Jornalismo sensacionalista ou a lavagem da roupa suja sem centrifugação

marxmarx
Karl
“It’s on the market, you’re on the price list”

Gang of Four (Return the gift)

Ao meu lado, sobre a secretária, jazem alguns jornais sensacionalistas ingleses, “pescados” nos assentos do metro, com algumas páginas escancaradas. Neles pode-se ler todos os escândalos da semana. Enquanto preparo mais uma crónica londrina ouço Le Carnaval des Animaux, de Saint-Saëns. Irónico, não é ?

Uma das notícias refere-se ao Ferrari esmagado de Cristiano Ronaldo: “Ronaldo writes off £ 200,000 Ferrari”. Ele é um dos alvos preferenciais do Sun, Daily Mirror e do gratuito The London Paper. Também sempre muito badalada pela garganta funda destes pasquins é a cara-de-pau Victoria Beckham. Mas há muito mais. Quem anda com quem, quem já não anda, com quem vai andar e uma correria medonha de andarilhos do jet-set inglês e internacional.

Amy Winehouse tem sido perseguida e “crucificada” pelos tabelóides devido aos seus problemas com o álcool e com as drogas duras. A moça também não tem feito nada de jeito para evitar as notícias sórdidas sobre a sua vida íntima. Expõe-se em cuecas e descalça à porta de casa, a rir que nem uma desvairada para as câmaras fotográficas dos repórteres que trabalham para este género de imprensa. É um prato cheio e à mão de semear.

Ainda não li um único texto que mencionasse a voz especial de Amy, o seu carisma e imagem exótica e a sua contribuição musical em prol da música pop de qualidade. Todos os jornalistas estão mais preparados para “bater no ceguinho”, salvo seja, do que informar. E porquê? Porque se vende mais. E porquê? Porque o que a maioria dos leitores quer é escandaleira lúbrica. E porquê? Ora, o Freud teria explicado isso melhor do que eu!

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Doctor Freud Couch

A propósito de Freud, vou inventar um pequeno faits-divers. Vamos imaginar que no tempo dele, durante o seu exílio em Londres, os tablóides já existiam.

The Sun

“Ancião octagenário em posse de cocaína

Em rusga efectuada pela policia ao domicilio do Dr. Sigmund Freud, após telefonema anónimo, foram encontradas 140g de cocaína na mesa de cabeceira.
O ancião e destacado médico neurologista e “pai” da psicanálise alegou que a droga era para as enxaquecas.
É para isto que queremos estrangeiros na nossa velha Albion? Volta para a Áustria, velhote vicioso e deleita-te de drogas no teu divã esfiapado! Vai psicanalisar a vizinha!!”

Ou então imagine-se o que teria sido em relação a Karl Marx e ao seu affair amoroso com a empregada Lenchen.

The London Paper

“Sexo escaldante em Soho

Jenny Marx, esposa do destacado comunista Karl Marx, confessou aos nossos repórteres que a sua vida em Soho tem sido um inferno desde que ele engravidou a empregada. E revelou pormenores picantes sobre a relação elícita do marido. Não perca o próximo número onde revelaremos as revelações reveladas pela esposa ultrajada!!!!!”

Por último, mais uma noticiazeca inventada a propósito do anti-semitismo histórico do anarquista Mikhail Bakunin.

Daily Mirror

“Horror, loucura e falta de vergonha na cara

No tribunal de Hampstead foi julgado o caso de Mikhail Bakunin. Reportemo-nos há três meses atrás quando este perigoso anarquista foi apanhado em flagrante pela polícia, a graffitar slogans anti-semitas nas lápides de judeus, no cemitério de Edgware. Na altura e com o maior descaramento afirmou que quem não come carne de porco não sabe o que é bom.

O Juíz Sir Clarence Rudolf Serhal condenou Bakunin a pagar 30p de indemnização às famílias dos defuntos e a lavar com um escovilhão e lexivia os dizeres racistas.”

Resumindo e concluindo, se eles tivessem sido pasto de bisbilhotice sensacionalista Marx, por exemplo, não teria tido paz de espírito para escrever O Capital e outros textos teóricos fundamentais; Freud terminaria os seus últimos meses de vida enrodilhado em escândalos e, por último, Bakunin não teria podido continuar a sua acção dinâmica por toda a Europa.

Ondina Pires
Londres, 11 de Janeiro de 2009

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9 respostas a Jornalismo sensacionalista ou a lavagem da roupa suja sem centrifugação

  1. Cara Ondina

    Bom texto,
    faço votos para que continue.

  2. Zunkruft diz:

    Bom texto.
    Quando me dizem que os media têm um papel interventivo, ignoro. Deixei de acreditar nisso.

    Os exemplos que deu são bem exemplificativos. A imprensa da música (supostamente) é um óptimo exemplo.
    Atente-se na Rolling Stone cuja qualidade e credibilidade bateu no fundo… mas eles ainda vendem milhares de exemplares.

    Cá em Portugal, se excluírmos os suplementos dos semanários, a BLITZ está sozinha no mercado (sim, há muitos anos era um jornal de qualidade que saía todas as terças). Entrem em blitz.pt durante um dia de semana e irão surpreender-se com o teor dos artigos na secção de notícias. Onde está a notícia sobre o concerto no Casino Lisboa ou em alguns teatros? Não vejo… Na semana passada vi de tudo: desde o Ferrari do Cristiano Ronaldo, passando pelo filho do John Travolta, até às brigas de galinhas Lily Allen/Kate Perry. Até fiquei admirado por não ter visto uma notícia sobre mais uma das bufas da Amy Winehouse ou sobre os disparates egocêntricos do Noel Gallagher ou do Chris Martin.

    Ah e tal, e a qualidade da edição impressa? É melhor, mas paupérrima se comparada com a de outras publicações e com o fantasma do passado da edição jornal semanário.

    E a BLITZ é um mero exemplo…

  3. Zunkruft diz:

    Já agora, acrescento. Porque é que me saí com este exemplo?

    O porquê destas não-notícias no site? Porque suscitam a curiosidade e ao clicar a elas, acedemos, não só ao artigo mas… o número de hits aumenta também o número de vezes que foi visualizada a publicidade irritante aos fiascos comerciais da Renault ou a uma empresa de créditos chulistas.

    Está sozinha no mercado? Pois, mas isso não lhe dá o “direito” de querer comer todas as franjas de mercado/público de todas as publicações possíveis e imaginárias.

  4. pcarvalho diz:

    Não podem pôr as letras um pouco maiores?É que estas são microscópoicas

  5. Carlos Vidal diz:

    pcarvalho, um pequeno acidente, tem razão.
    Já corrigido.
    Leia agora com toda a atenção, pois o texto merece.

  6. Cara Ondina:
    As analogias históricas que faz para exemplificar a sordidez dos tablóides ingleses não são as melhores.
    Senão vejamos:
    Posse de grande quantidade de estupefaciente, com a agravante de se tratar de clínico em exercício.
    Adultério e desrespeito pelo lar conjugal.
    E, por último e mais grave, profanação de cemitério e racismo.
    Não concorda?
    Faça então o pequeno exercício de substituir o Freud por Fernandes, o Marx por Marques e Bakunin por….sei lá…Manuel Machado. Então? Com o que é que ficamos? Talvez crimes públicos?!
    A obra dos cavalheiros,anterior ou posterior, não desculpabiliza ou desresponsabiliza a sua conduta pessoal.
    Pessoalmente, e à excepção do Freud, que já era velhinho e que já há muito tinha ganho tinha direito à sua snifadela ocasional,os outros dois não penaram o suficiente. Talvez se tivesse evitado muita asneira subsequente.

    Salvaguardo no entanto, que apesar da infelicidade dos exemplos, no essencial do seu post concordo consigo, isto é, o espectáculo repugnante da devassa da vida privada que se assiste na sociedades contemporâneas, alimenta estes tablóides e é caucionada por aquela coisa tenebrosa do “não tenho nada a esconder”.

    Eu tenho muito a esconder, e não suportaria que os meus podres viessem a público.

    Keep up the good work

  7. ezequiel diz:

    Tinha bom gosto, o Freud. Hoje tou numa de interiores. 🙂

    Ondina kicks arse!! bolas, como diria um amigo meu, está FANTASBULASTICO!

    chorei de rir. wicked!

    London is amazin, innit! 🙂

    all the best

  8. Sara Costa diz:

    Estou a fazer um trabalho acerca do Jornalismo Sensacionalista será que me poderia ajudar?
    Sem mais, Sara Costa.
    SC_CS@nulllive.com.pt

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