classifica os dois correspondentes como individus assez méprisables. No entanto, apesar de alguma vitimização menos interessante depressa a troca de correspondência toma contornos de um verdadeiro e vivo debate, onde as partes se irritam, para se acalmarem a seguir, voltando a irritar-se, sobrepondo-se a este ritmo emocional uma reflexão aberta digna de diálogos de filósofos da Grécia antiga. Houellebecq gosta da Rússia, das “sumptuosas louras russas”, mas Lévy, irritado, lembra que a Rússia é também Putin, as oligarquias e a mão de ferro sobre os adversários políticos e as minorias étnicas. Ambos atravessam aleatoriamente a história do pensamento político dos dois últimos séculos e da literatura europeia (onde há referências a Pessoa). O debate atinge a sua fase mais interessante quando se aborda o tema da espiritualidade. Lévy, embora ateu, prefere Jerusalém a Atenas, prefere os escritos dos profetas e dos velhos rabis aos dos filósofos da Grécia antiga. Com uma certeza e uma clarividência surpreendentes, Houellebecq confessa-se desprovido de espiritualidade, assentando o seu pensamento exclusivamente na ciência. Estas reflexões vão sendo intercaladas ao longo da troca de correspondência com revelações pessoais em geral interessantes, onde os autores se expõem mais do que é comum, sobretudo Lévy.

De Bernard-Henri Lévy conhecia muitos dos seus trabalhos, como a sua pertinente investigação sobre as guerras esquecidas (Angola, Colômbia e Sri Lanka), o excelente “Vertigem Americana” , tão actual neste momento de transição dos EUA, ou o seu tratado sobre a esquerda “Ce grand cadavre à la renverse“. De Houellebecq conhecia apenas a adaptação dos seu livro “Partículas Elementares” ao cinema, um dos meus filmes preferidos. Nesta troca de correspondência foi sobretudo Houellebecq que me surpreendeu. Gostei da clarividência rara com que se exprimiu sobre a ciência e da forma elegante como transita para o caos que é a sua vida afectiva e as suas (des)convicções políticas. De Lévy retive uma erudição fora de comum, uma memória vasta da literatura e do pensamento moderno e a forma como se envolve no debate político mesmo quando o seu parceiro de escrita é pouco dado a causas.

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9 respostas a Ennemis Publics

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  2. Saloio diz:

    Vou ler o post original…mas desde já quero aqui deixar aqui a minha singela opinião: estamos perante dois dos amis importantes pensadores e intelectuais europeus no mundo presente.

    BHL é um filósofo que dispensa apresentações e com nome firmado e de respeito na cultura ocidental. É o fundador da corrente dos “novos filosofos” que, sendo maioritariamente de esquerda, atreveram-se a por em causa o “socialismo” da Rússia, da China, da Coreia, da Albânea, de Cuba, de Pol-Pot e de outros torcionários muito em voga nos anos 70.

    Juntamente com André Glucksman, com Jean-Marei Bensoit, e outros, fundaram os alicerces da esquerda moderna, cuja prática se verificou com Tony Blair e que, no campo teórico, originou a chamada “esquerda caviar”, ou “esquerda fashion” – conjunto de inadaptados vociforantes, que querem o socialismo mas com ar condicionado e com fatos armani.

    BHL é um vulto de monta, porque não tem medo dos extremistas, e sendo esquerdista, respeita a América e Israel. E faz perguntas que atrapalham os cegos ideológicos da esquerda mais instalada (como no caso do assassinato de David Pearl ou da intelectualidade francesa, em “Les Aventures de la Liberté”).

    Sendo alto e com os cabelos compridos e vivendo com uma mulher gira, além de amigo da dupla Sartre/Beauvoir e da intelectualidade de esquerda americana (Mary MacCarty, Susan Sontag, George Plimpton, etc.), é alvo normal da curiosidade jornalistica de mexericos, o que o trona alvo fácil daqueles que, mais que no plano intectual, o invejam por ser agradar às mulheres.

    Houelleback é diferente.
    Ainda não tem o nome firmado fora de França, e é autor de meia dúzia de romances inquietantes e algo chatos. Todos os títulos contam histórias de pessoas vulgares, que vivem sózinhas, em zonas suburbanas e que padecem de problemas ditos normais ao homem comum, mas que tomam conta da narrativa e da vida dos protagonistas.

    São romances algo aborrecidos, e que terminam mal.

    O valor do escritor deriva de ser um acérrimo defensor da realidade e de ter um olhar sobre a nossa sociedade nada elogioso. Tudo é cinzento e indiferente, a as pessoas são pequenos pontos anónimos no meio de um mundo gigantesco que nem sequer se apercebe da sua existência.

    Penso que irá ter um futuro assinalável, face à realidade que apergoa – e apesar desta ser deveras sombria.

    Os franceses, apesar de anti-americanos primários, sempre produziram intelectuais curiosos e de muito respeito -como estes dois…

    Digo eu…

  3. ezequiel diz:

    Belo post, Rui.

    🙂

  4. Obrigado pela opinião Saloio (?)

  5. Diz o Saloio, referindo-se a BHL (também poderia estar a referir-se a Glucksmann):

    “sendo esquerdista, respeita a América e Israel.”

    Já acho discutível o esquerdismo de ambos. Bem mais relevante, para o seu respeito a Israel, é a sua religião. Eu (pessoalmente) substituiria a frase do Saloio por (no plural, referindo-me a BHL e Glucksmann)

    “sendo judeus, respeitam a América e Israel.”

  6. ezequiel diz:

    Filipe,

    é sabido que as orientações político-filosóficas das pessoas são determinadas pela etnia. Um facto há muito corroborado cientificamente.

  7. “é sabido que as orientações político-filosóficas das pessoas são determinadas pela etnia.”

    Não me digas, Ezequiel!
    Será que consideras portanto defensável este texto
    http://ablasfemia.blogspot.com/2007/04/dupla-precauo.html ?

    Eu não o considero, devido à generalização que nele está implicada. Mas vejo que essa generalização pode ser extraída da tua frase. Clarifica lá melhor a tua posição, sff.

    Eu clarifico a minha: tenho uma dupla precaução quando sou confrontado com uma opinião de um judeu sobre um assunto que diga respeito directamente a todos os judeus (é a ressalva que falta ao texto do Arroja – e que faz toda a diferença). Podes substituir “judeu” por “muçulmano” ou “sportinguista”.

    Voltando ao comentário do Saloio: eu tenho seguramente uma dupla precaução relativamente a textos do BHL ou do Glucksmann sobre Israel. Pelas razões que expliquei.

  8. Filipe,

    no “Ce grand cadavre a la renverse”, o BHL relembra e bem que os processos que constituíram os EUA (filho da rev. francesa) e Israel (apoiado pela URSS) são dois projectos de esquerda que funcionaram bem. Os kibutzs sao kolkozes que funcionaram bem, por exemplo. Quanto aos governos actuais a história é outra.
    Relembro que o BHL foi um dos entusiastas iniciativa para a paz israelo-palestiniana.

  9. Rui, concordo que quer os EUA quer Israel eram, originalmente, projectos de esquerda. Se quiseres, nesse aspecto são comparáveis à União Soviética… Mas o que saiu de lá não era de esquerda. Será que para um projecto funcionar tem que deixar de ser de esquerda?
    É claro que o Glucksmann (falando agora dele) considera os EUA e Israel “de esquerda”. Mas ele considera-se ainda hoje “de esquerda”, a única “esquerda verdadeira”. Tal como o Pacheco Pereira, o José Manuel Fernandes ou a Helena Matos…

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