Encontros com os professores: servem para alguma coisa?

O Pedro Ferreira desafiou-me e eu aceitei: comparar experiências próprias, como pai e como professor, em Portugal e em França. O primeiro tema é os encontros dos pais com os professores.
Servem para alguma coisa?, pergunta o Pedro. Tenderia a responder que nem por isso.
Curiosamente, o que se passa em França, a este nível, é muito parecido com o que se passa em Portugal.
O meio de comunicação por excelência entre os professores e os pais é a Caderneta do Aluno. Ali, num caderninho que os alunos devem trazer sempre consigo, o Director de Turma e os outros professores da turma comunicam aos pais tudo o que de relevante se está a passar com os seus filhos: as faltas, o comportamento, a não-realização dos trabalhos para casa, a convocatória para uma reunião, etc.. Na aula seguinte, os alunos devem trazer as mensagens assinadas pelos encarregados de educação.
No início de cada período lectivo, é marcada uma reunião geral com todos os pais. O Director de Turma aborda então a situação da turma e de cada aluno e entrega os registos de avaliação, os níveis atribuídos pelos professores e a opinião que cada um tem sobre a turma. É normal, em casos mais delicados, chamar à parte um determinado encarregado de educação no final da reunião.
Todas as semanas, o Director de Turma tem no seu horário uma hora marcada para atendimento aos Encarregados de Educação, que podem ir à escola sem avisar. É frequente irem apenas no final do dia para não terem de faltar ao trabalho.
O problema, que pelos vistos também acontece em França, é que só aparecem às reuniões os pais dos bons alunos. Os pais dos alunos problemáticos, com mau aproveitamento e mau comportamento, geralmente não aparecem. Ora, o Director de Turma teria interesse em falar com os pais destes últimos alunos e não com os pais dos outros, os que não dão problemas.
E como é normal que uma criança seja o reflexo da educação que teve, nem com mensagens e telefonemas a coisa se resolve. De mãos atadas fica o Director de Turma e a escola. É por isso que as reuniões com os pais, também em Portugal, não servem para muito.

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11 respostas a Encontros com os professores: servem para alguma coisa?

  1. Pedro Ferreira diz:

    Ricardo, obrigado pela resposta, pelos vistos temos a mesma análise do problema, infelizmente não tenho a mínima ideia do que se possa fazer para melhorar a situação.

  2. Zunkruft diz:

    A solução? Criar legislação que obrigue (sim, leu bem – obrigue) os encarregados de educação a participar mais activamente na educação dos seus educandos. Os que não cumprirem, seriam punidos de diversas formas, tal como o aluno levar nota negativa no final do período.

    Uma fatia considerável da culpa no enorme emaranhado de problemas do sistema de educação em Portugal é da responsabilidade dos pais e encarregados de educação:
    1) cada vez maiores adeptos dos facilitismos e do sistema da recompensa/ausência dela (em vez do sistema da recompensa/punição);
    2) por pressão dos actuais modos de vida urbanos ou por pura negligência, delegam para a escola responsabilidades e funções que lhes compete a eles, seja como pais/progenitores, seja como encarregados de educação.

  3. Cecília diz:

    Também não tenho soluções que melhorem a situação. No entanto, penso que para os alunos estes encontros são muito vantajosos sobretudo em termos de segurança, mesmo sendo só para alguns.
    Quanto aos outros pais há pouco a fazer. Eles próprios já são casos muito complicados.

  4. joão viegas diz:

    O problema é muito mais vasto. Nos hospitais e nos consultorios médicos, também nem sempre os que aparecem são os mais necessitados, nos tribunais idem, e até nas sessões publicas das assembleias representativas, isto para não falar nas eleições politicas, sindicais, profissionais e por ai fora.

    Vamos acabar com isto tudo ?

  5. joão viegas diz:

    Ja agora, porque é que não inverte os dados da questão : não sera antes o facto dos alunos cujos pais atendem asditas reuniões serem bons alunos um sinal obvio de que as reuniões servem para alguma coisa ?

    Continuo a pensar que o problema maior em Portugal é abolir a distância que existe entre a realidade e aquilo que dela se reflecte na cabeça das pessoas…

  6. Ricardo Santos Pinto diz:

    João Viegas,
    Quem é que falou em acabar com as reuniões? Pelo contrário, devem é ser incrementadas, mesmo que, como sempre, apareçam apenas os pais dos bons alunos.
    Claro que dizer que as reuniões não servem para nada será um exagero. Aliás, o que eu disse foi que não servem para muito.
    Ou seja: os bons alunos não precisam dessas reuniões porque continuarão a ser bons alunos sem elas; os maus alunos precisariam dessas reuniões, mas os pais não aparecem. Claro que, pelo meio, há sempre alunos que estão a ter um comportamento negativo, ou que estão a atravessar uma má fase a nível de aproveitamento e têm pais que se preocupam e que irão conversar com eles e chamá-los à atenção. Para esses sim, as reuniões são importantes. Só que, infelizmente, são uma minoria.
    Tal como diz o Zunkruft, teria de se encontrar uma forma de responsabilizar os pais no que diz respeito à educação dos seus filhos. Mas isto já é um problema que ultrapassa a escola, é mais um problema social. Não imagina a quantidade de famílias desestruturadas que anda por aí. quantos pais ficam na cama de manhã e os seus filhos é que têm de se levantar, arranjar, fazer o pequeno-almoço e levar a irmã mais pequena à escola, antes de eles próprios irem também para a escola? Há tantos casos do género.
    Prejudicar a avaliação do aluno não seria solução, porque ele não tem culpa e, sobretudo, porque esses pais estão-se marimbando para o facto de os seus filhos terem positiva ou negativa.
    A solução passa sobretudo por um ataque frontal à pobreza e às mentalidades. E atacar a pobreza não é só dar subsídios e pronto. É muito mais do que isso e custa muito mais dinheiro.
    Dou um exemplo: na escola de ano passado, uma das turmas, das «Novas Oportunidades», era integralmente constituída por pessoas de meia idade que recebiam o Rendimento Mínimo. Gente da serra, que tinha aulas à noite e que não tinha como se deslocar – a Segurança Social pagava um táxi que diariamente ia buscá-los e levá-los.
    Estavam lá porque eram obrigados, caso contrário tiravam-lhes o Rendimento Mínimo – confessaram-no, um por um, logo na primeira aula. Mas chegaram ao fim e adorararam a escola e só um desistiu.
    como é óbvio, isto vai reflectir-se na forma como vão educar os seus filhos e na atenção que vão dar à educação deles.
    Nada disto é fácil. São problemas muito complicados.

  7. joão viegas diz:

    OK,

    Estamos a dizer a mesma coisa. Desculpe se fui um pouco brusco.

    Se o meu amigo conseguiu fazer o que diz com gente da Serra, então so me resta tirar o chapéu e retirar imediatamente tu o que possa ter dito de ofensivo, ou mesmo de simplesmente critico a seu respeito (acho que ficava aqui bem um boneco a piscar o olho, mas eu não sei fazer isso, sou descendente de serranos…).

    • Ricardo Santos Pinto diz:

      Não disse nada de ofensivo, caro João Viegas. Pelo menos neste «post». 🙂
      Consegui sim, eu e os meus colegas, mas não foi fácil. Envolveu concursos e prémios para quem acertasse em determinadas questões das aulas, convites para jantarem connosco na cantina da escola, convites para irem ao café comigo e coisas desse género, que fizessem com que eles se aproximassem de nós e da escola.
      No final do ano até fiquei envergonhado: gente pobre, sem posses, mas que gastou um dinheirão em prendas para todos os professores e até para a minha filha (que iria nascer dentro de dias).

  8. Pedro Ferreira diz:

    Caro Zunkruft compreendo a sua preocupação mas a sua proposta parece-me um pouco radical. Como diz bem o Ricardo para alguns pais dar negativas aos filhos não aquece nem arrefece. Se formos pela história das notas o remédio que propõe arrisca-se a matar o doente pois serão os miúdos a pagarem as asneiras dos pais.
    Não sei bem como se passam as coisas em Portugal, por aqui (França) a lei obriga os estabelecimentos de ensino secundário a assinalarem à justiça de menores os comportamentos que ponham em causa a segurança (no sentido lato) dos menores, por exemplo, é obrigatório alertar a justiça quando o número de faltas é excessivo. Na prática os directores tentam primeiro dialogar com a família em seguida passam pelos assistentes sociais das escolas e só em ultimo recurso passam pela justiça.

  9. Zunkruft diz:

    Peço desculpa. Mas ao reler o meu comentário, já vi que me exprimi mal. Não pretendia punir os alunos.
    O que eu quis dizer é que os encarregados de educação deveriam ser sancionados, da mesma forma que os alunos levam negativas pelas notas más, pela assiduidade fraca ou pelo mau comportamento.
    Eu acho que, mais do que penalizar os alunos, os pais têm que ser responsabilizados – ao contrário daquilo que eles mesmos e os governos têm feito nas últimas três décadas.
    Não me interpretem mal… eh eh

  10. Zunkruft diz:

    Esqueci-me de referir que, quando falo destes problemas e quando aponto as responsabilidades aos encarregados de educação, a maioria das pessoas que leu os comentários, automaticamente deve ter pensado logo nas famílias pobres, com um pai alcóolico e uma mãe desempregada, a viver de rendimentos sociais.

    Também. Mas pensei automáticamente em famílias das classes alta e média-alta, aparentemente sem problemas, mas psicologicamente disfuncionais, principalmente no que diz respeito à relação mãe-filho(a) ou pai-filho(a). O que não falta neste tipo de famílias (supostamente com pais bem instruídos e com poder económico) são pais que não aceitam que os filhos tenham problemas comportamentais (ou não querem sequer saber, porque a actividade profissional é a primeira prioridade) e às vezes nem sequer aceitam que os filhos tenham inclusive problemas bio-psicológicos. O que não falta nessas famílias são pais que, deixam os filhos na escola às 8h e só os vão buscar às 18h porque tem mesmo que ser – por eles, até nas férias eles iriam para as escolas e para os ATL. E neste tipo de famílias, não estou a falar de um número reduzido de casos iguais a estes, infelizmente.

    O tal facilitismo que permite uma má estruturação do crescimento psicológico da criança entra aqui, como forma de compensação porque sabem da disfuncionalidade destes comportamentos dentro do núcleo-família.

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